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Resenha: A Prometida

maio 20, 2020


Kiera Cass anuncia um novo livro, do nada, e claro que a internet vai praticamente abaixo. Expectativas foram criadas e elevadas a cada dia após a revelação de capa e sinopse e o hype da editora, não é para menos... uma autora muito querida pelas leitoras de YA e fantasia não poderíamos esperar outra coisa. Então imaginem a minha surpresa quando a Seguinte liberou o e-book do livro para seu parceiros e os que finalizavam a leitura não estavam felizes com a história que a autora nos entregou? Eu como não sou boba e nem nada fui logo lendo para tirar minhas próprias conclusões.
O que é uma amiga senão alguém que acredita que você consegue mais do que imagina? 

A Prometida, assim como o grande primeiro sucesso da autora A Seleção, se passa em um mundo de monarquia e, consequentemente, patriarcado. Hollis, a protagonista, é uma jovem que vive no palácio e chamou a atenção do rei Jameson após ele se cansar de outras garotas que estava cortejando. Pessoalmente ela não acredita que chamaria a atenção do rei mas ao mesmo tempo deseja toda essa atenção pois quer ser respeitada como uma rainha e fazer parte da história de Coroa (o nome do país deles) como as outras rainhas da história. E isso é basicamente tudo o que vimos de Hollis durante uma grande parte da história, infelizmente. Eu gosto muito quando leio um livro e, mesmo não amando a protagonista, ou algo assim, eu ainda sinto empatia e simpatia por ela e no fim das contas torço para que ela seja feliz, mas com Hollis foi diferente. Claro que não fiquei torcendo para ela se dar mal, mas eu não consegui me conectar de verdade com ela. Enquanto Hollis dizia estar apaixonada pelo rei eu nunca senti de verdade lendo suas palavras de paixão e sensações que isso era real, da mesma forma que eu também não senti isso quando ele teve Silas (sim, temos novamente um triangulo amoroso). Apesar de a sinopse prometer uma personagem de opiniões fortes ela foi somente uma personagem comum, principalmente se colocarmos em contraste com Delia Grace (a melhor amiga e dama de companhia das Hollis); que sempre foi vista a margem daquela sociedade e sempre se dedicou para ser uma pessoa bem vista conforme suas virtudes. Delia Grade estudava línguas, politica, história e tudo o mais e ela sim poderia ter nos apresentado opiniões fortes, mas foi ofuscada pela sua amiga que era preguiçosa e só pensava em vantagens que a realeza poderia lhe dar.

Sobre os demais personagens, infelizmente, também não tem profundidade. Eu me pergunto como um livro com cerca de 350 páginas conseguiu não se aprofundar em nada na história de seus personagens. Mesmo quando Silas apareceu com sua família, sendo refugiados de um reino vizinho, demorou muito tempo para uma pequena explicação sobre eles ser dadas a nós e o que me deu mais raiva nisso foi a falta de curiosidade Hollis, mesmo percebendo que tinha algo errado. Talvez isso prove o ponto que eu disse no paragrafo anterior a respeito dela. Mesmo a história do rei Jameson, que teoricamente ela deveria saber por viver dentro do palácio ainda assim foi um mistério grande parte da obra (mesmo que não tenha grandes coisas a serem reveladas nesse quesito). E por falar no rei eu preciso aplaudir a Kiera por saber fazer reis tão insuportáveis em seus livros. O rei Jameson até parece ser um homem legal no inicio do livro, mas aos poucos algumas de suas falas revelam parte da sua personalidade, que por acaso é a personalidade que um rei deve ter ainda mais em uma sociedade patriarcal como Coroa é, então não deveria haver surpresas nisso, entretanto por ser um romance é claro que eu queria ele fosse um fofo.
O amor é a sobremesa de um banquete para o qual e ainda estou esperando convite. 

Ao contrário do que parece, em um contexto geral, eu gostei do livro. Mesmo sem nos mostrar muito sobre os personagens a autora me conquistou com a história em si, mostrando um preconceito que as pessoas tem por estrangeiros e com desejo de ser algo maior do que é. O livro em si tem um clima bastante alegre e é muito gostoso de ler (eu terminei em um dia), e por se tratar de uma duologia é claro que o final tem surpresas que abrem debates para as leitoras criar teorias sobre o futuro das personagens. Eu vou sim ler a sequencia quando sair e vou torcer para que a autora não volte atrás em algumas decisões, mas que ainda assim seja um final digno de princesa para Hollis.

