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Um papo sincero sobre "A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes"

julho 06, 2020
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes

É claro que o anuncio de um novo livro da saga Jogos Vorazes não iria passar batido pelos fãs... exceto que passou. Não como se os fãs da saga não estivessem ansiosos por essa nova experiencia de uma distopia juvenil que fez tanto sucesso, mas convenhamos que ninguém está vendo por ai um "boom" de gente comentando sobre esse livro (provavelmente não tanto quanto a editora gostaria, né?). E o motivo para mim ficou até meio óbvio após minha leitura do livro que se mostrou fraco e desnecessário, mesmo com novas informações.

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes se passa 10 anos após a primeira edição dos Jogos Vorazes, onde um jovem Snow (aquele que conhecemos como Presidente Snow) está ainda na escola e acabará fazendo parte dos jogos como mentor de uma tributo do Distrito 12, Lucy Gray. No meio de tudo isso Snow acaba se apaixonado por Lucy Gray, que faz parte de um grupo chamado "Bando" que em um comparativo com o que nós conhecemos é quase uma companhia de teatro. A história poderia ser maravilhosa caso não soubéssemos quem Snow irá se tornar, mas é interessante pensar nesse personagem com uma nova perspectiva, principalmente após vê-lo vulnerável, faminto, apaixonado, e na beira da ruína com a pobreza de sua família que ainda tenta manter algum status.

O livro não me deixou feliz e nem surpresa como a trilogia original me deixou há alguns anos quando meu primo falou tanto, tanto, tanto sobre ele que eu acabei cedendo para ler; muito pelo contrário: eu me senti muito decepcionada. É um livro longo que poderia facilmente ser bem mais curto, pois existem tantos momentos que eu senti que houve aquela enrolação que eu sentia sono em vários momentos de leitura. Talvez os capítulos longos tenham influenciado um pouco, mas a forma como a história nos foi apresentada realmente não me satisfez como leitora, sabe? E eu nem vou falar que estava com expectativa altas para a leitura porque seria uma mentira. Eu evitei ler resenhas, assistir a vídeos e comentários sobre a obra para começar a ler isenta de opinião de terceiros e no fim acabei sentido o que algumas pessoas também sentiram: O livro não é necessário para os fãs. Ele tem algumas informações interessantes como a ideia dos mentores nos jogos e da fascinação de Snow por rosas, e até mesmo pode explicar o motivo de ele ter tanto ódio do Distrito 12 e a proibição da música The Hanging Tree, mas essas são informações não necessárias, né? A trilogia estava perfeita sem essas informações.

Infelizmente o novo livro não agrada tanto quanto deveria e, para mim, é mais como um livro para fazer dinheiro encima de algo que já foi muito lucrativo. A fonte não é eterna, então...

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Título: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (The Ballad Of Songbirds And Snakes)
Autora: Suzanne Collins • Editora: Rocco • Tradução: Regiane Winarski

Resenha: Teto para Dois

junho 29, 2020

Imagem de um livro

Eu morro de medo de um livro ser muito hypado pois, as vezes, ele entra para a minha lista de odiados. Então quando vi a respeito de Teto Para Dois quando ele foi lançado no final de 2019 por mais que estivesse curiosa com a leitura eu evitei ler por mais de 7 meses. Este mês ele entrou para a leitura do Abandonados da LC e então usei essa desculpa para finalmente ler e acho que tenho uma opinião razoável.

Acredito que não vi ninguém criticando o livro de uma forma negativa, o que já é algo para me deixar com pé atrás, mas mesmo assim eu queria fazer essa leitura pois a premissa do livro é muito boa. O que eu não esperava eram elementos na obra que a fizessem ser importante, como o relacionamento abusivo da Tiffy. Eu sempre me lamento por alguns livros não abordarem esse tema quando tem oportunidade ou até mesmo por abordar de uma forma ruim e o que acontece nesse romance é que o relacionamento de Tiffy foi bem abordado para que as leitoras pudessem até mesmo se identificar, caso tenham algum namorado abusivo. Primeiro Tiffy não sabia o que era isso, não entendia o poder que seu ex tinha sobre si e muito menos percebia os pequenos sinais de que o cara é problemático, mas aos poucos e, principalmente, após algumas sessões de terapia ela pôde cair na real sobre o que ela viveu por alguns anos com um boy lixo. Sério, isso no livro me agradou muito mesmo pois, como já disse, pode servir de alerta para algumas leitoras.

Agora sobre a história em um geral: Sim, o romance é super fofo e natural. Acho até estranho usar a palavra natural para descrever um romance, mas às vezes sinto que o casal meio que se força a estar juntos, sabe? E aqui não aconteceu isso. Não sei se foram as trocas de bilhetes ou a reação que ambos tinham a esses bilhetes, porém quando eu percebi eles já estavam juntos e eu achando aquilo tudo muito lindo. Leon é um personagem bastante resguardado, até mesmo extrovertido, e é claro sentir isso com a seus capítulos, mas acima de tudo ele é divertido de ser ler. Tiffy já é bem louquinha, tem um estilo diferentão e assim como eu ela ama DIY (mas ao contrário de mim ela, de fato, faz esses DIY). Os dois são o casal mais improvável e que ficam lindos juntos.

Ao contrário do que parece eu não amei o livro. Amei sim alguns pontos dele, mas no geral não foi um livro que eu acabei favoritando, pois acho que para mim não bastava só ter um elemento de relação abusiva, mas talvez explorar mais isso... Claro que a intenção não era essa, então eu não deveria exigir isso, mas quando a autora decide colocar algumas situações com o ex-namorado louco fazendo umas coisas até criminosas eu achei que a atitude dos personagens foram totalmente superficiais e os diálogos bem teen, sabe?  Além disso tem uma outra situação envolvendo o irmão de Leon que me incomodou bastante. O personagem foi inserido para dar um plot maior ao Leon, mas achei um pouco perdido na história de um modo geral. Houve sim uma tentativa de nos fazer ter empatia por Richie mas para mim não funcionou por mais que ele seja um personagem divertido.

Teto para Dois é um livro divertido de ler sim, mas algumas coisas deixaram a desejar em um contexto geral da história. Se você procura só um casal super fofo então esse livro é 100% para você.

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Título: Teto Para Dois (The Flatshare) • Autora: Beth O'leary
Editora: Intrínseca • Tradução: Carolina Selvatici

Resenha: (Des)conectados

junho 12, 2020

Quando li a sinopse de (Des)conectados pela primeira vez achei que seria um livro distópico com uma pegada mais adulta, entretanto ao iniciar a leitura já percebi que estava de longe de ser o que imaginei. Apesar de conter tecnologias que não existem, ou não conhecemos, o livro é bastante contemporâneo ao lidar com o tema tecnologia e seres humanos. 


Sloane tem um profissão peculiar: Ela prevê quais são as próximas tendencias tecnológicas mundiais, um dos exemplos foi o touch screen, no inicio dos anos 2000. Além de tudo ela é uma mulher contra maternidade e por isso também tem uma fama polêmica, já que sempre discursou sobre isso e defendeu seu ponto de vista, além de ter um relacionamento sério com um homem francês que, além de concordar com ela, atualmente defende uma politica contra sexo sem penetração. Sim, parece tudo bem estranho, mas o livro não foca nessa parte da vida de Sloane e sim quando ela volta para os Estados Unidos para um novo trabalho e sente que não é mais a mulher que já foi um dia.

Cortar o cordão umbilical nem sempre se trata de se separar completamente de alguém, mas de nos separarmos da repetição de um relacionamento que não enriquece mais nossa vida. 

A proposta do livro é maravilhosa, pois é muito fácil observar nos dias atuais essa ideia de que as pessoas não se relacionarão pessoalmente da mesma forma que sempre se relacionaram, seja sexualmente, com família ou amigos. Nós temos as redes sociais e apps em nossas mãos e acreditamos fielmente que eles são o futuro e que eles vieram para nos ajudar em tudo; Mas infelizmente não é bem assim, por mais que há benefícios em todas as tecnologias nós não sabemos usa-la sem afetar nossos relacionamentos interpessoais e o livro, no caso, falha em tentar mostrar isso. Primeiro com o relacionamento de Sloane, onde eles não fazem sexo há quase dois, onde não há palavras de amor, apesar de Roman admirar a mulher que está a seu lado e defender suas ideias. Segundo com o relacionamento familiar de Sloane, que ruiu completamente com ela sempre agindo na defensiva e evitando sua mãe e sua irmã. Ela percebe que foi deixada de lado mas nunca tentou mudar isso.

Eu gostei bastante da temática do livro, porém o decorrer da história me fez sentir que não havia nada crível ali. A personagem não é cativante e senti uma falta de narração em primeira pessoa para tentar entender um pouco mais suas ideias, tanto as antigas quanto as atuais. A autora quis contar uma boa história, mas não soube desenvolver a personagem que nos faria conhecer essa história, então como leitora senti mais o livro só tentou criticar a evolução tecnológica e a falta de conexão entre as pessoas, mas não se sustentou ao exemplificar com uma pessoa.

Leitores desse blog sabem que o que mais aprecio na literatura são os personagens, inclusive os secundários; E eu odeio quando os autores não desenvolvem um único personagem direito. Falo isso agora pois nesta obra nem os personagens secundários acabam cativando os leitores. Ela colocou ali um carro tecnológico com uma IA chamada Anastacia e que poderia ter uma relevância na discussão e a única coisa que ela faz é "medir a pressão" de Sloane e fazer café no carro. Exemplos na literatura de relacionamento entre IA e ser humano não faltam e infelizmente a autora não soube desenvolver com base nesses exemplos (tô supondo que ela tenha essas referencias).

Enfim, gente... O livro é muito interessante, principalmente pensando no contexto pré-pandemia onde algumas coisas dali realmente estavam a ponto de acontecer. Com a quarentena acho que nossas relações pessoais vão mudar de acordo com a nova previsão de Sloane e isso é uma coisa boa. Podemos usar tecnologias mas de forma consciente, né?

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Título: (Des)conectados (Touch) • Autora: Courtney Maum
Editora: Record • Tradução: Caroline Simmer

Resenha: Do que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro

junho 10, 2020

Sohaila Abdulali  é a primeira mulher indiana que em meados dos anos 80 foi estuprada por quatro homens desconhecidos na frente de seu melhor amigo e teve coragem de falar sobre isso. Como bem exemplifica a autora uma semana após ela ter sido estuprada leu uma história no jornal sobre uma mulher que também foi vitima de estupro coletivo, enquanto estava passeando com o marido, e no dia seguinte ao voltar para a casa se matou para não desonrar a sua família e o próprio nome. Situações como essas são bem comuns em países do oriente, entretanto Sohaila tem o que a maioria das mulheres não tem: uma família que a apoia sem julgamentos. Pode parecer estranho, por se tratar de uma família religiosa e conservadora, mas apesar disso eles sabem que a culpa não é da vítima pelo abuso sofrido.
Na Índia, o estupro em comunidades fechadas é, na realidade, uma das justificativas para o casamento de crianças. É melhor que a garota vá morar com os pais e parentes do noivo enquanto ainda é virgem, e que seja legalmente estuprada, do que um tio ou vizinho chegar primeiro.

Por mais que Sohaila tenha uma história para contar ela não passa o livro focando em si mesma, pois existem tantas nuances e diferenças de estupros, abusos e vitimas que poderiam ser escritos vários e vários livros para abordar cada um dos temas. Um ponto especifico que eu poucas vezes havia parado para refletir é a respeito dos homens que são estuprados e em como isso afeta sua vida. Há neste livro um homem especifico que levou anos para superar seu abuso e enfim construir sua vida e uma afamilia de forma saudável e uma tragédia acabou levando a filha dele, de apenas 9 anos. Este homem, apesar de sofrer tanto pela sua perda ainda explica que o abuso foi muito pior, pois ele não tinha ninguém para consola-lo, ele não tinha ninguém para dividir essa tristeza. Claro que em nenhum momento ele disse que não sofre pela morte de sua filha, mas que neste caso a dor é dividida com sua esposa, parentes e amigos, é uma rede de apoio com essa tragédia e nós sabemos que muitas vitimas de estupro nunca contam a ninguém que foram estupradas, entende?

A autora pode, para alguns, criar uma pequena polemica ao falar sobre a humanidade dos estupradores, mas ao argumentar conosco ela é muito especifica sobre o que quer dizer e, mais uma vez, é um ponto de vista que eu nunca tinha refletido. Nós temos costume de enxergar esses homens como monstros, mas o que eles são é nada mais do que seres humanos que tem uma escolha a ser feita: estuprar ou não estuprar. E eles escolhem a primeira alternativa, isso não faz deles monstros, mas fazem deles pessoas más que precisam ser julgadas como tal. Presumir que eles são monstros é tirar a responsabilidade deles como seres humanos ao tomar uma decisão. Seu embasamento se da, principalmente, com o relatos do caso Thordis e Tom (resumindo Thordis foi estuprada por Tom quando tinha 16 anos e 9 anos depois eles passaram a se corresponder por e-mail onde ele admitiu o que fez com ela e contou sobre o quanto isso o assombra; eles escreveram um livro juntos).

Esse é um livro importante para o contexto social e mesmo que ali não tenha nenhuma história de uma brasileira ainda assim devemos considerar todos os casos próximos a nós, já que no Brasil a cada 11 minutos há uma denuncia de estupro e nós temos aqui nossa própria cultura de estupro, além de atualmente um governo que claramente não respeita das mulheres e suas decisões. É um livro muito necessário para exemplificar todas as formas de estupro e abusos, e todas as formas que os estupradores e abusadores são visto na sociedade. As únicas que, raramente, são vistas com ambiguidade são as vitimas, não importa em qual situação.

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Título: Do que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro (What We Talk About When We Talk About Rape)
Autora: Sohaila Abdulali • Editora: Vestígio • Tradução: Luis Reyes Gil

Resenha: A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca

junho 08, 2020
Livro teatral

Hamlet é uma das peças mais famosas de William Shakespeare e ainda hoje é grande influencia para livros, filmes e adaptações teatrais, sem mencionar na cultura pop no geral; Assim como qualquer outra obra dele. Justamente por isso eu decidi, há algum tempo, ler algo do autor e a oportunidade surgiu quando a Oasys Cultural me fez esse convite. A edição, publicada pela Chiado Books, conta com a tradução de Leonardo Afonso (escritor e pesquisador acadêmico em estudos Shakespearianos) e um linguagem mais acessível, o que para uma leitora de teatro e William Shakespeare de primeira viagem foi excelente.

Hamlet é um jovem que perdeu o pai recentemente, o rei da Dinamarca, e poucos meses após a morte de seu pai vê sua mãe casando com seu próprio tio que acaba se tornando o novo rei. Para ele nada naquilo é normal e quando reconhece seu pai em um fantasma ele percebe que tinha razão em seus pensamentos e passa a planejar sua vingança. O problema é que a vida dele não é tão simples quanto só uma vingança, já que Hamlet é um garoto mórbido que, de certa forma, contempla a morte ao mesmo tempo que a deseja para si. Eu não sei, de verdade, se essa minha opinião tem alguma relação com a obra em si, com o que Shakespeare queria dizer ao retrata-lo dessa forma, mas me pareceu muito uma pessoa depressiva caminhando para a decisão de tirar a própria vida. Mesmo fazendo parte da elite ao perceber que seu pai foi assassinado e sua mãe logo foi se casando com outro, que além de tudo possivelmente é o assassino de Hamlet pai, ele se deu conta de que ali há um jogo também de poder.

HAMLET
A Dinamarca é uma prisão
(...)
Uma bela  prisão, na qual há muitas celas, alas e masmorras, a Dinamarca sendo uma das piores.

Uma coisa que me intrigou muito na história foi a relação de Hamlet e sua mãe, pois é extremamente conturbada principalmente com o casamento dela antes mesmo de deixar o corpo do falecido rei esfriar. Ele carrega uma grande magoa de sua mãe e isso me fez questionar, por exemplo, a questão de liberdade feminina. Certo ou errado o que ela fez? A rainha tem um grande amor por seu filho, mas diante das demonstrações dele de loucura e da influencia que o novo rei exerce nela mãe e filho se afastam cada vez mais.

Apesar de ser uma tragédia eu posso dizer que teve certos momentos que me diverti muito com os diálogos, principalmente aqueles carregados de dramas, pois são dramas tão profundos que foi difícil eu até crer neles em alguns momentos. Sendo bem honesta eu não acho que tenha entendido a obra muito bem, pois em vários momentos durante a leitura eu me vi perdida nos diálogos e principalmente nos monólogos do personagem, que sempre é repleto de pensamentos mais filosóficos. Infelizmente não posso dizer que me adaptei a leitura de uma peça tentando criar todas as imagens em minha mente sem auxilio de descrições. Mesmo com meus altos e baixos como leitora ao realizar essa leitura é uma obra que gostei de conhecer e que valeu a pena a experiencia.

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Título: A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca (The Tragedy of Hamlet Prince of Denmark)
Autor: William Shakespeare • Editora: Chiado Books • Tradução: Leonardo Afonso


Resenha: Amor(es) Verdadeiro(s)

junho 01, 2020
Foto do Kindle

Que a autora Taylor Jenkins Reid se tornou a favorita do universo literário no último ano não é segredo algum. São vários elogios aos seus livros e a própria autora. Eu, tentando evitar um pouco a fama de Evelyn Hugo optei então por ler Amor(es) Verdadeiro(s) lançado recentemente pela Paralela e acabei me apaixonando.

Emma é uma mulher de 31 anos que está noiva do perfeito Sam, sua vida não poderia estar melhor até que ela recebe uma ligação de seu marido. Sim, marido e não ex-marido. Parece estranho, mas a questão é que Jesse estava desaparecido há cerca de quatro anos, inclusive sendo dado como morto, entretanto não foi isso que aconteceu com ele após um acidente de helicóptero. A vida de Emma se torna nesse momento um caos, onde ela não sabe o que fazer, como fazer e muito menos o que sentir. É uma premissa que pode despertar aos leitores a impressão de ser somente um triangulo amoroso, porém o livro está longe de ser isso. Emma é uma personagem cativante, pois para mim ela é um reflexo até mesmo de quem eu costumava ser em alguns aspectos aos 18 anos: odiava sua cidade natal, gostaria de conhecer o mundo, fazer coisas inimagináveis e ser livre. E ela fez isso isso ao lado de Jesse, seu amor da adolescência. Eles tinham uma vida muito feliz juntos e eu amei tanto quando ela nos conta como eles se conheceram na adolescência e como foi surgindo o sentimento entre eles, pois nada daqui me deu a impressão de ser uma história perfeita, sabe? Mas uma história bonita em que duas pessoas que se apaixonam decidem construir juntas. E é triste ver que essa história foi interrompida por um trágico acidente.

Após um longo período de luto, em que decide voltar para sua cidade natal e ajudar a sua família a cuidar da livraria Emma reencontra Sam, um amigo da infância e percebe que precisa se dar uma nova chance de ser feliz e de amar novamente e então uma nova história ela passa a construir ao lado dele. E clara a mudança de Emma ao longo da história e eu também gostei muito de sua versão ao lado de Sam, sabe? Uma versão calma, que deseja uma família, e ama uns pets, além de estar mais tranquila em relação a loucura das viagens e trabalho. Sem entrar em detalhes que Sam também é um ótimo noivo e o relacionamento deles é tão fofo, mas tão fofo, que parece até um romance água com açúcar.
Que engraçado, né? Os homens costumam ver a traição nas coisas que fazemos e não naquilo que sentimos.

Emma sabe que ama os dois homens, cada um de uma forma diferente, mas sabe que é amor verdadeiro, entretanto precisa fazer uma escolha. Ficar com seu marido ou se casar com Sam? Neste momento pode parecer que o livro gira em torno dessa escolha que ela precisa fazer, e de certo aspecto sim, mas não há um drama em torno disso. Emma é tão racional que mesmo no ápice de suas emoções ela consegue fazer a coisa certa, o que é até estranho quando estamos acostumadas com personagens que se levam o tempo todo pela emoção. A autora vai nos entregar uma grande história de amadurecimento e a percepção de que os relacionamentos passam por fases e que nem sempre essas fases precisam nos machucar ou machucar ao outro.

Em livros onde a protagonista gosta/ama duas pessoas ao mesmo tempo, geralmente, acabamos escolhendo um deles e eu não consegui escolher nenhum dos dois nessa trama, o que me fez gostar mais ainda de ter conhecido essa autora que está sendo tão aclamada nos blogs e intagrams literários. Não acho que teria uma escolha certa ou errada para ela, apesar de entender o que a levou a escolher quem ela escolheu. Qualquer um dos dois é uma representação de algo para Emma, assim como qualquer um dos dois a fariam feliz como ela merece. É um livro que eu amei muito e, claramente, vai me fazer ler outras obras dessa autora.

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Título: Amor(es) Verdadeiro(s) (One True Loves) • Autora: Taylor Jenkins Reid 
Editora: Paralela • Tradução: Alexandre Boide
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Resenha: Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola

maio 27, 2020
Autora Maya Angelou


Não conhecia Maya Angelou até ver a capa deste livro e me apaixonar muito por ela. Achava que era uma obra de ficção e tive uma baita surpresa quando li a sinopse e descobri que é a autobiografia de uma atriz, poetisa, além de ter sido a primeira mulher negra a roteirizar e dirigir um filme em Hollywood, além de ser amiga de Martin Luther King e Malcolm X era também ativista, dançarina, jornalista e professora. E para acabar ela recitou um de seus poemas na posse do presidente Bill Clinton lá em 1993. Claro que tem outras coisas, mas acho que já deu para entender que a mulher é foda, né? Apesar de ser tudo isso e muito mais o livro não faz falar sobre isso e sim sobre infância. Cada capítulo vai contar de algo e eu já aviso que é bom você estar preparada para sorrir e chorar, logo de  uma página para outra. Sua vida foi extremamente difícil, ainda mais sendo de um país tão racista nos século passado (como se ainda não fosse).

Maya morava com a avó, seu irmão mais velho e seu tio em uma casa com um mercadinho na frente. O negócio era da sua avó e era bastante próspero naquela vila, tanto é que quando veio a crise de 29 a avó de Maya era quem ajudava as pessoas a não passarem fome. Mas mal recebia um agradecimento, já que a maioria das pessoas que ela ajudavam eram brancos que a tratavam como lixo por sua cor de pele. Apesar dessas coisas Maya era uma criança feliz, mesmo com saudades da mãe e do pai. Havia um sentimento de abandono muito grande em relação a eles e sua avó não era tão carinhosa assim, apesar de cuidar muito bem dos netos. Seu relacionamento com o irmão era maravilhoso e apesar de tomarem umas surras, às vezes, eles se divertiam aprontando.

Essa alegria não durou muito tempo. A mãe de Maya resolveu que era hora de cuidar dos filhos e os levou embora. Sua família era um pouco mais bem de vida do que a família do pai e pela primeira vez ela teve o conhecimento do que era luxo. