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Resenha: Não me Abandone Jamais

maio 15, 2020

Na minha postagem sobre autores vendedores do Nobel citei o livro Não me Abandone Jamais, do japonês Kazuo Ishiguro; que eu havia assistido a adaptação há alguns anos. Então aproveite o entusiamos que a postagem me deu para ler o livro e posso afirmar que foi a melhor decisão tomada, pois me deparei com um livro profundo e muito, mas muito lindo. Uma leitura para quem gosta de romance, drama, ficção cientifica e até mesmo infanto-juvenil. Pode parecer estranho, mas eu me senti muito a vontade com todos esses gêneros misturados nesta obra.

Apesar disso Não me Abandone Jamais é um livro muito melancólico e que me deixou bastante triste ao pensar em seus personagens conforme as revelações iam acontecendo. A obra é narrada pelo ponto de vista da jovem Kathy H., uma cuidadora de aproximadamente 30 anos, e em um contexto até mesmo biográfico somos apresentados a pequenos acontecimentos de sua primeira infância, infância e adolescência em Hailsham (uma especie de internato),  junto de seus amigos Ruth e Tommy, assim como a saída deles dali e o entendimento do que eles são de verdade e como eles se sentem em relação a isso.

Sem dar spoilers sobre o enredo, mas ainda assim usando de seus argumentos para falar sobre o livro, ao concluir a leitura pensei muito sobre o que é a arte em nossas vidas? Quais as artes que produzimos, mesmo que não sejamos um grande pintor ou musicista, que refletem quem somos; Que refletem até mesmo a nossa alma? Esses questionamentos surgem sutilmente com as revelações da obra e mesmo que ali não tenha nenhum efeito grandioso ainda assim para nós passar a ser a maior reflexão que o livro nos dá.
Quando me lembro daquele momento, hoje em dia, eu parada ao lado de Tommy numa ruazinha estreita, prestes a dar inicio à busca, sinto um calor bom me invadir o corpo. De repente, tudo parecia perfeito: uma hora inteira a nossa frente e nenhum jeito melhor de gasta-las. Tive de me controlar para não sair rindo feito uma boba nem começar a dar pulos na calçada como uma criança pequena. 

Kathy é uma personagem muito passiva e como narradora ela mesma entende essa característica ao nos contar sobre sua vida. Muitas vezes me irritei com sua passividade e em como ela permitia que as pessoas abusassem dela da forma como abusavam, mas ela era uma boa amiga e foi para todos até o final, com uma ponta de esperança que as coisas poderiam dar certo e as teorias da infância fossem reais e ao vê-la se decepcionando em contraste com outro personagem é muito ruim e como leitora me senti impotente em não ajuda-la.

Tenho certeza que esse livro irá te emocionar de alguma forma e te fazer repensar em conceitos sobre o ser humano e sua essência, assim como irá de fazer pensar em novos conceitos sobre a humanidade. Uma leitura bastante pesada no que diz respeito ao seu conteúdo mas necessária em paralelo com os rumos que a humanidade está tomando.

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Título: Não me Abandone Jamais (Never Let me Go) • Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Beth Vieira

Resenha: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno

maio 11, 2020

Frankenstein é considerado um marco nas histórias de terror e ficção cientifica. Com um enredo envolvente e assustador é fácil saber o porque de ter se tornado um clássico da literatura mundial. Mary Shelley quando publicou pela primeira vez não pode usar seu nome na autoria do livro, pois havia um grande preconceito com livros escritos por mulheres naquela época, e usou então o nome de seu marido. Na cinebiografia da autora podemos conhecer um pouco sobre essa história e foi justamente através dela que me interessei em ler o clássico Frankenstein, ou o Prometeu Moderno.

Eu sempre achei que Frankenstein se tratava muito mais sobre um "monstro", criado por um homem, e que por alguma razão era mal. De fato a história é sobre isso, mas há algo muito mais profundo sobre a criatura sem nome da obra. Victor Frankenstein sempre foi um garoto inteligente e curioso para os estudos e isso foi ao longo da sua vida até a morte de sua mãe; A partir de então ele teve um novo objetivo: Criar uma vida. Sim, podemos dizer que Victor brincou de Deus. Após meses e meses de estudos e experiencias ele enfim teve o exito de sua criação, entretanto ao invés de ficar feliz ele passou a abominar a criatura sem motivo (somente pela sua aparência).

Lembrei-me da súplica de Adão a seu Criador. Mas onde estaria o meu? Ele me abandonara, e na amargura do meu coração amaldiçoei-o. 

Após a negação de seu criador a criatura foge e tenta viver em sociedade, entretanto ao perceber que as pessoas as renegam somente por sua aparência ele passa a viver recluso e observando uma família próxima do galpão onde ele se alojou. Essa, para mim, foi a melhor parte da história. A criatura nos conta essa história e nos mostra como foi que ele conseguiu seguir sozinho, aprender a falar e até mesmo a ler, além de entender o que é amor e compaixão e desejar mais do que nunca isso para si mesmo; Mas infelizmente as coisas nunca poderão ser boas para ele, ao que parece ele nunca terá o amor, seja de seu criador ou de qualquer outra pessoa. Ao percebe isso a criatura declara sua vingança contra seu criador, jurando o fazer infeliz ao matar todas as pessoas que ele ama.

A perseguição de um e outro acaba virando uma caça de gato e rato, mas no meio disso acabam ocorrendo diálogos sobre existência, amor, ciência e filosofia que acabam pegando o leitor desprevenidos. Eu, pelo menos, esperava algo muito mais ficcional e aterrorizante, mas me vi refletindo sobre o mito da criação e até mesmo sobre preconceitos que vejo acontecendo na internet nos dias atuais. Isso só mostra que a obra é atemporal e pode fazer todo e qualquer tipo de leitor refletir sobre a situação da criatura e do próprio Frankenstein, já que ambos são vilões da história do outro.

É um livro bastante instigante e, para quem gosta de algo mais profundo, bem filosófico. Um clássico fácil de ler e compreender com camadas que podem ser dissecadas pelos leitores ou que podem ser deixadas de lado somente para usufruir da história principal.

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Título: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (Frankenstein or the modern Prometheus) • Autora: Mary Shelley
Editora: Martin Claret • Tradução: Roberto Leal Ferreira

Resenha: Corpos Secos (um romance)

maio 01, 2020

Coincidência, ou não, logo após a pandemia da COVID-19 chegar ao Brasil a Companhia das Letras lançou um livro sobre um Brasil devastado após uma epidemia de zumbis (usando o termo popular). Essa história vem bem a calhar em tempos de quarentena, mesmo que os motivos e a doença seja diferente da que estamos vivendo.

O livro é escrito em parceria de quatro autores e nos trás capítulos intercalados com personagens diferentes, portanto vivendo situações diferentes da mesma epidemia. Eu gostei muito dessa abordagem, pois foi possível preservar a identidade de cada autor sem comprometer a história caso fosse de somente um único personagem. Claro que aqui há uma suposição de que cada autor teve a responsabilidade de dar vida a cada personagem ali retratado, ao invés de escrever para todos. De qualquer maneira gosto de pensar assim para não tirar a minha impressão da obra.

Alguns personagens foram bem retratados e o meu favorito foi Murilo, uma criança que prometeu ao irmão que cuidaria de seu peixe e se viu na obrigação de cumprir essa promessa quando sua família sai da base militar em que vivem para ir atrás da promessa de segurança em Florianópolis. A idade de Murilo não foi revelada na trama, mas em casa momento eu achava que ele tinha uma idade diferente e em certo ponto de sua história nem ele mesmo se vê como uma criança, já que acaba fazendo coisas de adultos, vendo coisas de adultos e tendo que agir como um adulto para a segurança de todos; Mas ao mesmo tempo ele não quer perder a sua identidade infantil e se relembra de que é apenas uma criança. A história de Murilo se relaciona diretamente com a de Matheus, seu irmão mais velho que vive em São Paulo e descobriu que, até então, é a única pessoa imune ao vírus e vem sendo estudado por pesquisadores e médicos na procura de uma cura. Matheus, ao meu ver, passou a ver a vida e até as pessoas, como insignificantes após um tempo preso no laboratório e tendo que lidar com a morte eminente de toda a população brasileira e acabei chegando a essa conclusão após um personagem que deveria ser importante para ele acabar morrendo e ele nem ao menos sentir essa morto, ele simplesmente aceita como sendo normal diante da situação em que ele está vivendo.