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Título: A Prometida (The Betrothed) • Autora: Kiera Cass
Editora: Seguinte • Tradução: Cristian Clemente

Resenha: Mentirosos

maio 18, 2020

Em meados de 2014 eu li Mentirosos pela primeira vez. Lembro-me que na época houve grande falatório a respeito da obra pois muitas pessoas se surpreenderam com o final e eu, claro, não fiquei imune a surpresa. Gostei tanto do livro que favoritei no Skoob e guardei a minha cópia cheia de post-its com carinho na estante, anos depois presenteei uma amiga com o livro com a promessa de que ela iria amar e dito e feito, a menina ficou maravilhada com a história e hoje, após 5 anos eu reli essa obra por causa de uma leitura coletiva maravilhosa.

Na primeira vez que li Mentirosos eu me surpreendi tanto com a história que deixei alguns elementos de lado, ou talvez porque naquela época eu não era uma leitora tão critica quanto sou hoje em dia; Principalmente pelas questões de privilégios e preconceitos e acredito que por isso acabei gostando muito mais do livro hoje. Isso não muda o fato de que ele é um YA, mas muda um pouco mais a minha visão sobre esses livros serem importantes para a construção do pensamento critico dos jovens leitores. Infelizmente eu não tive essa experiencia, mas posso imaginar como é para os mais novos hoje em dia lerem algo como Mentirosos e refletirem sobre questões sociais dentro daquele enredo.
Meu avô é muito mais parecido com a minha mãe do que comigo. Ele apagou a antiga vida gastando dinheiro em outra para substitui-la.

Mas vamos lá, o livro conta a história da família Sinclair, onde todos são perfeitos, brancos, inteligentes e muito ricos. Pelo menos é o que eles demonstram o tempo todo. Não há margem para defeitos, não há perdão para qualquer atitude que não seja considerada de pessoa de bem e de classe e é assim que vive Cady, uma jovem de 17 anos que há dois anos sofreu um trauma e está com perda de memória seletiva além de outros problemas de saúde. Ela narra um pouco da sua infância e como era suas férias de verão na ilha pessoal da família e em como ela conheceu Gat, o garoto com descendência indiana que passa as férias  ali e não faz parte da família. Além de Gat ela passa seu tempo das férias com seus primos Johnny e Mirren. Todos ali tem a mesma idade e portanto são bastante próximos, são chamados pela família por Mentirosos.

Justamente por Gat ser a única pessoa ali que não faz parte da família e não é rico ele acaba questionando aos outros sobre as questões de privilégios e principalmente preconceito por parte do patriarca da família, o avô de Cady e dono de todo aquele império. Gosto bastante dos diálogos que os jovens tem ali, pois apesar de parecer profundo ele é tratado com muita inocência já eles ainda não entendem muito bem isso em uma questão social maior e algumas coisas eles vão percebendo ao observar suas mães vivendo juntas ali naquele ilha brigando por causa de herança antes mesmo do pai morrer.

Aliás, esses jovens... Eu acho que a única coisa que eu realmente queria ter igual a Cady é a tradição de passar tanto tempo com seus primos nas férias e ter a liberdade de fazer o que quiserem em um local seguro. Quando mais nova eu sempre tive muito contato com meus primos, mas alguns moram na mesma casa que eu, então tínhamos muito mais momentos de tretas do que qualquer outra coisa kkkk e infelizmente meus primos tem idades diferentes da minha, então haviam coisas que não conversávamos.



Fiquei muito feliz com essa releitura e com todas as marcações que fiz no livro (o amarelo são de 2014 e o laranja de 2020), pois agora pude refletir sobre outras questões das quais não tinha prestado atenção anteriormente e que fazem muita diferença para a resolução da história antes e depois do plot twist.

