Resenha: Mentirosos

maio 18, 2020

Em meados de 2014 eu li Mentirosos pela primeira vez. Lembro-me que na época houve grande falatório a respeito da obra pois muitas pessoas se surpreenderam com o final e eu, claro, não fiquei imune a surpresa. Gostei tanto do livro que favoritei no Skoob e guardei a minha cópia cheia de post-its com carinho na estante, anos depois presenteei uma amiga com o livro com a promessa de que ela iria amar e dito e feito, a menina ficou maravilhada com a história e hoje, após 5 anos eu reli essa obra por causa de uma leitura coletiva maravilhosa.

Na primeira vez que li Mentirosos eu me surpreendi tanto com a história que deixei alguns elementos de lado, ou talvez porque naquela época eu não era uma leitora tão critica quanto sou hoje em dia; Principalmente pelas questões de privilégios e preconceitos e acredito que por isso acabei gostando muito mais do livro hoje. Isso não muda o fato de que ele é um YA, mas muda um pouco mais a minha visão sobre esses livros serem importantes para a construção do pensamento critico dos jovens leitores. Infelizmente eu não tive essa experiencia, mas posso imaginar como é para os mais novos hoje em dia lerem algo como Mentirosos e refletirem sobre questões sociais dentro daquele enredo.
Meu avô é muito mais parecido com a minha mãe do que comigo. Ele apagou a antiga vida gastando dinheiro em outra para substitui-la.

Mas vamos lá, o livro conta a história da família Sinclair, onde todos são perfeitos, brancos, inteligentes e muito ricos. Pelo menos é o que eles demonstram o tempo todo. Não há margem para defeitos, não há perdão para qualquer atitude que não seja considerada de pessoa de bem e de classe e é assim que vive Cady, uma jovem de 17 anos que há dois anos sofreu um trauma e está com perda de memória seletiva além de outros problemas de saúde. Ela narra um pouco da sua infância e como era suas férias de verão na ilha pessoal da família e em como ela conheceu Gat, o garoto com descendência indiana que passa as férias  ali e não faz parte da família. Além de Gat ela passa seu tempo das férias com seus primos Johnny e Mirren. Todos ali tem a mesma idade e portanto são bastante próximos, são chamados pela família por Mentirosos.

Justamente por Gat ser a única pessoa ali que não faz parte da família e não é rico ele acaba questionando aos outros sobre as questões de privilégios e principalmente preconceito por parte do patriarca da família, o avô de Cady e dono de todo aquele império. Gosto bastante dos diálogos que os jovens tem ali, pois apesar de parecer profundo ele é tratado com muita inocência já eles ainda não entendem muito bem isso em uma questão social maior e algumas coisas eles vão percebendo ao observar suas mães vivendo juntas ali naquele ilha brigando por causa de herança antes mesmo do pai morrer.

Aliás, esses jovens... Eu acho que a única coisa que eu realmente queria ter igual a Cady é a tradição de passar tanto tempo com seus primos nas férias e ter a liberdade de fazer o que quiserem em um local seguro. Quando mais nova eu sempre tive muito contato com meus primos, mas alguns moram na mesma casa que eu, então tínhamos muito mais momentos de tretas do que qualquer outra coisa kkkk e infelizmente meus primos tem idades diferentes da minha, então haviam coisas que não conversávamos.



Fiquei muito feliz com essa releitura e com todas as marcações que fiz no livro (o amarelo são de 2014 e o laranja de 2020), pois agora pude refletir sobre outras questões das quais não tinha prestado atenção anteriormente e que fazem muita diferença para a resolução da história antes e depois do plot twist.

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Título: Mentirosos (We Were Liars) • Autora: E. Lockhart
Editora: Seguinte • Tradução: Flávia Souto Maior

Resenha: Não me Abandone Jamais

maio 15, 2020

Na minha postagem sobre autores vendedores do Nobel citei o livro Não me Abandone Jamais, do japonês Kazuo Ishiguro; que eu havia assistido a adaptação há alguns anos. Então aproveite o entusiamos que a postagem me deu para ler o livro e posso afirmar que foi a melhor decisão tomada, pois me deparei com um livro profundo e muito, mas muito lindo. Uma leitura para quem gosta de romance, drama, ficção cientifica e até mesmo infanto-juvenil. Pode parecer estranho, mas eu me senti muito a vontade com todos esses gêneros misturados nesta obra.

Apesar disso Não me Abandone Jamais é um livro muito melancólico e que me deixou bastante triste ao pensar em seus personagens conforme as revelações iam acontecendo. A obra é narrada pelo ponto de vista da jovem Kathy H., uma cuidadora de aproximadamente 30 anos, e em um contexto até mesmo biográfico somos apresentados a pequenos acontecimentos de sua primeira infância, infância e adolescência em Hailsham (uma especie de internato),  junto de seus amigos Ruth e Tommy, assim como a saída deles dali e o entendimento do que eles são de verdade e como eles se sentem em relação a isso.