Além de Murilo e Matheus há mais duas personagens narradas na obra, mas que na minha percepção acabaram perdendo o brilho por causa do plot forte que teve dos dois irmãos. Apesar de Regina passar por péssimas situações, e pior ainda, situações que são totalmente possíveis em uma epidemia ou não, pouco entendi a respeito dessa personagem; Assim como Constância que não tinha muito senso de responsabilidade em alguns momentos. Mesmo com essa minha impressão das duas personagens eu ainda entendi o papel delas na obra e admirei a força e coragem que levaram as duas para o final escolhido pelos autores.

E por falar em final eu ainda não sei como me sentir em relação ao final desta obra. O livro tem menos de 200 páginas e eu sinto que poderiam ter mais umas 100 para dar outro tipo de final aos personagens, pois eu senti que ficou faltando alguma coisa naquela ideia de segurança que os autores tentaram colocar para nós. Pode ter sido intencional nos deixar na curiosidade, pode ter sido realmente um final em aberto para nos fazer pensar, mas eu me pergunto: pensar em que exatamente? As criticas sociais que o livro nos deu foram rasas, apesar de serem importantes em um contexto social, e ao meu ver não se sustentou ao longo da história e nem ao final.  Apesar de ter gostado da leitura de um modo geral acabei deixando com uma avaliação baixa no Skoob por causa disso. Pode ser que o problema tenha sido o meu entendimento do que estava sendo passado aos leitores, mas aí já não tenho como saber de imediato.

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Título: Corpos Secos (um romance) • Autores(as): Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso, Samir Machado de Machado • Editora: Alfaguara (Companhia das Letras)
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Resenha: Hibisco Roxo

abril 29, 2020

No final de 2019 iniciei a leitura de Hibisco Roxo pois queria ler um romance da Chimamanda, já que amo seus textos de não-ficção; E com minha participação em diversos grupos de leitura coletiva acabei abandonando a leitura pois este seria um dos livros selecionados para 2020, entretanto uma outra LC acabou colocando Hibisco Roxo na lista de Abril e vi a oportunidade de terminar o livro antes do que tinha planejado, até porque eu ainda estava com esse livro em minha mente querendo saber o que ocorreria com Kambili e sua família.

Hibisco Roxo irá nos apresentar a jovem nigeriana Kambili. Sua família é muito rica e seu pai é um homem  de grande influencia em sua comunidade, pois é muito católico e ajuda a todos os necessitados, é dono do principal jornal local e de diversas fábricas alimentícias; Entretanto dentro de casa a imagem que ele faz na sociedade se desfaz. Um homem muito rígido com os filhos e violento com a esposa e já foi, por diversas vezes, o causador dos abordos que ela teve ao longo do casamento; Com os filhos sempre exigiu religiosidade e disciplina com os estudos. E é sobre esse arco que a história irá se desenvolver, principalmente após Jaja (irmão mais velho de Kambili) se negar a tomar a hóstia na Missa de Ramos, o que para seu pai foi o absurdo.
Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com os meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos por acreditarmos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.

Eu acho que, até o momento, não tinha lido nenhum livro sobre intolerância religiosa e hipocrisia religiosa como Hibisco Roxo. Acho que a principal intenção de Chimamanda não foi essa, e sim mostrar a influencia que os brancos teve na Nigéria, principalmente em relação a cultura e religião, mas junto com isso anda esses dois aspectos que citei. O pai de Kambili é um homem tão exemplar e amado na sociedade, principalmente na sociedade católica e pelo próprio clero que seria impossível pensar que ele é tão ruim dentro da própria casa e em relação ao seu pai (que não mora com ele, mas sofre com a indiferença do filho por seguir a religião local). As atitudes desse homem narrada pela sua filha mais jovem não é boa de ler. Sabe quando você lê ou assiste um filme de terror e fica se remexendo com medo do próximo susto? Foi mais ou menos isso que senti ao ler as coisas que esse homem fazia aos filhos, e sempre que eles estavam reunidos, mesmo em um jantar, eu já morria de medo de um ato de violência.

Por odiar o personagem do pai de Kambili eu odiei todos os momentos em que ela demonstrou admiração e amor pelo pai, eu não consigo entender como ela poderia ser assim. É amor ou medo? Talvez um pouco dos dois, apesar de tudo. Mas gostei muito do desenvolvimento da personagem na trama, pois ela passou por um processo longo até entender que aquilo não era certo, que aquilo não acontecia em todas as casas, que seu pai sendo um homem bom fora de casa não anulava ele ser um homem ruim dentro de casa e consegui compreender que apesar de tudo isso ela ainda conseguia ama-lo por ele ser seu pai e mais nada. Kambili é muito expressiva conosco e sua narrativa é emocionante.

Eu amei esse conhecimento da cultura Nigeriana através da família da tia de Kambili, assim como alguns aspectos históricos; Mas é muito triste ver através de uma autora nigeriana (e não haverá ninguém melhor para nos contar isso do que uma autora nigeriana) o quanto nós, brancos, mudamos tanto um país e um continente com nossas imposições, sendo uma delas a religião. O livro debate muito isso e aprendemos junto com Kambili.

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Título: Hibisco Roxo (Purple Hibiscus) • Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Julia Romeu
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Essa leitura faz parte da LC de abril do grupo Abandonados da LC

Resenha: A Cor Púrpura

abril 24, 2020

Mais uma vez me aventurei em uma leitura difícil. Não pela escrita da autora ou algo assim, mas pela história tão triste e pesada que Alice Walker apresenta aos leitores com A Cor Púrpura. Neste livro escrito em formas de cartas ao longo de 40 (ou mais) anos conhecemos Celie, uma jovem negra que vive em uma pequena cidade em Georgia. Ela cresceu em uma casa onde viu por anos e anos sua mãe muito doente e teve que cuidar de seus irmãos mais novos, além de ser constantemente abusada por seu padrasto (psicologicamente, fisicamente e sexualmente). Celie foi obrigada a deixar a escola, quando ficou grávida teve seus filhos tomados de si, e aos 19 anos foi obrigada a se casar com um viúvo que era uma copia de seu padrasto. Além de perder os filhos Celie perdeu também a irmã, por quem sempre manteve a esperança de ver novamente.

Esse é um daqueles livros que nos emociona pela sua história, por todo o sofrimento de Celie, que mesmo vivendo miseravelmente ela ainda tem esperança de que as coisas podem melhorar. Ela não demonstra essa esperança ao leitor de forma clara, pois muitas vezes ela até reproduz coisas que as pessoas dizem sobre ela: feia, pobre, preta. Entretanto, além do livro emocionar pela história de sua protagonista ela mostra as leitoras (neste caso vou falar como uma leitora branca) todas as consequências que a escravidão deixou na vida das pessoas negras e seus descendentes. Na narrativa vemos situações em que uma mulher é negra é presa por ter desrespeitado uma branca rica, assim como a crença de pessoas brancas que acham que os negros devem fazer tudo por eles, ou até mesmo que é inadmissível um homem negro ter um carro e sair passeando com ele pela rua e pior ainda a ideia de que uma mulher negra artista só é entretenimento.

"Você tem que brigar. Você tem que brigar."
Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Algumas cartas foram escritas por uma segunda personagem (que eu não vou citar para não dar spoilers da obra) e ela se torna missionária na África, conhecendo uma parte da cultura africana e vivendo ali por muitos anos. Essa parte do livro nos trás uma boa reflexão sobre as mudanças que os brancos causaram na África desde a época da escravidão até o século XX (e provavelmente ainda hoje). O entendimento que essas pessoas tem de negros que vivem em outros países, o julgamento de sua cultura e preconceito por eles não se identificarem realmente com as crenças religiosas africanas.

Essa foi a primeira vez que li algo da Alice Walker e me surpreendi com a delicadeza da autora em nos mostrar uma história tão forte com uma escrita tão leve. A Cor Púrpura é fácil de ler e mesmo que você se sinta extremamente enojado com algumas situações que Celie sofre ainda assim ela sabe como deixar alguns detalhes nas entrelinhas, pois ela sabe que nós entendemos muito bem o que ela quis dizer.

É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou. 

A leitura de A Cor Púrpura faz parte da leitura coletiva do grupo Lendo Mulheres Negras. A foto é do meu amigo Alisson <3


Título: A Cor Púrpura (The Color Purple) • Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio • Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson

O Homem de Giz

abril 22, 2020


Um corpo. Quatro crianças. Várias pistas desenhadas. Essa é a trama d'O Homem de Giz, um suspense que conseguiu me prender do inicio ao fim. Sim, o livro não é só um fruto de bom marketing, ele é sim tudo isso que promete.