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Título: Mentirosos (We Were Liars) • Autora: E. Lockhart
Editora: Seguinte • Tradução: Flávia Souto Maior

Resenha: Não me Abandone Jamais

maio 15, 2020

Na minha postagem sobre autores vendedores do Nobel citei o livro Não me Abandone Jamais, do japonês Kazuo Ishiguro; que eu havia assistido a adaptação há alguns anos. Então aproveite o entusiamos que a postagem me deu para ler o livro e posso afirmar que foi a melhor decisão tomada, pois me deparei com um livro profundo e muito, mas muito lindo. Uma leitura para quem gosta de romance, drama, ficção cientifica e até mesmo infanto-juvenil. Pode parecer estranho, mas eu me senti muito a vontade com todos esses gêneros misturados nesta obra.

Apesar disso Não me Abandone Jamais é um livro muito melancólico e que me deixou bastante triste ao pensar em seus personagens conforme as revelações iam acontecendo. A obra é narrada pelo ponto de vista da jovem Kathy H., uma cuidadora de aproximadamente 30 anos, e em um contexto até mesmo biográfico somos apresentados a pequenos acontecimentos de sua primeira infância, infância e adolescência em Hailsham (uma especie de internato),  junto de seus amigos Ruth e Tommy, assim como a saída deles dali e o entendimento do que eles são de verdade e como eles se sentem em relação a isso.

Sem dar spoilers sobre o enredo, mas ainda assim usando de seus argumentos para falar sobre o livro, ao concluir a leitura pensei muito sobre o que é a arte em nossas vidas? Quais as artes que produzimos, mesmo que não sejamos um grande pintor ou musicista, que refletem quem somos; Que refletem até mesmo a nossa alma? Esses questionamentos surgem sutilmente com as revelações da obra e mesmo que ali não tenha nenhum efeito grandioso ainda assim para nós passar a ser a maior reflexão que o livro nos dá.
Quando me lembro daquele momento, hoje em dia, eu parada ao lado de Tommy numa ruazinha estreita, prestes a dar inicio à busca, sinto um calor bom me invadir o corpo. De repente, tudo parecia perfeito: uma hora inteira a nossa frente e nenhum jeito melhor de gasta-las. Tive de me controlar para não sair rindo feito uma boba nem começar a dar pulos na calçada como uma criança pequena. 

Kathy é uma personagem muito passiva e como narradora ela mesma entende essa característica ao nos contar sobre sua vida. Muitas vezes me irritei com sua passividade e em como ela permitia que as pessoas abusassem dela da forma como abusavam, mas ela era uma boa amiga e foi para todos até o final, com uma ponta de esperança que as coisas poderiam dar certo e as teorias da infância fossem reais e ao vê-la se decepcionando em contraste com outro personagem é muito ruim e como leitora me senti impotente em não ajuda-la.

Tenho certeza que esse livro irá te emocionar de alguma forma e te fazer repensar em conceitos sobre o ser humano e sua essência, assim como irá de fazer pensar em novos conceitos sobre a humanidade. Uma leitura bastante pesada no que diz respeito ao seu conteúdo mas necessária em paralelo com os rumos que a humanidade está tomando.

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Título: Não me Abandone Jamais (Never Let me Go) • Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Beth Vieira

Resenha: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno

maio 11, 2020

Frankenstein é considerado um marco nas histórias de terror e ficção cientifica. Com um enredo envolvente e assustador é fácil saber o porque de ter se tornado um clássico da literatura mundial. Mary Shelley quando publicou pela primeira vez não pode usar seu nome na autoria do livro, pois havia um grande preconceito com livros escritos por mulheres naquela época, e usou então o nome de seu marido. Na cinebiografia da autora podemos conhecer um pouco sobre essa história e foi justamente através dela que me interessei em ler o clássico Frankenstein, ou o Prometeu Moderno.

Eu sempre achei que Frankenstein se tratava muito mais sobre um "monstro", criado por um homem, e que por alguma razão era mal. De fato a história é sobre isso, mas há algo muito mais profundo sobre a criatura sem nome da obra. Victor Frankenstein sempre foi um garoto inteligente e curioso para os estudos e isso foi ao longo da sua vida até a morte de sua mãe; A partir de então ele teve um novo objetivo: Criar uma vida. Sim, podemos dizer que Victor brincou de Deus. Após meses e meses de estudos e experiencias ele enfim teve o exito de sua criação, entretanto ao invés de ficar feliz ele passou a abominar a criatura sem motivo (somente pela sua aparência).

Lembrei-me da súplica de Adão a seu Criador. Mas onde estaria o meu? Ele me abandonara, e na amargura do meu coração amaldiçoei-o. 

Após a negação de seu criador a criatura foge e tenta viver em sociedade, entretanto ao perceber que as pessoas as renegam somente por sua aparência ele passa a viver recluso e observando uma família próxima do galpão onde ele se alojou. Essa, para mim, foi a melhor parte da história. A criatura nos conta essa história e nos mostra como foi que ele conseguiu seguir sozinho, aprender a falar e até mesmo a ler, além de entender o que é amor e compaixão e desejar mais do que nunca isso para si mesmo; Mas infelizmente as coisas nunca poderão ser boas para ele, ao que parece ele nunca terá o amor, seja de seu criador ou de qualquer outra pessoa. Ao percebe isso a criatura declara sua vingança contra seu criador, jurando o fazer infeliz ao matar todas as pessoas que ele ama.

A perseguição de um e outro acaba virando uma caça de gato e rato, mas no meio disso acabam ocorrendo diálogos sobre existência, amor, ciência e filosofia que acabam pegando o leitor desprevenidos. Eu, pelo menos, esperava algo muito mais ficcional e aterrorizante, mas me vi refletindo sobre o mito da criação e até mesmo sobre preconceitos que vejo acontecendo na internet nos dias atuais. Isso só mostra que a obra é atemporal e pode fazer todo e qualquer tipo de leitor refletir sobre a situação da criatura e do próprio Frankenstein, já que ambos são vilões da história do outro.

É um livro bastante instigante e, para quem gosta de algo mais profundo, bem filosófico. Um clássico fácil de ler e compreender com camadas que podem ser dissecadas pelos leitores ou que podem ser deixadas de lado somente para usufruir da história principal.

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Título: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (Frankenstein or the modern Prometheus) • Autora: Mary Shelley
Editora: Martin Claret • Tradução: Roberto Leal Ferreira

Resenha: Corpos Secos (um romance)

maio 01, 2020

Coincidência, ou não, logo após a pandemia da COVID-19 chegar ao Brasil a Companhia das Letras lançou um livro sobre um Brasil devastado após uma epidemia de zumbis (usando o termo popular). Essa história vem bem a calhar em tempos de quarentena, mesmo que os motivos e a doença seja diferente da que estamos vivendo.

O livro é escrito em parceria de quatro autores e nos trás capítulos intercalados com personagens diferentes, portanto vivendo situações diferentes da mesma epidemia. Eu gostei muito dessa abordagem, pois foi possível preservar a identidade de cada autor sem comprometer a história caso fosse de somente um único personagem. Claro que aqui há uma suposição de que cada autor teve a responsabilidade de dar vida a cada personagem ali retratado, ao invés de escrever para todos. De qualquer maneira gosto de pensar assim para não tirar a minha impressão da obra.

Alguns personagens foram bem retratados e o meu favorito foi Murilo, uma criança que prometeu ao irmão que cuidaria de seu peixe e se viu na obrigação de cumprir essa promessa quando sua família sai da base militar em que vivem para ir atrás da promessa de segurança em Florianópolis. A idade de Murilo não foi revelada na trama, mas em casa momento eu achava que ele tinha uma idade diferente e em certo ponto de sua história nem ele mesmo se vê como uma criança, já que acaba fazendo coisas de adultos, vendo coisas de adultos e tendo que agir como um adulto para a segurança de todos; Mas ao mesmo tempo ele não quer perder a sua identidade infantil e se relembra de que é apenas uma criança. A história de Murilo se relaciona diretamente com a de Matheus, seu irmão mais velho que vive em São Paulo e descobriu que, até então, é a única pessoa imune ao vírus e vem sendo estudado por pesquisadores e médicos na procura de uma cura. Matheus, ao meu ver, passou a ver a vida e até as pessoas, como insignificantes após um tempo preso no laboratório e tendo que lidar com a morte eminente de toda a população brasileira e acabei chegando a essa conclusão após um personagem que deveria ser importante para ele acabar morrendo e ele nem ao menos sentir essa morto, ele simplesmente aceita como sendo normal diante da situação em que ele está vivendo.