Sem dar spoilers sobre o enredo, mas ainda assim usando de seus argumentos para falar sobre o livro, ao concluir a leitura pensei muito sobre o que é a arte em nossas vidas? Quais as artes que produzimos, mesmo que não sejamos um grande pintor ou musicista, que refletem quem somos; Que refletem até mesmo a nossa alma? Esses questionamentos surgem sutilmente com as revelações da obra e mesmo que ali não tenha nenhum efeito grandioso ainda assim para nós passar a ser a maior reflexão que o livro nos dá.
Quando me lembro daquele momento, hoje em dia, eu parada ao lado de Tommy numa ruazinha estreita, prestes a dar inicio à busca, sinto um calor bom me invadir o corpo. De repente, tudo parecia perfeito: uma hora inteira a nossa frente e nenhum jeito melhor de gasta-las. Tive de me controlar para não sair rindo feito uma boba nem começar a dar pulos na calçada como uma criança pequena. 

Kathy é uma personagem muito passiva e como narradora ela mesma entende essa característica ao nos contar sobre sua vida. Muitas vezes me irritei com sua passividade e em como ela permitia que as pessoas abusassem dela da forma como abusavam, mas ela era uma boa amiga e foi para todos até o final, com uma ponta de esperança que as coisas poderiam dar certo e as teorias da infância fossem reais e ao vê-la se decepcionando em contraste com outro personagem é muito ruim e como leitora me senti impotente em não ajuda-la.

Tenho certeza que esse livro irá te emocionar de alguma forma e te fazer repensar em conceitos sobre o ser humano e sua essência, assim como irá de fazer pensar em novos conceitos sobre a humanidade. Uma leitura bastante pesada no que diz respeito ao seu conteúdo mas necessária em paralelo com os rumos que a humanidade está tomando.

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Título: Não me Abandone Jamais (Never Let me Go) • Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Beth Vieira

Li até a página 100... e abandonei

maio 13, 2020

Há alguns meses iniciei a leitura do livro A Assombração da Casa da Colina, pois havia assistido a então adaptação da Netflix A Maldição da Residencia Hill (que não é bem uma adaptação, mas não vamos entrar nesse assunto agora). Gostei muito da série, pois ela conseguiu me assustar em alguns momentos e me deixar com medo em outros, além de todo o drama familiar que foi abordado e a depressão e vicio em drogas; Entretanto como não sabia sobre o livro quando o peguei para ler acabei me surpreendendo ao encontrar um enredo completamente diferente. Então aproveitando a tag "Li até a página 100" vou falar um pouco sobre o que me levou a abandonar essa leitura.

PRIMEIRA FRASE DA PÁGINA 100
"De verdade?", disse o doutor, encarando-a com interesse.

DO QUE SE TRATA O LIVRO?
No alto de uma colina existe uma casa onde, há rumores, de que é amaldiçoada. Um médico querendo fazer um experimento convida pessoas para passar uma temporada ali e contar suas experiencias. Uma das supostas moradoras tem um passado sombrio, que possivelmente está envolvido com a casa.

O QUE ESTÁ ACHANDO ATÉ AGORA?
Bom, como eu disse, eu abandonei a leitura deste livro. Não foi por me deparar com uma história completamente diferente da série da Netflix, mas abandonei pela narrativa que estava um pouco massante. A então protagonista, Eleanor, ao meu ver é muito avoada e parece que vive em um eterno chove e não molha. Os outros personagens até o momento não foram tão abordados, mas o pouco que foi mostrado não me fez ficar curiosa. A parte que deveria ser de terror e/ou suspense não me deixou intrigada.

O QUE ESTÁ ACHANDO DA PERSONAGEM PRINCIPAL?
Como eu falei ela é muito avoada. Não gosto dos pensamentos dela e da forma como ela está encarando a situação. A impressão que da é que a autora quis deixar ela super inocente e boa moça, mas para mim acabou não fazendo tanto sentido até o ponto da história em que eu li. 

VAI CONTINUAR LENDO?
Não. Cheguei no livro com muita sede ao pote e acabei me decepcionando logo nas primeiras páginas, então não vou prolongar mais essa leitura pois sinto que será uma perda de tempo. Não gosto de abandonar livros, mas acredito que temos que saber a hora de parar.

ÚLTIMA FRASE DA PÁGINA
 "Não acho que vou ler muito enquanto estiver aqui", ela declarou tentando não dar a entender que falava sério. "Não se os livros tiverem o cheiro da biblioteca."

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É isso... Abandonar um livro nem sempre é fácil, mas às vezes é necessário. Eu, particularmente, luto muito para abandonar alguma leitura, tento deixar para algum outro momento, só que existem livros que parece que não foram feitos para nós e ficar insistindo não é saudável e pode gerar uma cobrança não muito legal. 

Me contem qual livro você abandonou e o motivo. 

Resenha: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno

maio 11, 2020

Frankenstein é considerado um marco nas histórias de terror e ficção cientifica. Com um enredo envolvente e assustador é fácil saber o porque de ter se tornado um clássico da literatura mundial. Mary Shelley quando publicou pela primeira vez não pode usar seu nome na autoria do livro, pois havia um grande preconceito com livros escritos por mulheres naquela época, e usou então o nome de seu marido. Na cinebiografia da autora podemos conhecer um pouco sobre essa história e foi justamente através dela que me interessei em ler o clássico Frankenstein, ou o Prometeu Moderno.

Eu sempre achei que Frankenstein se tratava muito mais sobre um "monstro", criado por um homem, e que por alguma razão era mal. De fato a história é sobre isso, mas há algo muito mais profundo sobre a criatura sem nome da obra. Victor Frankenstein sempre foi um garoto inteligente e curioso para os estudos e isso foi ao longo da sua vida até a morte de sua mãe; A partir de então ele teve um novo objetivo: Criar uma vida. Sim, podemos dizer que Victor brincou de Deus. Após meses e meses de estudos e experiencias ele enfim teve o exito de sua criação, entretanto ao invés de ficar feliz ele passou a abominar a criatura sem motivo (somente pela sua aparência).

Lembrei-me da súplica de Adão a seu Criador. Mas onde estaria o meu? Ele me abandonara, e na amargura do meu coração amaldiçoei-o. 

Após a negação de seu criador a criatura foge e tenta viver em sociedade, entretanto ao perceber que as pessoas as renegam somente por sua aparência ele passa a viver recluso e observando uma família próxima do galpão onde ele se alojou. Essa, para mim, foi a melhor parte da história. A criatura nos conta essa história e nos mostra como foi que ele conseguiu seguir sozinho, aprender a falar e até mesmo a ler, além de entender o que é amor e compaixão e desejar mais do que nunca isso para si mesmo; Mas infelizmente as coisas nunca poderão ser boas para ele, ao que parece ele nunca terá o amor, seja de seu criador ou de qualquer outra pessoa. Ao percebe isso a criatura declara sua vingança contra seu criador, jurando o fazer infeliz ao matar todas as pessoas que ele ama.

A perseguição de um e outro acaba virando uma caça de gato e rato, mas no meio disso acabam ocorrendo diálogos sobre existência, amor, ciência e filosofia que acabam pegando o leitor desprevenidos. Eu, pelo menos, esperava algo muito mais ficcional e aterrorizante, mas me vi refletindo sobre o mito da criação e até mesmo sobre preconceitos que vejo acontecendo na internet nos dias atuais. Isso só mostra que a obra é atemporal e pode fazer todo e qualquer tipo de leitor refletir sobre a situação da criatura e do próprio Frankenstein, já que ambos são vilões da história do outro.

É um livro bastante instigante e, para quem gosta de algo mais profundo, bem filosófico. Um clássico fácil de ler e compreender com camadas que podem ser dissecadas pelos leitores ou que podem ser deixadas de lado somente para usufruir da história principal.

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Título: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (Frankenstein or the modern Prometheus) • Autora: Mary Shelley
Editora: Martin Claret • Tradução: Roberto Leal Ferreira

Resenha: Corpos Secos (um romance)

maio 01, 2020

Coincidência, ou não, logo após a pandemia da COVID-19 chegar ao Brasil a Companhia das Letras lançou um livro sobre um Brasil devastado após uma epidemia de zumbis (usando o termo popular). Essa história vem bem a calhar em tempos de quarentena, mesmo que os motivos e a doença seja diferente da que estamos vivendo.

O livro é escrito em parceria de quatro autores e nos trás capítulos intercalados com personagens diferentes, portanto vivendo situações diferentes da mesma epidemia. Eu gostei muito dessa abordagem, pois foi possível preservar a identidade de cada autor sem comprometer a história caso fosse de somente um único personagem. Claro que aqui há uma suposição de que cada autor teve a responsabilidade de dar vida a cada personagem ali retratado, ao invés de escrever para todos. De qualquer maneira gosto de pensar assim para não tirar a minha impressão da obra.

Alguns personagens foram bem retratados e o meu favorito foi Murilo, uma criança que prometeu ao irmão que cuidaria de seu peixe e se viu na obrigação de cumprir essa promessa quando sua família sai da base militar em que vivem para ir atrás da promessa de segurança em Florianópolis. A idade de Murilo não foi revelada na trama, mas em casa momento eu achava que ele tinha uma idade diferente e em certo ponto de sua história nem ele mesmo se vê como uma criança, já que acaba fazendo coisas de adultos, vendo coisas de adultos e tendo que agir como um adulto para a segurança de todos; Mas ao mesmo tempo ele não quer perder a sua identidade infantil e se relembra de que é apenas uma criança. A história de Murilo se relaciona diretamente com a de Matheus, seu irmão mais velho que vive em São Paulo e descobriu que, até então, é a única pessoa imune ao vírus e vem sendo estudado por pesquisadores e médicos na procura de uma cura. Matheus, ao meu ver, passou a ver a vida e até as pessoas, como insignificantes após um tempo preso no laboratório e tendo que lidar com a morte eminente de toda a população brasileira e acabei chegando a essa conclusão após um personagem que deveria ser importante para ele acabar morrendo e ele nem ao menos sentir essa morto, ele simplesmente aceita como sendo normal diante da situação em que ele está vivendo.

Além de Murilo e Matheus há mais duas personagens narradas na obra, mas que na minha percepção acabaram perdendo o brilho por causa do plot forte que teve dos dois irmãos. Apesar de Regina passar por péssimas situações, e pior ainda, situações que são totalmente possíveis em uma epidemia ou não, pouco entendi a respeito dessa personagem; Assim como Constância que não tinha muito senso de responsabilidade em alguns momentos. Mesmo com essa minha impressão das duas personagens eu ainda entendi o papel delas na obra e admirei a força e coragem que levaram as duas para o final escolhido pelos autores.

E por falar em final eu ainda não sei como me sentir em relação ao final desta obra. O livro tem menos de 200 páginas e eu sinto que poderiam ter mais umas 100 para dar outro tipo de final aos personagens, pois eu senti que ficou faltando alguma coisa naquela ideia de segurança que os autores tentaram colocar para nós. Pode ter sido intencional nos deixar na curiosidade, pode ter sido realmente um final em aberto para nos fazer pensar, mas eu me pergunto: pensar em que exatamente? As criticas sociais que o livro nos deu foram rasas, apesar de serem importantes em um contexto social, e ao meu ver não se sustentou ao longo da história e nem ao final.  Apesar de ter gostado da leitura de um modo geral acabei deixando com uma avaliação baixa no Skoob por causa disso. Pode ser que o problema tenha sido o meu entendimento do que estava sendo passado aos leitores, mas aí já não tenho como saber de imediato.

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Título: Corpos Secos (um romance) • Autores(as): Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso, Samir Machado de Machado • Editora: Alfaguara (Companhia das Letras)
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Resenha: Hibisco Roxo

abril 29, 2020

No final de 2019 iniciei a leitura de Hibisco Roxo pois queria ler um romance da Chimamanda, já que amo seus textos de não-ficção; E com minha participação em diversos grupos de leitura coletiva acabei abandonando a leitura pois este seria um dos livros selecionados para 2020, entretanto uma outra LC acabou colocando Hibisco Roxo na lista de Abril e vi a oportunidade de terminar o livro antes do que tinha planejado, até porque eu ainda estava com esse livro em minha mente querendo saber o que ocorreria com Kambili e sua família.

Hibisco Roxo irá nos apresentar a jovem nigeriana Kambili. Sua família é muito rica e seu pai é um homem  de grande influencia em sua comunidade, pois é muito católico e ajuda a todos os necessitados, é dono do principal jornal local e de diversas fábricas alimentícias; Entretanto dentro de casa a imagem que ele faz na sociedade se desfaz. Um homem muito rígido com os filhos e violento com a esposa e já foi, por diversas vezes, o causador dos abordos que ela teve ao longo do casamento; Com os filhos sempre exigiu religiosidade e disciplina com os estudos. E é sobre esse arco que a história irá se desenvolver, principalmente após Jaja (irmão mais velho de Kambili) se negar a tomar a hóstia na Missa de Ramos, o que para seu pai foi o absurdo.
Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com os meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos por acreditarmos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.

Eu acho que, até o momento, não tinha lido nenhum livro sobre intolerância religiosa e hipocrisia religiosa como Hibisco Roxo. Acho que a principal intenção de Chimamanda não foi essa, e sim mostrar a influencia que os brancos teve na Nigéria, principalmente em relação a cultura e religião, mas junto com isso anda esses dois aspectos que citei. O pai de Kambili é um homem tão exemplar e amado na sociedade, principalmente na sociedade católica e pelo próprio clero que seria impossível pensar que ele é tão ruim dentro da própria casa e em relação ao seu pai (que não mora com ele, mas sofre com a indiferença do filho por seguir a religião local). As atitudes desse homem narrada pela sua filha mais jovem não é boa de ler. Sabe quando você lê ou assiste um filme de terror e fica se remexendo com medo do próximo susto? Foi mais ou menos isso que senti ao ler as coisas que esse homem fazia aos filhos, e sempre que eles estavam reunidos, mesmo em um jantar, eu já morria de medo de um ato de violência.

Por odiar o personagem do pai de Kambili eu odiei todos os momentos em que ela demonstrou admiração e amor pelo pai, eu não consigo entender como ela poderia ser assim. É amor ou medo? Talvez um pouco dos dois, apesar de tudo. Mas gostei muito do desenvolvimento da personagem na trama, pois ela passou por um processo longo até entender que aquilo não era certo, que aquilo não acontecia em todas as casas, que seu pai sendo um homem bom fora de casa não anulava ele ser um homem ruim dentro de casa e consegui compreender que apesar de tudo isso ela ainda conseguia ama-lo por ele ser seu pai e mais nada. Kambili é muito expressiva conosco e sua narrativa é emocionante.

Eu amei esse conhecimento da cultura Nigeriana através da família da tia de Kambili, assim como alguns aspectos históricos; Mas é muito triste ver através de uma autora nigeriana (e não haverá ninguém melhor para nos contar isso do que uma autora nigeriana) o quanto nós, brancos, mudamos tanto um país e um continente com nossas imposições, sendo uma delas a religião. O livro debate muito isso e aprendemos junto com Kambili.