Temos uma história se passa em duas épocas diferentes, 1986 e 2016, e é narrada por Eddie, uma das crianças que encontra o corpo desmembrado de uma garota na floresta (que por sinal está sem cabeça e está nunca é encontrada). Na narrativa de Eddie sabemos como foi que as coisas caminharam até a morte da menina em 1986 e vemos quais foram as consequências posteriores. Após 30 anos o que levou os meninos até a floresta retorna (os homens de giz desenhados) e promessa de um desfecho para o caso.

De inicio Eddie não é um narrador muito confiável e seus problemas pessoas acabam interferindo em seu senso de justiça, entretanto suas lembranças do passado nos dão pistas importantes sobre o que houve no passado e infelizmente eu fui uma leitora que não percebeu essas pistas. C. J Tudor sabe como fazer o leitor de bobo no sentido de "ah, você achou que sabia o final", entende? Eddie está no inicio de Alzheimer então há momentos da narração que conseguimos sentir sua angustia e sua falha de memória e isso nos causa uma certa aflição por depender unica e exclusivamente dele para entender o que esta acontecendo na história, da mesma forma que faz o senso de realidade da história mudar a cada capitulo.

Não sei de verdade quais as influencias da autora para a criação dessa obra, mas para quem leu e sentiu aquela vibe IT (mas sem a parte de monstro) saiba que eu também tive essa sensação. História com crianças tentando desvendar um mistério que se estende anos após me fazem ter uma leitura prazerosa.

Título: O Homem de Giz (The Chalk Man) • Autora: C. J. Tudor
Editora: Intrínseca • Tradução: Alexandre Raposo
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Resenha: Mexa Comigo

abril 15, 2020
Livro no Kindle

Ao fim de 2019 eu me lancei um desafio para 2020: Ler alguns gêneros que não costumo ler/que não gosto. E após quatro meses, finalmente, li um livro do desafio. O escolhido foi Mexa Comigo, da autora brasileira Josy Stoque. O livro estava gratuito na Amazon e eu aproveitei para ler para meu desafio. A ideia era ler um livro hot, pois pelo pouco que conheço da autora sei que ela tem livros nesse gênero, mas ao iniciar a leitura me surpreendi a ver que o livro não é hot (bom, ele tem momentos sensuais e com sexo, mas eu imagino que os hots sejam focados nisso a maior parte da narrativa, né?). Então eu encaixei o livro em romance de época, mesmo não sendo aqueles que se passam no século XVIII e XIV ele  se encaixa no aspecto de época, pois a história se passa nos anos 1940 e conta os costumes da época (e alguns fatos históricos).

Esse livro não teria feito jus a sua participação do "Desafio Saindo da Zona de Conforto" se realmente não tivesse sido um desafio para mim. Livros de romance são fáceis de ler, de modo geral, e dependendo da narrativa algumas leitoras terminam em um dia. Eu li o livro em quatro dias e enrolando muito para isso. Em vários momentos pensei em abandonar e desistir, mas persisti pois acho importante cumprir uma meta quando estabelecemos uma e por isso cheguei ao final da obra. Já é perceptível que eu não me encantei com a leitura, como tantas leitoras que comentaram na Amazon e no Skoob, por exemplo, mas não quero focar meu texto na ideia de que eu li um gênero que eu não gosto.

Vamos ao fato: Josy Stoque é uma autora excepcional. Ela sabe criar uma narrativa que chama a atenção dos leitores e em tantos casos prender ao ponto de ninguém querer largar o livro. A personagem Giulia — uma imigrante italiana que vive na colônia com sua família sonha em ser dançarina famosa, mas o comportamento abusivo de seu pai a torna cada vez mais longe desse sonho até que sua mãe toma as rédeas da situação e a ajuda fugir para São Paulo — é uma moça determinada a conseguir o que deseja e não mede esforços para isso. Personagens assim encantam qualquer leitora e não vai achando que só porque ela é uma "moça da roça" que ela é burra e ingênua, pelo contrário. Giulia foi tantos anos maltratada pelo pai que não irá permitir que esse comportamento se repita por outra pessoa.

Ao chegar em São Paulo Giulia conhece Andrei, um francês que se mostra disposto a ajuda-la na realização de seu sonho, ensinando dança a ela, dando luxo, a tornando uma dama da sociedade. Ele é aquele personagem tipicamente misterioso que solta poucas informações sobre sua vida, de onde ele veio, como conseguiu tanta fortuna e, claro, o personagem que encanta a protagonista com seu jeito carinhoso. O romance que nasce entre eles é bem bonitinho e crível, nada muito sonhador e impossível de acontecer; Assim como todos os dramas que nascem com esse relacionamento. Como eu disse Andrei é misterioso, toda a sua história de vida tem segredos que demoramos a descobrir. A história se desenrola com alguns altos e baixos no relacionamento do casal, mas também temos os momentos de treino de Giulia até chegar ao seu ápice. Assim como todos os romances tem uma questão importante a ser resolvida na trama e nessa história é a família de Giulia, mas essa parte não vou falar nada para não estragar nenhuma surpresa.

Minha experiencia com a leitura pode não ter sido boa, mas este livro com certeza será minha indicação quando alguém procurar algum romance do tipo "água com açúcar" para ler. A história tem uma sequencia que é narrada por uma outra personagem da obra, então se você ler este e gostar ainda vai poder curtir um pouco as personagens.

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Título: Mexa Comigo • Autora: Josy Stoque • Editora: Independente

Resenha: Vox

abril 13, 2020

Quando VOX foi lançado houve um grande murmurio em relação a este livro, divulgação pesada e muitas blogueiras resenhando e falando bem desta obra, que falando a grosso modo pode ser vista como O Conto da Aia desse inicio de século. Sim, pode falar que estou sendo presunçosa, eu até estou um pouco (até porque, vamos combinar, que O Conto da Aia é um clássico muito, mas muito, bom). O negócio é que VOX tem uma premissa muito forte, uma premissa que pode chocar mulheres como eu (feminista, com opiniões sobre o patriarcado, e uma "estudante" do feminismo, por assim dizer), uma premissa que por mais absurda que seja ainda assim pode acontecer em algum momento (ou algo semelhante). Tá, tá, pode me chamar do que quiser, mas é só olhar para o mundo e ver como algumas posições politicas conservadoras estão cada vez mais em ascensão, é só olhar para a maior potencia mundial (que inclusive é onde a história do livro se passa) e você irá entender um pouco. Maaaaas vamos ao que interessa, né?

Em VOX, após uma eleição democrática onde a extrema-direita conservadora (e religiosa, diga-se de passagem) assume o poder um novo decreto é estabelecido, onde as mulheres devem deixar de trabalhar para cuidar da casa e da família e são impedidas de falar através de um contador de palavras que fica no braço como uma pulseira. As mulheres podem falar somente 100 palavras por dia e caso exceda esse número um pequeno choque que aumenta a freqüência a cada conjunto de palavras é ativado. Assim como as mulheres, os homossexuais também tem seus direitos tomados, indo em prisões-colonias sem poder falar uma única palavra. A protagonista era uma Dra em Neurociência e tinha um estudo sobre afasia e após um ano de sua pesquisa interrompida o governo a procura para continuar seus estudos e assim poder curar o irmão do presidente.

Jean sempre foi uma mulher comum. Ela estudou, se esforçou muito para chegar até onde chegou, tem um bom marido e bons filhos, mas Jean nunca foi uma mulher que se preocupou com questões politicas. Ela nunca questionou o governo, nunca exerceu seu direito de votar (lembrando que nos EUA o voto é facultativo) e tudo isso a assombra agora que ela vê todos seus direitos sendo tomados. Sim, ela se sente culpada de uma certa forma pois sabe que se tivesse lutado no passado possivelmente a situação não teria chego ao extremo como chegou. Jean é uma mulher imperfeita, assim como todos nós, e acredito que por isso que a autora colocou um aspecto negativo dela que pode "chocar" as leitoras. Não vou falar o que é, pois seria um spoiler, mas é algo que é ruim para uma pessoa ser, mesmo que a vida seja toda uma merda (e não era para Jean antes do decreto).

Bom, deixando a protagonista de lado, a autora soube elaborar uma boa história, apesar de ter dado a impressão de ter se perdido no meio do caminho por causa dos conflitos pessoais de Jean, e não de tudo o que estava acontecendo do governo/país. Pode ser sido a sua intenção, mas para mim não funcionou muito bem, pois ao abordar mais questões pessoais de Jean e deixar as questões politicas de lado ela esqueceu de que os leitores procuram informações sobre esse sistema, procuram entender de verdade o porque de ele funcionar e como foi que as pessoas passaram a aceitar isso (no caso do livro a autora já pressupôs que todos os homens héteros vão simplesmente aceitar que calem as mulheres, o que não é bem assim, já que mesmo que a maioria seja macho escroto, como gostamos de chamar, muitos ainda seriam contra). À partir desse meu ponto de vista eu senti que a obra estava lenta no inicio e corrida no final, o que foi péssima escolha, pois o final em que precisávamos de mais informações e detalhes sobre os acontecimentos e ela cortou esses detalhes na mudança de capítulo. Então veja bem, ao final de um capítulo o personagem X estava vivo e no inicio do próximo já estava sendo enterrado, entende? Acredito que nenhum leitor gosta de ler algo assim.

Concluindo, com uma premissa incrível VOX é um livro que deve sim ser lido, principalmente por pessoas céticas em relação a politica e governo conservador,  mas que em contrapartida tem algumas falhas em sua execução e pode desagradar aos leitores mais exigentes. De qualquer forma é um livro necessário pela sua abordagem principal e nos mostrar uma realidade que poderá nos tomar aos poucos.

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Título: Vox (Vox) • Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro • Tradução: Alves Calado

Resenha: A Hora do Pesadelo (Never Sleep Again)

abril 10, 2020

Quando eu era criança adorava assistir a filmes de terror na sala de casa, geralmente a noite, com minha avó dormindo no colchão e uma coberta até metade dos olhos; Um desses filmes me causou um pesadelo que até hoje não esqueço: O jardim da casa da minha avó repleto de flores coloridas, borboletas e um clima de alegria em contraste com um homem macabro, todo queimado, e com longas garras acenando para mim com um sorriso diabólico. Acho que não preciso falar o nome dele.
One, two, Freddy's coming for you...

Desde então Freddy, por algum motivo, se tornou um dos meus personagens favoritos dos filmes de terror dos anos 80 e 90. Mesmo que nos dias atuais, ao assistir aos filmes, eu dê boas risadas, quando era mais nova sentia muito medo do que aquelas garras poderiam fazer enquanto eu estivesse dormindo. Freddy se tornou muito mais do que um personagem de terror amado, mas um símbolo de toda uma geração, seja de jovens sedentos por ver sangue nas telas ou de novos cineastas empolgados por fazer isso acontecer.

Neste livro temos toda a trajetória que levou a produção deste filme tão icônico. De inicio eu imaginei que seria mais um livro com curiosidades e alguns fatos que aconteceram durante as gravações e com os atores, mas ele foi muito mais do que isso. Thommy Hutson foi atrás de detalhes impensáveis para mostrar aos fãs a criação de Freddy e seu legado e isso inicio tem o nome de uma pessoa: Wes Craven. Muito mais que roteirista e diretor do filme ele foi um visionário do entretenimento de terror, e se não fosse por toda sua determinação e insistência A Hora do Pesadelo nunca teria existido.


Neste livro foram usadas diversas entrevistas com o elenco do filme, assim como câmeras, produtores, maquiadora, cabeleireira e diversas outras pessoas que tiveram uma participação minima nesse projeto. Todos muito orgulhosos e felizes de trabalhar em algo que até os dias atuais é reconhecido e amado, todos contando suas experiencias de forma descontraída e que, eu como fã, senti inveja de não ter feito parte.

Uma das cenas que mais sentia medo era logo na primeira aparição de Freddy que seus braços estão estranhamente longos correndo atrás de Tina, assim como a cena fatal onde ela sucumbi aos ataques da criatura e morre. Em um filme rodado nos anos 80, com um orçamento baixíssimo, não se pode esperar os melhores efeitos especiais, entretanto o que me surpreendeu foi saber que nessas cenas não foram usadas efeitos especiais e sim os práticos com um auxilio de vários profissionais e o projeto de um quarto giratório manual que causou muito desconforto na atriz.

Tudo no projeto foi feito a base da criatividade e disposição dos profissionais envolvidos naquilo, justamente por não ter muito dinheiro envolvido no projeto eles precisam pensar nas coisas nos mínimos detalhes para fazer dar certo na frente das câmeras e algumas delas só poderiam ser usadas uma única vez, como a cena da morte de Glenn (interpretado por Johnny Depp), como litros e mais litros e mais litros de sangue. A preocupação da equipe era onde conseguir mais, caso não desse certo na primeira tomada? E com qual dinheiro? Com uns errinhos perceptíveis somente aos olhos mais treinados a cena foi muito bem executada e até hoje surpreende quem assiste pela primeira vez.
Uma analise cuidadosa revela que, no estado do sonho, manipulando objetos ou em qualquer forma corpórea, Freddy Krueger está presente na tela por cerca de escassos oito minutos, dos noventa e um minutos de duração do filme, algo particularmente curioso. Esta constatação confirma a avaliação de Englund (ator que interpreta Freddy) de que talvez devessem ter mostrado mais Freddy, embora a história tenha comprovado que o seu diminuto tempo de tela não impactou na colossal capacidade do personagem se conectar com o público.
O livro conta com 520 páginas de informações sobre o filme clássico da franquia e fotos dos bastidores, com o personagem principal sendo, claro, Freddy e toda a sua produção; Mas também conta com pessoas que nem se quer sabemos o nome fazendo acontecer uma ideia de um não tão jovem diretor que tinha o sonho de mostrar as pessoas esse personagem, mal sabendo que Freddy se tornaria muito mais do que um personagem e sim um dos símbolos da cultura pop mundial, sendo até hoje querido e imitado em eventos de cosplayers, geek, terror/horror.

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Título: A Hora do Pesadelo (Never Sleep Again) • Autor: Thomas Hutson
Editora: Darkside Books • Tradução: Carlos Pimati

Resenha: O Lugar

abril 01, 2020

Todos devem se lembrar que há alguns anos atrás houve um surto de livros distópicos sendo lançados e adaptados; Alguns muito bons e outros nem tanto. Aqui no Brasil não foi diferente, vários autores também embarcaram nessa literatura politica e, com exceção das fantasias, qualquer semelhança com o cenário atual não é mera coincidência. Silvio Gomes é uns autores que embarcou nessa onda, mas não seguindo a moda e muito menos sem embasamento, pelo contrário. O autor é teólogo e especialista em ciências politicas, duas áreas que parecem tão diferentes mas andam juntas em vários cenários.

Em O Lugar o autor nos apresenta Lázaro, um jovem de 20 e poucos anos, que vive em um país (sem nome mencionado) onde há a politica da desconfiança. Essa politica consiste em todos desconfiar de todos, seja amigos, colegas de trabalho, e até mesmo familiares próximos. A ideia é totalmente absurda e claro que isso não funciona na prática, pois assim como nas distopias que estamos acostumadas o único beneficiado pela politica implantada é o próprio governo que fica acima de tudo. Lázaro é professor de literatura e por ter uma bagagem tão grande pelos livros que leu ele questiona a politica de seu país, principalmente pela existência das Rodas Sociais, um espaço onde as pessoas poderiam se expressar sem medo de represálias mas acabam se tornando locais de violência gratuita (para exemplificar: uma pessoa é agredida até a morte, e outras coisas podem acontecer ali também) e que falando assim parece até que poucas pessoas aguentariam ver — e Silvio prova que ao contrário do que parece as pessoas vêem sim o que acontecem ali sem reagir e muitas vezes elas agem ali naquele espaço com a mesma violência que os outros.
Nenhum governo cria uma ditadura sem a cumplicidade de uma parte do povo. O que vivi em meu país foi o que o meu povo quis viver. Povo e governo são cúmplices e suas ações, inevitavelmente.
Lázaro é um personagem que eu definiria como sonhador dentro do ambiente em que ele foi criado. Ele quer o melhor para as pessoas ao seu redor, quer o direito de ser livre, quer o direito de confiar em quem ama. Para nós não parece muito, inclusive até temos a ideia de que temos tudo isso (mas será que temos mesmo?); Mas o principal que ele quer é chegar no lugar que imagina que a sociedade viva em paz, onde todos confiem em quem ama, onde as escolhas são livres, e esse lugar ele não sabe onde fica, mas acredita e desejar conhecer assim como supõe que vários de seus autores favoritos conheceram. O livro conta então a busca de Lázaro por este lugar misterioso e tudo que essa crença afeta em sua vida, todas as mudanças que ele precisa fazer, todas as coisas que precisa acreditar e desacreditar para chegar até na realização de seu sonho. A jornada não é fácil mas eu garanto que o final vale a pena, principalmente por todos os elementos que Silvio usou para construir essa história e com base na formação do autor é fácil entender suas escolhas para o final de Lázaro.

Eu demorei um pouco mais do que o costume para ler este livro. Os capítulos são longos e não há "respiros" para que possamos digerir tudo que nos foi passado. Há muitos diálogos bem filosóficos que eu gosto bastante, mas senti falta de algumas descrições de ambientes e gestos das personagens durante os diálogos para dar o equilíbrio entre o peso de tudo o que esta sendo falado e do tempo que eu levo para compreender. Apesar do autor usar pontos, virgulas e travessão ainda assim eu tive a sensação de que estava lendo Saramago pela densidade de tudo. É claro que nada disso tira a grandiosidade deste livro, pois poucos autores abordam esse assunto (que eu ainda gosto muito) de uma forma séria e sem personagens heróicos e revolucionários.

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Título: O Lugar • Autor: Silvio Gomes • Editora: Jaguatirica
Livro recebido pela Oasys Cultural para resenha

Resenha: De Quanta Terra Precisa um Homem

março 23, 2020

Acho que chega um momento na vida de qualquer leitor(a) que goste de clássicos e livros mais emblemáticos a vontade ler algum clássico russo, entretanto a complexidade desses livros é de conhecimento geral e em alguns casos o tamanho até assusta; Por isso que eu resolvi ler o meu primeiro russo com um livro beeem pequeno, um conto na verdade, e o autor escolhido foi Liev Tolstói pois desde que li Tash e Tolstói fiquei curiosa a respeito desse autor e com essa leitura eu não me decepcionei nenhum pouco.

De quanta terra precisa um homem é um conto sobre a ganancia do ser humano. Aquela velha história: Quanto mais você tem mais você quer. A história inicia com duas irmãs conversando, uma mora na cidade e outra na roça. Ambas debatem sobre as vantagens de morar onde moram, uma fala que morar na cidade é ruim pelo medo e outra argumenta que morar na roça não há perspectiva de vida. Enquanto as duas conversam Pahón, que se tornará o protagonista da história, escuta tudo e lamenta:
"Isto realmente é verdade", pensou. "Enquanto se a ara a mãe-terra desde pequeno, não sobra lugar na cabeça para besteiras. A única tristeza é que não temos terra o bastante. Tivéssemos o suficiente nem mesmo o diabo eu temeria!"

E então o diabo escutando Pahón decide tentar o homem prometendo a si mesmo que irá dar muitas terras a ele e com essa mesma terra ele irá pegar o camponês. Pahón tinha o suficiente para viver, ele não precisava sair de casa para ir atrás de mais terra e com isso mais riqueza, sua vida era tranquila apesar de uns conflitos com outros camponeses da sua região, entretanto diante das tentações que foram lhe aparecendo e a promessa de uma conquista de terras fácil ele foi atrás disso.

Não há problema algum em uma pessoa querer sempre mais, nós precisamos de mais, conquistas é sempre bom e nos motivam a ser melhor, mas o problema é quando a ganancia fala mais alto do que qualquer coisa. No caso de Pahón ele queria mais simplesmente pelo prazer de ter mais, o prazer de ser importante com suas terras e dinheiro, Pahón não percebeu que ele não precisava disso e sim de outras coisas como o convívio com a própria família, por exemplo.

Sobre a escrita eu só tenho que dizer que gostei e muito, torço para que os romances do autor tenham a mesma linha de escrita pois assim é algo gostoso de ler, sabe? As vezes os problemas de clássicos é que são difíceis e sempre ouvir falar que os russos particularmente são muito complicados de ler. Mas falando a real: mesmo que você não seja fã de clássicos tenho certeza de que gostará desse conto.

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Título: De Quanta Terra Precisa um Homem • Autor: Liev Tolstói
Editora: Via Leitura • Tradução: Natália Petroff 

Resenha: Um Lugar Só Nosso

março 18, 2020

Aos que acompanham esse blog já sabe que eu não sou uma grande leitora de YA clichê há um bom tempo, né? Mas as vezes é bom ler algo do gênero para sair da rotina literária e e até mesmo da ressaca literária. Foi justamente por isso que decidi ler esse romance, com a promessa de ser algo bem leve e gostosinho; Mas acabei me decepcionando bastante com a leitura.

❗❗

Antes de mais nada já deixo claro que essa é a minha opinião sobre o livro. Tenho um amigo que leu e amou, deu 5 estrelas e tudo, então é claro que cada um tem que ler para tirar suas próprias conclusões. 

❗❗

Ah, mas então qual o motivo da decepção? Bom, eu simplesmente não gostei do desenvolvimento dos protagonistas dentro da história. O plot principal é muito bom, amei a ideia da personagem estrela do K-Pop que precisa de um tempo para ela, pois é uma adolescente que não aguenta mais a pressão de ser uma estrela e tem que viver com o estigma de ser perfeita. O livro tinha tudo para ser perfeita se, de fato, as personagens tivessem me convencido de precisavam daquele tempo que passam juntos longe de tudo. 

A história se passa em um período de 24hs e mesmo quando eu era super leitora de YA eu já odiava a ideia de pessoas que se apaixonam em menos de 24hs, sem falar que o tempo todo as personagens só comiam. Acabaram de sair de uma barraca já estavam em um restaurante, daqui a pouco no cinema comendo pipoca, daqui a pouco em outra barraca e ai em um festival comendo comida típica e por aí vai, nesses meio tempo surgiam diálogos que, deveriam, dar um ar reflexivo para a trama, seja sobre família, relacionamentos e sentimentos pessoais de cada personagem, entretanto eles se repetiram demais e eu sentia que estava lendo a cada poucas páginas a mesma coisa anterior. 

Mas tá bom, nem tudo é ruim, né? A autora conseguiu me fazer imaginar e até atiçou minha curiosidade a respeito de Hong Kong. É um cenário totalmente diferente dos livros que lemos, principalmente romances, e o pouco que ela destacou o local com certeza irá deixar as leitoras bastante curiosas para conhecer. Outra coisa que gostei é sobre a exposição da industrial musical do k-pop, principalmente sobre a preparação dos artistas e a pressão que eles sofrem para não serem "cancelados". Mesmo quem não acompanha esse estilo musica com certeza já viu noticias na internet sobre artistas que cometem suicídio ou que tem a saúde mental debilitada em consequência da vida que leva, como acho essa exposição importante gostei de ver sendo abordado no livro.

Mas é isso, gente. Nem todos os livros são feitos para todo mundo, né.

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Título: Um Lugar Só Nosso (Somewhere Only We Know) • Autora: Maurene Goo
Editora: Seguinte • Tradução: Ligia Azevedo

Resenha: Olhos d'Água

fevereiro 19, 2020


No segundo mês da leitura coletiva de #lendoautorasnegras o livro escolhido foi Olhos d'Água da brasileira Conceição Evaristo e eu não poderia ter sido mais sortuda por ter ganho este livro no amigo secreto de carnaval justamente quando ia deixar a leitura de lado por não ter o livro em mãos. Bom, logo iniciei a leitura e só posso dizer uma coisa: amei, mas sofri demais. Então antes de iniciar o texto em si já deixo vocês avisadas: o livro pode ser um pouco denso demais para pessoas com alguma sensibilidade, pode conter gatilho para algumas pessoas, então muito cuidado ao decidir ler esta obra.

Bom, não gosto desse tipo de aviso mas é importante informar, pois por mais que a autora tenha tentado amenizar as situações com suas palavras, não deixando nada explicito, quando entendemos o que, de fato, ela quer dizer só conseguimos ficar arrasadas. Eu acabei lendo em um ritmo constante, apesar de ter me abalado com alguns contos específicos, mas eu acredito que isso tenha mais se dado ao fato de eu não ter me identificado com as histórias em si, por viver em uma realidade diferente das personagens criadas ali.
Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esses e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraia. 

Olhos d'Água é um livro de contos que nos conta a vida de pessoas em situação de pobreza e miséria. De inicio achei que todas seriam mulheres, predominantemente negras, mas houveram contos em que homens eram os protagonistas. Cada um com sua própria história, tão única mas ao mesmo tempo tão igual a histórias que estão acontecer nesse exato momento em locais de pobreza e miséria. Então sim, a autora quis mostrar aos leitores uma realidade pouco conhecida por nós privilegiados. Sim sim, tô aqui em mais uma resenha querendo falar sobre a minha consciência de classe, mas como não falar quando um livro como este joga na nossa cara realidades tão cruéis?

O livro é tão importante em nosso Brasil atual que ele já se tornou leitura obrigatória em algumas escolas e universidades e fica fácil entender todos os debates que ele podem gerar com suas histórias. Tenho sim algumas favoritas e que mais me chocaram, mas não irei focar aqui nos contos em si e sim no geral da obra.