Além de Murilo e Matheus há mais duas personagens narradas na obra, mas que na minha percepção acabaram perdendo o brilho por causa do plot forte que teve dos dois irmãos. Apesar de Regina passar por péssimas situações, e pior ainda, situações que são totalmente possíveis em uma epidemia ou não, pouco entendi a respeito dessa personagem; Assim como Constância que não tinha muito senso de responsabilidade em alguns momentos. Mesmo com essa minha impressão das duas personagens eu ainda entendi o papel delas na obra e admirei a força e coragem que levaram as duas para o final escolhido pelos autores.

E por falar em final eu ainda não sei como me sentir em relação ao final desta obra. O livro tem menos de 200 páginas e eu sinto que poderiam ter mais umas 100 para dar outro tipo de final aos personagens, pois eu senti que ficou faltando alguma coisa naquela ideia de segurança que os autores tentaram colocar para nós. Pode ter sido intencional nos deixar na curiosidade, pode ter sido realmente um final em aberto para nos fazer pensar, mas eu me pergunto: pensar em que exatamente? As criticas sociais que o livro nos deu foram rasas, apesar de serem importantes em um contexto social, e ao meu ver não se sustentou ao longo da história e nem ao final.  Apesar de ter gostado da leitura de um modo geral acabei deixando com uma avaliação baixa no Skoob por causa disso. Pode ser que o problema tenha sido o meu entendimento do que estava sendo passado aos leitores, mas aí já não tenho como saber de imediato.

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Título: Corpos Secos (um romance) • Autores(as): Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso, Samir Machado de Machado • Editora: Alfaguara (Companhia das Letras)
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Resenha: Hibisco Roxo

abril 29, 2020

No final de 2019 iniciei a leitura de Hibisco Roxo pois queria ler um romance da Chimamanda, já que amo seus textos de não-ficção; E com minha participação em diversos grupos de leitura coletiva acabei abandonando a leitura pois este seria um dos livros selecionados para 2020, entretanto uma outra LC acabou colocando Hibisco Roxo na lista de Abril e vi a oportunidade de terminar o livro antes do que tinha planejado, até porque eu ainda estava com esse livro em minha mente querendo saber o que ocorreria com Kambili e sua família.

Hibisco Roxo irá nos apresentar a jovem nigeriana Kambili. Sua família é muito rica e seu pai é um homem  de grande influencia em sua comunidade, pois é muito católico e ajuda a todos os necessitados, é dono do principal jornal local e de diversas fábricas alimentícias; Entretanto dentro de casa a imagem que ele faz na sociedade se desfaz. Um homem muito rígido com os filhos e violento com a esposa e já foi, por diversas vezes, o causador dos abordos que ela teve ao longo do casamento; Com os filhos sempre exigiu religiosidade e disciplina com os estudos. E é sobre esse arco que a história irá se desenvolver, principalmente após Jaja (irmão mais velho de Kambili) se negar a tomar a hóstia na Missa de Ramos, o que para seu pai foi o absurdo.
Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com os meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos por acreditarmos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.

Eu acho que, até o momento, não tinha lido nenhum livro sobre intolerância religiosa e hipocrisia religiosa como Hibisco Roxo. Acho que a principal intenção de Chimamanda não foi essa, e sim mostrar a influencia que os brancos teve na Nigéria, principalmente em relação a cultura e religião, mas junto com isso anda esses dois aspectos que citei. O pai de Kambili é um homem tão exemplar e amado na sociedade, principalmente na sociedade católica e pelo próprio clero que seria impossível pensar que ele é tão ruim dentro da própria casa e em relação ao seu pai (que não mora com ele, mas sofre com a indiferença do filho por seguir a religião local). As atitudes desse homem narrada pela sua filha mais jovem não é boa de ler. Sabe quando você lê ou assiste um filme de terror e fica se remexendo com medo do próximo susto? Foi mais ou menos isso que senti ao ler as coisas que esse homem fazia aos filhos, e sempre que eles estavam reunidos, mesmo em um jantar, eu já morria de medo de um ato de violência.

Por odiar o personagem do pai de Kambili eu odiei todos os momentos em que ela demonstrou admiração e amor pelo pai, eu não consigo entender como ela poderia ser assim. É amor ou medo? Talvez um pouco dos dois, apesar de tudo. Mas gostei muito do desenvolvimento da personagem na trama, pois ela passou por um processo longo até entender que aquilo não era certo, que aquilo não acontecia em todas as casas, que seu pai sendo um homem bom fora de casa não anulava ele ser um homem ruim dentro de casa e consegui compreender que apesar de tudo isso ela ainda conseguia ama-lo por ele ser seu pai e mais nada. Kambili é muito expressiva conosco e sua narrativa é emocionante.

Eu amei esse conhecimento da cultura Nigeriana através da família da tia de Kambili, assim como alguns aspectos históricos; Mas é muito triste ver através de uma autora nigeriana (e não haverá ninguém melhor para nos contar isso do que uma autora nigeriana) o quanto nós, brancos, mudamos tanto um país e um continente com nossas imposições, sendo uma delas a religião. O livro debate muito isso e aprendemos junto com Kambili.

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Título: Hibisco Roxo (Purple Hibiscus) • Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Julia Romeu
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Essa leitura faz parte da LC de abril do grupo Abandonados da LC

Resenha: A Cor Púrpura

abril 24, 2020

Mais uma vez me aventurei em uma leitura difícil. Não pela escrita da autora ou algo assim, mas pela história tão triste e pesada que Alice Walker apresenta aos leitores com A Cor Púrpura. Neste livro escrito em formas de cartas ao longo de 40 (ou mais) anos conhecemos Celie, uma jovem negra que vive em uma pequena cidade em Georgia. Ela cresceu em uma casa onde viu por anos e anos sua mãe muito doente e teve que cuidar de seus irmãos mais novos, além de ser constantemente abusada por seu padrasto (psicologicamente, fisicamente e sexualmente). Celie foi obrigada a deixar a escola, quando ficou grávida teve seus filhos tomados de si, e aos 19 anos foi obrigada a se casar com um viúvo que era uma copia de seu padrasto. Além de perder os filhos Celie perdeu também a irmã, por quem sempre manteve a esperança de ver novamente.

Esse é um daqueles livros que nos emociona pela sua história, por todo o sofrimento de Celie, que mesmo vivendo miseravelmente ela ainda tem esperança de que as coisas podem melhorar. Ela não demonstra essa esperança ao leitor de forma clara, pois muitas vezes ela até reproduz coisas que as pessoas dizem sobre ela: feia, pobre, preta. Entretanto, além do livro emocionar pela história de sua protagonista ela mostra as leitoras (neste caso vou falar como uma leitora branca) todas as consequências que a escravidão deixou na vida das pessoas negras e seus descendentes. Na narrativa vemos situações em que uma mulher é negra é presa por ter desrespeitado uma branca rica, assim como a crença de pessoas brancas que acham que os negros devem fazer tudo por eles, ou até mesmo que é inadmissível um homem negro ter um carro e sair passeando com ele pela rua e pior ainda a ideia de que uma mulher negra artista só é entretenimento.

"Você tem que brigar. Você tem que brigar."
Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Algumas cartas foram escritas por uma segunda personagem (que eu não vou citar para não dar spoilers da obra) e ela se torna missionária na África, conhecendo uma parte da cultura africana e vivendo ali por muitos anos. Essa parte do livro nos trás uma boa reflexão sobre as mudanças que os brancos causaram na África desde a época da escravidão até o século XX (e provavelmente ainda hoje). O entendimento que essas pessoas tem de negros que vivem em outros países, o julgamento de sua cultura e preconceito por eles não se identificarem realmente com as crenças religiosas africanas.

Essa foi a primeira vez que li algo da Alice Walker e me surpreendi com a delicadeza da autora em nos mostrar uma história tão forte com uma escrita tão leve. A Cor Púrpura é fácil de ler e mesmo que você se sinta extremamente enojado com algumas situações que Celie sofre ainda assim ela sabe como deixar alguns detalhes nas entrelinhas, pois ela sabe que nós entendemos muito bem o que ela quis dizer.

É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou. 

A leitura de A Cor Púrpura faz parte da leitura coletiva do grupo Lendo Mulheres Negras. A foto é do meu amigo Alisson <3


Título: A Cor Púrpura (The Color Purple) • Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio • Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson


 
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