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Título: Hibisco Roxo (Purple Hibiscus) • Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Julia Romeu
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Essa leitura faz parte da LC de abril do grupo Abandonados da LC

Autores vencedores do Nobel para Ler

abril 27, 2020



Há 119 anos foi entregue o primeiro prêmio Nobel da Literatura e desde então todos os anos um autor ou autora de qualquer nacionalidade e idade é contemplado com o maior prêmio literário do mundo. Infelizmente ainda não tivemos nenhum brasileiro na lista, mas há autores(as) excepcionais com obras muito relevantes para a cultura mundial, literatura e história; E mesmo com várias polêmicas envolvendo a academia sueca responsável pela entrega do prêmio este ainda é um dos mais desejados e respeitados prêmios de literatura. Hoje vou falar 7 livros que quero ler de autores que ganharam o Nobel.


Hermann Hesse - O Lobo da Estepe

Já li duas obras de Hermann Hesse e gosto muito da literatura dele. Tem uma mistura de religião e filosofia e nos faz pensar muito, pois como leitores precisamos interpretar o que ele está nos contando, o que ele quer dizer, e o que isso significa. Mesmo tendo dificuldade com isso nas leituras anteriores, ainda assim, gostei muito de seus livros e agora preciso ler o seu maior sucesso.


Kazuo Ishiguro - Não me Abandone Jamais

Eu conheci Não me Abandone Jamais através de sua adaptação de 2010, mas só descobri que era uma adaptação em 2017, quando Ishiguro ganhou o Nobel e reconheci o nome do livro na lista de obras publicadas no Brasil. Desde então procuro uma oportunidade para ler, pois é uma história muito emocionante e que, acredito eu, tenha muito mais a contar além do filme.


Svetlana Aleksiévitch - A Guerra Não tem Rosto de Mulher

Todas as pessoas que conheço que leram esse livro falaram sobre ele ser muito pesado e de difícil de leitura, mas sendo um assunto tão interessante de ser entendido e estudado eu me peo com vontade de ler as obras da autora. Além deste quero ler Vozes de Tchernóbil.


Toni Morrison - Amada

Eu ainda não tive a oportunidade de ler nenhum romance da Toni Morrison, mas li um livro de ensaios maravilhoso e nem posso imaginar o que esperar de um romance. A primeira mulher negra a ganhar um Nobel (e até hoje a única) marcou uma época da literatura negra, não somente com suas colaborações, mas principalmente com o apoio a publicação de outros autores.

+ Conheça a Obra: A Origem dos Outros


José Saramago - O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Minha identificação com José Saramago vai um pouco além da admiração por sua obra (que eu só li um livro, até o momento, mas já amo); Vai também em encontro com suas opiniões, sobre o que ele fala com seus livros, e até atitudes pessoais. O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi lançado em 1991, o livro tem a minha idade, e ainda hoje é considerado... profano, por assim dizer.


William Golding - O Senhor das Moscas

Para ser sincera O Senhor das Moscas nunca foi um livro que tenha me chamado tanta atenção ao longo da vida, mas eu sempre acabo me deparando com referencias dele de alguma forma e por isso me sinto quase na obrigação de ler. Todos que conheço e que leram gostaram muito e tenho expectativa com ele.



Olga Tokarczuk - Sobre os Ossos dos Mortos

Ao contrário dos outros autores a Olga para mim foi uma descoberta inédita. Ela foi a última contemplada com o prêmio e eu não conheço nada sobre ela e sua obra, portanto minha vontade de ler seu livro é para conhece-la e formar uma opinião.

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E é isso!
Você já leu algum autor(a) que ganhou Nobel? Fala aqui um pouquinho da sua experiencia. 

Resenha: A Cor Púrpura

abril 24, 2020

Mais uma vez me aventurei em uma leitura difícil. Não pela escrita da autora ou algo assim, mas pela história tão triste e pesada que Alice Walker apresenta aos leitores com A Cor Púrpura. Neste livro escrito em formas de cartas ao longo de 40 (ou mais) anos conhecemos Celie, uma jovem negra que vive em uma pequena cidade em Georgia. Ela cresceu em uma casa onde viu por anos e anos sua mãe muito doente e teve que cuidar de seus irmãos mais novos, além de ser constantemente abusada por seu padrasto (psicologicamente, fisicamente e sexualmente). Celie foi obrigada a deixar a escola, quando ficou grávida teve seus filhos tomados de si, e aos 19 anos foi obrigada a se casar com um viúvo que era uma copia de seu padrasto. Além de perder os filhos Celie perdeu também a irmã, por quem sempre manteve a esperança de ver novamente.

Esse é um daqueles livros que nos emociona pela sua história, por todo o sofrimento de Celie, que mesmo vivendo miseravelmente ela ainda tem esperança de que as coisas podem melhorar. Ela não demonstra essa esperança ao leitor de forma clara, pois muitas vezes ela até reproduz coisas que as pessoas dizem sobre ela: feia, pobre, preta. Entretanto, além do livro emocionar pela história de sua protagonista ela mostra as leitoras (neste caso vou falar como uma leitora branca) todas as consequências que a escravidão deixou na vida das pessoas negras e seus descendentes. Na narrativa vemos situações em que uma mulher é negra é presa por ter desrespeitado uma branca rica, assim como a crença de pessoas brancas que acham que os negros devem fazer tudo por eles, ou até mesmo que é inadmissível um homem negro ter um carro e sair passeando com ele pela rua e pior ainda a ideia de que uma mulher negra artista só é entretenimento.

"Você tem que brigar. Você tem que brigar."
Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Algumas cartas foram escritas por uma segunda personagem (que eu não vou citar para não dar spoilers da obra) e ela se torna missionária na África, conhecendo uma parte da cultura africana e vivendo ali por muitos anos. Essa parte do livro nos trás uma boa reflexão sobre as mudanças que os brancos causaram na África desde a época da escravidão até o século XX (e provavelmente ainda hoje). O entendimento que essas pessoas tem de negros que vivem em outros países, o julgamento de sua cultura e preconceito por eles não se identificarem realmente com as crenças religiosas africanas.

Essa foi a primeira vez que li algo da Alice Walker e me surpreendi com a delicadeza da autora em nos mostrar uma história tão forte com uma escrita tão leve. A Cor Púrpura é fácil de ler e mesmo que você se sinta extremamente enojado com algumas situações que Celie sofre ainda assim ela sabe como deixar alguns detalhes nas entrelinhas, pois ela sabe que nós entendemos muito bem o que ela quis dizer.

É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou. 

A leitura de A Cor Púrpura faz parte da leitura coletiva do grupo Lendo Mulheres Negras. A foto é do meu amigo Alisson <3


Título: A Cor Púrpura (The Color Purple) • Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio • Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson

O Homem de Giz

abril 22, 2020


Um corpo. Quatro crianças. Várias pistas desenhadas. Essa é a trama d'O Homem de Giz, um suspense que conseguiu me prender do inicio ao fim. Sim, o livro não é só um fruto de bom marketing, ele é sim tudo isso que promete.

Temos uma história se passa em duas épocas diferentes, 1986 e 2016, e é narrada por Eddie, uma das crianças que encontra o corpo desmembrado de uma garota na floresta (que por sinal está sem cabeça e está nunca é encontrada). Na narrativa de Eddie sabemos como foi que as coisas caminharam até a morte da menina em 1986 e vemos quais foram as consequências posteriores. Após 30 anos o que levou os meninos até a floresta retorna (os homens de giz desenhados) e promessa de um desfecho para o caso.

De inicio Eddie não é um narrador muito confiável e seus problemas pessoas acabam interferindo em seu senso de justiça, entretanto suas lembranças do passado nos dão pistas importantes sobre o que houve no passado e infelizmente eu fui uma leitora que não percebeu essas pistas. C. J Tudor sabe como fazer o leitor de bobo no sentido de "ah, você achou que sabia o final", entende? Eddie está no inicio de Alzheimer então há momentos da narração que conseguimos sentir sua angustia e sua falha de memória e isso nos causa uma certa aflição por depender unica e exclusivamente dele para entender o que esta acontecendo na história, da mesma forma que faz o senso de realidade da história mudar a cada capitulo.

Não sei de verdade quais as influencias da autora para a criação dessa obra, mas para quem leu e sentiu aquela vibe IT (mas sem a parte de monstro) saiba que eu também tive essa sensação. História com crianças tentando desvendar um mistério que se estende anos após me fazem ter uma leitura prazerosa.

Título: O Homem de Giz (The Chalk Man) • Autora: C. J. Tudor
Editora: Intrínseca • Tradução: Alexandre Raposo
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TAG: Eu favoritei porque

abril 20, 2020
TAG

Para tentar tirar um pouco o foco de só resenhas, resenhas e mais resenhas por aqui hoje vou fazer uma tag. Estava no Instagram e vi essa tag no @leitoresestranhezas e super curti ela. Então bora ver minhas respostas.

❤ Eu Favorite Porque foi escrito pelo meu autor favorito
É bastante difícil escolher um favorito nessa categoria, pois todos os livros do Stephen King eu acabo favoritando de alguma forma. Mas escolhi O Instituto pela forma como o autor aborda o tema da obra com os relacionamentos de amizade e lealdade. Já tenho resenha dele aqui no blog, só clicar aqui para ler.

❤ Eu Favoritei Porque tem uma personagem mega Girl Power
Minha resposta aqui não será de uma personagem de ficção e sim da vida real. O livro escolhido é Eu sou Malala, pois adoro a Malala e acredito que não tenha garota mais girl power no momento do que ela. 

❤ Eu Favoritei Porque me emocionou de uma maneira única
O único livro que me emocionou muito, de verdade, até o momento foi Proibido. Ele tem um assunto bem polemico, mas a autora conseguiu deixar a história humanizada e faz com que fiquemos emocionadas ao ler. 

❤ Eu Favoritei Porque tem um romance dos sonhos
Ah, gente... Não consigo não amar o romance de Mil Pedaços de Você (na verdade a trilogia Firebird toda). Hoje em dia não sou uma apaixonada por romances, mas tem casais que nos pegam de um jeito né? Nesse caso é um amor que foi além das dimensões. Já tenho a resenha aqui no blog, de toda a trilogia, mas você pode ler o primeiro livro clicando aqui

❤ Eu Favoritei Porque tem o mocinho mais lindo e fofo
Ai gente... difícil escolher essa. Primeiro porque não leio muito romances e segundo que os únicos personagens que vem na minha mente são os que já falei tantas e tantas vezes aqui e dai eu fico repetitiva. Mas vou colocar Miles do livro Milhas de Distância, pois ele foi o mocinho mais humano que li no último ano, principalmente no sentido de sofrer, se foder muito, ir atrás de coisas que são importantes para ele e superar os esses mesmos problemas. 

❤ Eu Favoritei Porque é uma maravilha nacional
Vou colocar aqui um dos livros mais recentes de literatura nacional que li, Olhos d'Água da Conceição Evaristo. Gente, sério, que livro é esse? Tão real, tão Brasil, tão dolorido ler aquelas histórias. Leia minha resenha clicando aqui.

❤ Eu Favoritei Porque entendi que é um clássico
Sem sombras de dúvidas o livro que favoritei por ser um clássicos e por ser maravilhoso mesmo é Ensaio Sobre a Cegueira. O tipo de livro que fala muito sobre o ser humano, que fala muito sobre nossas atitudes, principalmente em situações de caos. O interessante é que mesmo sendo um livro de 1995 (um clássico contemporâneo) ele nos fala muito até sobre a atual pandemia que vivemos. 

❤ Eu Favoritei Porque trata de um assunto diferente do que estou habituada a ler
Bom, eu já li muitos gêneros que hoje em dia não leio e hoje em dia leio muitos gêneros que não lia antigamente e no meio de tudo isso o que eu não tenho costume de ler são os quadrinhos/graphic novls; Por isso que aqui eu escolho Lady Killer. Li em uma tarde ociosa e curti bastante a história da dona de casa que também é assassina de aluguel. 

Resenha: Mexa Comigo

abril 15, 2020
Livro no Kindle

Ao fim de 2019 eu me lancei um desafio para 2020: Ler alguns gêneros que não costumo ler/que não gosto. E após quatro meses, finalmente, li um livro do desafio. O escolhido foi Mexa Comigo, da autora brasileira Josy Stoque. O livro estava gratuito na Amazon e eu aproveitei para ler para meu desafio. A ideia era ler um livro hot, pois pelo pouco que conheço da autora sei que ela tem livros nesse gênero, mas ao iniciar a leitura me surpreendi a ver que o livro não é hot (bom, ele tem momentos sensuais e com sexo, mas eu imagino que os hots sejam focados nisso a maior parte da narrativa, né?). Então eu encaixei o livro em romance de época, mesmo não sendo aqueles que se passam no século XVIII e XIV ele  se encaixa no aspecto de época, pois a história se passa nos anos 1940 e conta os costumes da época (e alguns fatos históricos).

Esse livro não teria feito jus a sua participação do "Desafio Saindo da Zona de Conforto" se realmente não tivesse sido um desafio para mim. Livros de romance são fáceis de ler, de modo geral, e dependendo da narrativa algumas leitoras terminam em um dia. Eu li o livro em quatro dias e enrolando muito para isso. Em vários momentos pensei em abandonar e desistir, mas persisti pois acho importante cumprir uma meta quando estabelecemos uma e por isso cheguei ao final da obra. Já é perceptível que eu não me encantei com a leitura, como tantas leitoras que comentaram na Amazon e no Skoob, por exemplo, mas não quero focar meu texto na ideia de que eu li um gênero que eu não gosto.

Vamos ao fato: Josy Stoque é uma autora excepcional. Ela sabe criar uma narrativa que chama a atenção dos leitores e em tantos casos prender ao ponto de ninguém querer largar o livro. A personagem Giulia — uma imigrante italiana que vive na colônia com sua família sonha em ser dançarina famosa, mas o comportamento abusivo de seu pai a torna cada vez mais longe desse sonho até que sua mãe toma as rédeas da situação e a ajuda fugir para São Paulo — é uma moça determinada a conseguir o que deseja e não mede esforços para isso. Personagens assim encantam qualquer leitora e não vai achando que só porque ela é uma "moça da roça" que ela é burra e ingênua, pelo contrário. Giulia foi tantos anos maltratada pelo pai que não irá permitir que esse comportamento se repita por outra pessoa.

Ao chegar em São Paulo Giulia conhece Andrei, um francês que se mostra disposto a ajuda-la na realização de seu sonho, ensinando dança a ela, dando luxo, a tornando uma dama da sociedade. Ele é aquele personagem tipicamente misterioso que solta poucas informações sobre sua vida, de onde ele veio, como conseguiu tanta fortuna e, claro, o personagem que encanta a protagonista com seu jeito carinhoso. O romance que nasce entre eles é bem bonitinho e crível, nada muito sonhador e impossível de acontecer; Assim como todos os dramas que nascem com esse relacionamento. Como eu disse Andrei é misterioso, toda a sua história de vida tem segredos que demoramos a descobrir. A história se desenrola com alguns altos e baixos no relacionamento do casal, mas também temos os momentos de treino de Giulia até chegar ao seu ápice. Assim como todos os romances tem uma questão importante a ser resolvida na trama e nessa história é a família de Giulia, mas essa parte não vou falar nada para não estragar nenhuma surpresa.

Minha experiencia com a leitura pode não ter sido boa, mas este livro com certeza será minha indicação quando alguém procurar algum romance do tipo "água com açúcar" para ler. A história tem uma sequencia que é narrada por uma outra personagem da obra, então se você ler este e gostar ainda vai poder curtir um pouco as personagens.

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Título: Mexa Comigo • Autora: Josy Stoque • Editora: Independente

Resenha: Vox

abril 13, 2020

Quando VOX foi lançado houve um grande murmurio em relação a este livro, divulgação pesada e muitas blogueiras resenhando e falando bem desta obra, que falando a grosso modo pode ser vista como O Conto da Aia desse inicio de século. Sim, pode falar que estou sendo presunçosa, eu até estou um pouco (até porque, vamos combinar, que O Conto da Aia é um clássico muito, mas muito, bom). O negócio é que VOX tem uma premissa muito forte, uma premissa que pode chocar mulheres como eu (feminista, com opiniões sobre o patriarcado, e uma "estudante" do feminismo, por assim dizer), uma premissa que por mais absurda que seja ainda assim pode acontecer em algum momento (ou algo semelhante). Tá, tá, pode me chamar do que quiser, mas é só olhar para o mundo e ver como algumas posições politicas conservadoras estão cada vez mais em ascensão, é só olhar para a maior potencia mundial (que inclusive é onde a história do livro se passa) e você irá entender um pouco. Maaaaas vamos ao que interessa, né?

Em VOX, após uma eleição democrática onde a extrema-direita conservadora (e religiosa, diga-se de passagem) assume o poder um novo decreto é estabelecido, onde as mulheres devem deixar de trabalhar para cuidar da casa e da família e são impedidas de falar através de um contador de palavras que fica no braço como uma pulseira. As mulheres podem falar somente 100 palavras por dia e caso exceda esse número um pequeno choque que aumenta a freqüência a cada conjunto de palavras é ativado. Assim como as mulheres, os homossexuais também tem seus direitos tomados, indo em prisões-colonias sem poder falar uma única palavra. A protagonista era uma Dra em Neurociência e tinha um estudo sobre afasia e após um ano de sua pesquisa interrompida o governo a procura para continuar seus estudos e assim poder curar o irmão do presidente.

Jean sempre foi uma mulher comum. Ela estudou, se esforçou muito para chegar até onde chegou, tem um bom marido e bons filhos, mas Jean nunca foi uma mulher que se preocupou com questões politicas. Ela nunca questionou o governo, nunca exerceu seu direito de votar (lembrando que nos EUA o voto é facultativo) e tudo isso a assombra agora que ela vê todos seus direitos sendo tomados. Sim, ela se sente culpada de uma certa forma pois sabe que se tivesse lutado no passado possivelmente a situação não teria chego ao extremo como chegou. Jean é uma mulher imperfeita, assim como todos nós, e acredito que por isso que a autora colocou um aspecto negativo dela que pode "chocar" as leitoras. Não vou falar o que é, pois seria um spoiler, mas é algo que é ruim para uma pessoa ser, mesmo que a vida seja toda uma merda (e não era para Jean antes do decreto).

Bom, deixando a protagonista de lado, a autora soube elaborar uma boa história, apesar de ter dado a impressão de ter se perdido no meio do caminho por causa dos conflitos pessoais de Jean, e não de tudo o que estava acontecendo do governo/país. Pode ser sido a sua intenção, mas para mim não funcionou muito bem, pois ao abordar mais questões pessoais de Jean e deixar as questões politicas de lado ela esqueceu de que os leitores procuram informações sobre esse sistema, procuram entender de verdade o porque de ele funcionar e como foi que as pessoas passaram a aceitar isso (no caso do livro a autora já pressupôs que todos os homens héteros vão simplesmente aceitar que calem as mulheres, o que não é bem assim, já que mesmo que a maioria seja macho escroto, como gostamos de chamar, muitos ainda seriam contra). À partir desse meu ponto de vista eu senti que a obra estava lenta no inicio e corrida no final, o que foi péssima escolha, pois o final em que precisávamos de mais informações e detalhes sobre os acontecimentos e ela cortou esses detalhes na mudança de capítulo. Então veja bem, ao final de um capítulo o personagem X estava vivo e no inicio do próximo já estava sendo enterrado, entende? Acredito que nenhum leitor gosta de ler algo assim.

Concluindo, com uma premissa incrível VOX é um livro que deve sim ser lido, principalmente por pessoas céticas em relação a politica e governo conservador,  mas que em contrapartida tem algumas falhas em sua execução e pode desagradar aos leitores mais exigentes. De qualquer forma é um livro necessário pela sua abordagem principal e nos mostrar uma realidade que poderá nos tomar aos poucos.

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Título: Vox (Vox) • Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro • Tradução: Alves Calado



 
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