O debate do grupo ainda não aconteceu e eu estou ansiosa para ver as mulheres ali falando sobre esse livro, principalmente porque até o momento já houveram comentários sobre o que me deixaram ansiosa e curiosa sobre as formas como o livro mexeu com elas que é tão diferente da forma como ele mexeu comigo. Enfim, essa foi uma resenha não resenha, para ser bem honesta, porque não consigo colocar muito bem em palavras essa obra.

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Título: Olhos d'Água • Autora: Conceição Evaristo • Editora: Pallas
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Esse livro faz parte da leitura coletiva de #lendoautorasnegras

Resenha: Orgulho e preconceito

fevereiro 13, 2020


Há alguns anos eu nutro um certo amor pela adaptação de 2006 de Orgulho e Preconceito, o clássico da autora Jane Austen. Entretanto, mesmo o filme tendo seus 14 anos, eu ainda não tinha de fato lido o livro e cada vez me sentia uma leitora pior por causa disso. Eis que neste ano surge a chance de finalmente fazer essa leitura em uma LC dedicada cem por cento a Jane Austen, com o primeiro livro da lista sendo o clássico que é tão amado pelas leitoras de romance.

Claro que amei a obra, mas infelizmente a leitura para mim foi bastante penosa. Talvez porque realmente não estou acostumada com a forma rebuscada com que a autora escrevia ou pela tradução que não tinha ficado muito boa nessa edição. Entretanto vale ressaltar que eu li na versão da editora Principis, que são livros mais baratos e acessáveis e talvez por isso não tenha um grande cuidado com as edições como editoras que vendem o livro a valores maiores. Isso me incomodou um pouco na leitura sim, mas não foi o suficiente para tirar o enquanto que eu já tinha da obra.

Orgulho e Preconceito é um romance lindo, que se passa em uma época em que julgamos que todas as mulheres se casavam por obrigação e não amor; O que não era beeeem assim, apesar de serem considerados dotes, fortuna, dentre outras coisas. Justamente por isso que o amor de Lizzie e Darcy é tão lindo, pois há julgamentos entre eles no inicio por ele ser rico e ela ser pobre, assim como a personalidade de ambos ser ou não condizente com sua classe social e todo o grupo social em que eles vivem. É um amor que acontece aos poucos e não enche o leitor de cenas românticas, pelo contrário, Jane Austen criou detalhes em que nós devemos nos esforçar para notar o nascimento desse sentimento dos protagonistas como um olhar, um sorriso ou um pensamento que o narrador nos da.
— Em vão tenho lutado, mas de nada serve. Os meus sentimentos não podem ser reprimidos e permita-me dizer-lhe que a admiro e a amo ardentemente.

Uma das coisas mais legais que Jane Austen colocou neste romance é toda a ambientação, principalmente familiar de Lizzie. Os Bennets é uma afamilia muito engraçada e que parece gente como a gente, tirando o fato da mãe só procurar marido para as filhas. De certa forma esse comportamento da Sra. Bennet me incomodou bastante, mas entendo que era a única ambição real de uma mulher naquela época e quanto a isso a autora trata de colocar algumas criticas no livro. Suas irmãs mais novas me lembram qualquer adolescente que se empolga facilmente por uma pessoa desejada e infelizmente, às vezes, algumas vão até as ultimas consequências para ter aquilo que quer, sem nem ao menos pensar na própria família ou principalmente em si mesma.


Eu não favoritei o livro, porém com certeza ele se tornou muito querido principalmente pelo meu amor pela adaptação (que continua sendo um dos meus filmes favoritos da vida). Indico a leitura a todas que amam um romance de época, mesmo que esse não seja um romance de época e sim contemporâneo pois Jane escreveu contanto sobre seu próprio tempo. As situações ali são, de fato, como aconteciam na época, apesar de um pouquinho romanceada em alguns casos, mas nada que afete a leitura.

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Título: Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) • Autora: Jane Austen
Editora: Principis (Ciranda Cultural) • Tradução: M. Ângela Santos
Esse livro faz parte da Leitura Coletiva de Lendo Jane Austen 2020

Resenha: Os 12 Signos de Valentina

fevereiro 05, 2020

Não sei vocês mas eu quando fico muito tempo sem ler algum gênero que antes devorava parece que estou lendo algo totalmente novo e até revolucionário. Então sim, eu não lia clichês YA/NA há algum tempo e quando terminei a leitura de Os 12 Signos de Valentina me senti de coração aquecido (adoro esse termo que as blogueiras usam) com o quanto esse livro é tão fofo e importante para toda uma nova geração de leitoras de romances nacionais.

Os 12 Signos de Valentina conta a história de Isa, uma jovem estudante de jornalismo que descobre no dia de seu aniversário a traição do seu namorado (seis anos de namoro jogados no lixo) e após passar quase um ano de luto pelo relacionamento e muita luta de seus amigos e familiares próximos para que ela seguisse com a vida, Isa vê uma oportunidade de sair da tristeza ao realizar um experimento "cientifico" (um trabalho para uma aula da faculdade): irá testar todos os signos do zodíaco, ou seja, ficar com boys de todos os signos até encontrar um perfeito. Nisso eu já achei o livro incrível, mas ao mesmo tempo tive receio pois pelo histórico de livros que li antigamente mostravam que personagens com esse perfil não eram bem vista em suas histórias; Mas o que falar da Ray Tavares que eu acabei de conhecer e já considero incrível demais?

Isa passa a conhecer todos os signos de uma forma divertida, e um pouco estereotipada, e sim ela da uns beijos em todos eles. Errada não tá, eu mesma acho que faria o mesmo e até pior se tivesse tido essa ideia antes de conhecer o meu leonino perfeito. Isa é uma personagem divertida e pé no chão, mas acima de tudo ela é uma personagem que irá mostrar aos leitores algo que não vemos muito em livros desse gênero nacionais: privilégios; a famigerada consciência de classe. Eu li este livro em uma leitura coletiva e algumas participantes falaram que se irritaram com o quanto a personagem tenta militar nesse livro, sendo até forçada as vezes. E sim, não vou discordar das meninas, pois teve momentos que eu ficava ISA, CALMA AMIGAH, mas eu entendo por outro lado a necessidade da personagem ser assim principalmente por perceber através das redes sociais que muitas leitoras desses gêneros não sabem e nunca nem leram nada que fala sobre privilégios, principalmente na ficção.

E claro, né... o romance. Gente, a Ray foi tão incrível na construção desse livro que ainda criou um romance muito perfeito e que combinou com tudo o que a Isa passou e passará no decorrer da trama. Eu não vou citar o nome do personagem que irá ser, então, par romântico de Isa, mas já adianto que ele está longe de ser o macho tóxico. Ele a respeita acima de tudo e nunca a julgou por nada que ela está fazendo. Em um dos debates eu questionei uma decisão da Isa a respeito do experimento e uma das meninas disse que se ela fizesse o que eu queria que ela fizesse o Menino não ia mais querer ficar com ela e eu fiquei tipo beloved??????? justamente se ele deixasse de gostar dela então ela deveria é ficar longe dele, certo? Mas claro que ele não fez isso e nem faria mesmo que Isa tivesse feito o que eu queria que ela fizesse.

Um livro fácil e gostoso de ler, além de nos colocar em uma ambientação de SP muito boa (e nostálgica para mim) com certeza é um romance que irá encantar as leitoras de nacionais assim como me encantou bastante.

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Título: Os 12 Signos de Valentina • Editora: Galera Record • Autora: Ray Tavares
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Resenha: O Feminismo é para todo mundo

janeiro 31, 2020

Boa tarde, pessoal. Por aqui seguimos sem nenhuma novidade com a Silviane lendo livros sobre feminismo, não é mesmo? Pois será assim por muito tempo ainda, já que eu ADOOOORO demais. O livro da vez é O Feminismo é Para Todo Mundo da bell hooks que li em Janeiro na leitura coletiva de #LendoAutorasNegras. Eu já tinha esse livro parado na estante há uns meses e estava ensaiando para ler e este não poderia ser um momento melhor, pois com esse grupo pude ter várias perspectivas diferentes do mesmo livro.

Bom, quem está um pouquinho engajada em leituras feministas com certeza já ouviu falar sobre a bell hooks em algum momento, mesmo que nunca tenha lido nada dela. Uma mulher que participou ativamente do movimento feminista nas universidades nos anos 70 não poderia deixar de ter publicações tão relevantes a respeito desse assunto e com essa obra ela fala sobre o feminismo de um jeito que foge um pouco do linguajar da academia.
A sororidade não seria poderosa enquanto mulheres estivesse em guerra, competindo umas com as outras.

O livro tem vários tópicos, desde relacionamento familiar, religião, classe, racismo, sexualidade, etc etc e mais um etc. Em cada tópico ela aponta seus argumentos que nos fazem refletir sobre a importância de feminismo, relacionando a sua história e principalmente a ideia de que sim: o feminismo é para todo mundo. Ainda hoje (e talvez principalmente hoje, com a era da internet e da direita) o feminismo é visto como um movimento anti-homem e bell hooks diz várias vezes que muito pelo contrário, o feminismo está muito longe de ser um movimento de ser anti-homens, ele é um movimento anti-sexismo, anti patriarcal, um movimento que luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres. Particularmente eu nunca consegui aceitar a ideia de que não precisamos de homens no feminismo e a bell hooks fez com que eu me sentisse aliviada em ter esse pensamento e expressou em palavras o que eu não conseguia expressar quando pensava que os homens também são importantes na nossa luta.
"'Feminismo é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão'... Adoro essa frase porque afirma de maneira muito clara que o movimento não tem a ver com ser anti-homem. Deixa claro que o problema é o sexismo. E essa clareza nos ajuda a lembrar que todos nós, mulheres e homens, temos sido socializados desde o nascimento para aceitar pensamentos e ações sexistas."

Além de abordagens já conhecidas a obra tem outras que eu nunca tinha imaginado como o relacionamento familiar, como o feminismo funciona dentro de casa, principalmente com os filhos. A autora defende a tese de que até mesmo relacionamentos abusivos entre mães e filhos, pais e filhos, estão diretamente relacionados ao sexismo, a cultural patriarcal em que vivemos. O que mais me surpreendeu foi o fato de ela relacionar diretamente o feminismo ao capitalismo e principalmente a luta de classes. Quem já leu algo sobre feminismo negro entende que o feminismo da mulher branca funciona de forma diferente com o feminismo da mulher negra e mais uma autora coloca seu ponto de vista nesse tópico de uma forma que é impossível não falar que existe racismo nesse mundo e que a vida da mulher negra é muito mais difícil do que a da mulher branca; Além do mais ela ainda nos coloca em um entendimento entre a mulher rica e a mulher pobre, pois sim... claro que existem diferenças ainda hoje.

Este livro é uma grande lição de feminismo e história a qualquer pessoa que se interesse a ler e eu acho que todos deveriam ler, pois além de ser uma leitura enriquecedora é também esclarecedora sobre um movimento que é, infelizmente, tão mal visto na nossa sociedade. Se as pessoas se interessassem um pouco sobre esse assunto muitas brigas nem se quer existiriam e teríamos pessoas vivendo melhor. Leia bell hooks, leia "O Feminismo é para todo mundo".

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Título: O Feminismo é para todo mundo: politicas arrebatadoras (Feminism is for everybody: passionate politics)Autora: bell hooks
Editora: Rosa dos Ventos • Tradução: Bhuvi Libânio
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Essa leitura faz parte da LC #LendoAutorasNegras

Resenha: Carrie, a Estranha

janeiro 27, 2020
Stephen King livros

Para todos os efeitos Carrie é o primeiro romance de Stephen King, o autor conhecido hoje como Mestre do Horror. Não sei qual foi a reação das leitores na época, vendo um novo autor escrevendo algo como Carrie, mas eu sendo uma leitora hoje deste clássico moderno posso dizer que a minha reação foi surpresa.

Ao contrário do que podemos pensar Carrie não é um livro de terror que deixa o leitor morrendo de medo do que vai encontrar na trama. Sim, ele nos da medo mas o medo é do que irá acontecer com Carrie, a adolescente que vive com a mãe fanática religiosa — em outras palavras: louca. Apesar de frequentar a escola Carrie vive em seu mundinho sozinha, pois sofre bullying de todos, não tem nenhuma amiga que seja tão deslocada quanto ela. Carrie é a mais deslocada das deslocadas tudo por causa do modo de vida que vive com sua mãe, que aliena tanto a jovem que quando esta teve sua primeira menstruação pensou que estava, na verdade, tendo uma hemorragia e morrendo.

Em uma análise crua Carrie conta a história de uma jovem que sofre bullying na escola, além de ser constantemente repreendida dentro de casa, que descobre que é telecinética e acaba usando deste poder quando chega em seu limite, causando uma destruição; Mas em outa análise, e claro partindo do meu ponto de vista, Carrie fala sobre sexo na adolescência, além do bullying e suas consequências. Eu sei, ele foi escrito nos anos 70, onde esses assuntos eram debatidos de uma forma diferente de hoje em dia, mas ainda assim nesta época era um tabu e esse tabu é representado pela própria mãe de Carrie, que é uma fanática religiosa que abdicou do sexo até mesmo dentro de seu casamento, e claro pelas suas colegas de escola. O Bullying é a questão mais óbvia da trama, que causa toda a ruptura dos poderes de Carrie, mas o livro ainda tem uma pegada a respeito da figura feminina na sociedade. Como uma mulher feminista acho ridículo um homem falar sobre esse assunto, mas devo admitir que Stephen King soube tratar do assunto na temática fantástica do livro de um jeito que está longe de ser machista ou estereotipada, mas que tem uma visão deturpada sim principalmente se levarmos em conta as atitudes da mãe de Carrie.

Ao contrário do que parece Carrie não é um romance/novela e sim como se fosse um livro jornalistico, com dossiê. Tem a história da adolescente e tem relatos sobre ela em forma de outros livros, ou algum documento com depoimento de pessoas após os acontecimentos da obra. É uma narrativa super bacana pois ele deixa o leitor bastante curioso para saber o que aconteceu com Carrie na sua escola que se tornou um assunto tão comentado na comunidade cientifica. Essa narração pode ser estranha para quem não está habituado, mas ela é muito tranquila para leitura após as 10 primeiras páginas.

Este é um livro que pode causar diferentes sensações nas pessoas, vai de revolta a medo, vai de empatia até ódio. Carrie e sua vida escolar tem pontos que podem ser semelhantes aos nossos próprios anos escolares, assim como a repreensão dentro de casa (não necessariamente a parte religiosa) e mais uma vez King nos entrega um livro maravilhoso e reflexivo. E melhor ainda é a ideia de que Carrie tem ligação com outros livros do autor, sendo um deles até O Instituto, lançado recentemente. Eu, particularmente, tenho minhas ressalvas na ligação direta entre os dois, mas pelas teorias fazem sentido... Só que isso você tem que ler para tirar suas conclusões.

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Título: Carrie, a Estranha (Carrie) • Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras • Tradução: Adalgisa Campos da Silva
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Livro lido para a Leitura Coletiva de Stephen King do grupo #LCKING

Resenha: As Sombras de Outubro

janeiro 24, 2020

Eu amo livros de suspense, ainda mais quando há uma investigação policial por trás da coisa toda. Li alguns títulos do gênero ao longo do ano e então quando vi a sinopse de As Sombras de Outubro fiquei ansiosa a respeito dele, principalmente por ter uma detetive mulher, uma ministra, e que claramente os crimes estão relacionados ao feminicídio; Além do detalhe da história se passar na Dinamarca, um local totalmente fora dos cenários literários.

Apesar de ter adorado toda essa premissa do livro, infelizmente, o livro em si não me agradou. Ocorrem crimes horrendos e, claro, que é isso que eu espero de um livro de suspense onde há mortes. Se você gosta desse gênero saiba que aqui irá encontrar membros amputados de mulheres que foram mortas sem um motivo aparente, assim como crianças traumatizadas pelos piores motivos que podemos imaginar. Sim, nesse aspecto o livro é pesado, mas não tão descritivo (o que é ótimo, pois com o pouco que é falado ali já fiquei enojada). Entretanto o que o autor soube inserir bem em relação aos crimes ele pecou totalmente com os seus detetives. Eu esperava que Thullin seria a detetive incrível e girl power da coisa toda, mas acaba que ela é apenas mediana, cética demais para correr atrás de pistas, até mesmo submissa em sua função. Os seus melhores momentos se dão por algo que Hess, seu parceiro, faz ou fala e ainda assim ela bate o pé em não ver o óbvio. Isso me deixou um pouco irritada, pois por mais que eu seja apenas uma expectadora dessa história é óbvio que existem coisas que precisam ser investigadas e é cansativo ter que ler o tempo todo somente um personagem insistindo nisso e sendo taxado como chato por todos ali.

Talvez por eu ser leitora de suspense eu tenha a impressão de que já vi de tudo, então até uns 70% do livro parece que nada novo foi escrito. Cenas de perseguição que dão para um falso suspeito, assim como o clichê do assassino que se esconde nas sombras, e missões que provam que os policias estão três passados atrás do assassino. É clara a intenção do autor em colocar pequenos plot twists, e talvez isso se deva ao fato de ele ser roteirista para uma série de TV, onde precisa dessas reviravoltas para entreter os expectadores a cada episódio, mas sua tentativa no livro foi falha, já que só passou a impressão de estar enrolando a investigação e deixando os detetives mais burros.

Claro que nem tudo esta perdido, já que o livro tem um ótimo plot twist com a revelação do assassino. Admito que eu nunca imaginei ser a pessoa que o autor escolheu e em nenhum momento ele nos deu pistas. A resolução do caso acabou sendo muito bem elaborada e crível; Ao contrário de muitos outros livros não foi um final onde tudo aconteceu rápido, pelo contrário, ele usou uns bons 30% do livro se dedicado as revelações finais, simultaneamente com três personagens, e isso me deixou um pouco ansiosa para saber o que iria acontecer. Tudo o que me desagradou durante o livro me deixou contente ao final da leitura.

As Sombras de Outubro foi a aposta da Suma de Letras para o inicio de ano mais sombrio e mesmo com as minhas impressões não sendo 100% positivas é um livro que indico para quem procura um suspense mais pesado e surpreendente ao final.

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Título: As Sombras de Outubro (The Chestnut Man) • Autor: Søren Sveistrup

Resenha: Os Testamentos

janeiro 20, 2020

Fato que assim que vi o primeiro anuncio de Os Testamentos eu entrei em desespero para ler este livro, que prometeu ter as respostas para algumas questões deixadas em O Conto da Aia (segundo a própria autora) e já chego aqui exaltando essa maravilha da literatura contemporânea! Honestamente, se você não leu está perdendo seu tempo aqui, inclusive está perdendo seu tempo na vida. Essa leitura é, além de tudo, uma forma de mostrar a sociedade qual caminho ela esta seguindo sem muito esforço e divagações.

O livro irá nos contar três histórias paralelas que em determinado ponto se cruzam. A primeira é da tão temida Tia Lydia, a segunda é da filha de um poderoso Comandante e a terceira é de uma jovem que mora no Canadá. De inicio a cronologia fica um pouco confusa, mas como o livro em si segue aquele mesmo padrão do primeiro (parece um diário) logo fica fácil entender quando e onde cada história acontece.

Diferentemente das minhas outras resenhas eu não irei focar aqui sobre as personagens (com exceção da Tia Lydia), pois qualquer detalhe facilmente poderá ser spoiler. O bom é que o livro é tão além das personagens que elas se mostram ser apenas uma pequena peça em tudo que envolve Gilead. Começando, claro, por toda sua hipocrisia. O maior exemplo de dominação masculina que podemos ter atualmente está neste livro, assim como exemplo do quanto os homens temem as mulheres e querem provar sua masculinidade em cima de nós. Caso você nunca tinha lido O Conto do Aia ou tenha visto a série posso te colocar como comparativo sociedades onde as mulheres são submissas aos homens por causa de religião e para piorar, assim como nessas religiões, há casamentos arranjado entre meninas de 13 anos e homens de +40.

É revoltante ler um livro como este sabendo que as coisas ali descritas, que deveriam ser distópicas, na verdade estão acontecendo nesse exato momento e que as pessoas que ali vivem precisam fazer o que for necessário para garantir a sua própria sobrevivência, pois nem todos tem coragem de tirar a própria vida para acabar com o sofrimento (e claro que isso está longe de ser a solução). Mais revoltante é ter a prova de que a sociedade, principalmente a sociedade conservadora, na verdade tem interesse somente em seu próprio poder e dominação, capaz de eliminar todo e qualquer empecilho de seu caminho ainda alegando que é vontade de deus.
Toda mudança de governo pela força é seguida de um movimento para esmagar a oposição. A oposição é liderada por pessoas instruídas, logo quem tem instrução é eliminado primeiro. 

Eu gosto muito da forma como Margaret conta essa história, pois ela realmente nos faz refletir sobre o que estamos vivendo e o que poderíamos fazer para que não entremos em colapso. Por mais que o tema do livro seja extremamente forte a autora sabe como nos contar essas histórias de forma sutil, o maior exemplo disso é quando uma personagem está contando para outra sobre o abuso sexual que sofreu do próprio pai ainda na primeira infância. Causa sim repulsa, raiva; Mas ela sabe que não precisa dar detalhes para que nós entendamos o que aconteceu.

Fico muito contente de ver a outra face de Tia Lydia neste livro, pois após odiá-la tanto no Conto da Aia e na série eu tinha até deixado de vê-la como humana, sabe? Mas assim como as outras mulheres ela tinha um vida antes da queda dos EUA e o que não vimos anteriormente é o quanto ela sofreu para chegar até li. Sua posição respeitada e de poder em Gilead não é por uma crença na palavra divina, não é porque ela realmente acredita em todos aqueles discursos que já a vimos dar, mas é puramente seu instinto de sobrevivência falando mais alto do que qualquer coisa e eu só consegui pensar: Será que eu seria uma Tia Lydia? Ou será que eu resistiria e morreria antes? Quando se trata de situações extremas cada pessoa age de uma forma diferente e agora me sinto muito mais empática com ela.
A verdade pode ser um perigo para aqueles que não deveriam conhece-la. 

Você vai me desculpar pelo discurso, mas tem tantas coisas que eu poderia falar deste livro! O medo de dar spoiler é grande, então tentei ser um pouco superficial. A história é maravilhosa, mas acima de tudo a lição social que tem nessas 400 e tantas páginas é tudo o que precisamos atualmente e por isso que você precisa ler. Principalmente se você for mulher.

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Título: Os Testamentos (The Testaments) • Autora: Margaret Atwood

Editora: Rocco • Tradução: Simone Campos

Resenha: Um de Nós Está Mentindo

janeiro 10, 2020

Neste livro, conhecemos quatro adolescentes, Nate, Addy, Cooper e Bronwyn, que estão sendo acusados de assassinato. Durante uma detenção em que os quatro alunos estavam presentes, Simon sofre um choque anafilático e falece instantes depois. Porém, a polícia chegou à conclusão que sua morte não foi acidental, já que o copo onde Simon bebeu água pouco antes de morrer continha traços de óleo de amendoim, alimento do qual ele era alérgico. A partir daí, todas as pistas do suposto crime levam aos quatro adolescentes que estavam presentes naquela sala.

Parece totalmente injusto colocar a culpa nos meninos, mas cada um deles tem um motivo para odiar Simon e querê-lo morto. Assim, como o título do livro já indica, algum dos personagens da história está mentindo e fica muito difícil confiar em alguém. Até certa ponto, esse "pequeno detalhe" acaba gerando uma grande tensão, já que os capítulos são narrados intercalando os pontos de vista dos quatro adolescentes. Porém, com o decorrer da leitura, a gente começa a ter sentimentos super contraditórios em relação à eles, porque, querendo ou não, vamos conhecendo o interior de cada um, como eles se sentem, como estão lidando com tudo. 

A narrativa de McManus é muito envolvente, extremamente fluida, tanto que é uma leitura extremamente rápida. O tema, que tem de tudo para ser um enorme clichê, foi conduzido de uma forma magistral pela autora. A única coisa que me incomodou um pouco foi que muitas vezes eu não conseguia identificar qual personagem estava narrando naquele momento. Então, na minha opinião, faltou dar diferentes "vozes" aos personagens, sabem?

Apesar dessa atmosfera de mistério, o young adult está presente no decorrer das páginas, tendo espaço até mesmo para aquele romance adolescente que a gente adora. Para ser sincera, as minhas partes preferidas eram as dos personagens que formaram o casal — no caso eu não vou contar para vocês sentirem exatamente o que eu senti durante a leitura. Outro ponto bacana de citar é o amadurecimento dos personagens no decorrer da trama, quando começam a se aceitar e perceber que todo mundo erra, até mesmo a pessoa mais perfeita. 

Eu tinha diversas teorias para o desfecho da história dos adolescentes e, quando eu já estava quase lá, descobri o que realmente aconteceu com Simon, mas isso não fez com que eu gostasse menos do livro. Acredito que, quando um autor deixa pistas para o leitor, é porque realmente quer que ele desvende o mistério. A história criada por McManus é um maravilhosa, com temas atuais que levantam ótimas discussões. Um de Nós Está Mentindo com certeza tem a capacidade de conquistar os leitores desde as primeiras páginas.

Título: Um De Nós Está Mentindo (Um de nós está mentindo)  • Autora: Karen M. McManus
Editora: Galera • Tradução: André Gordirro
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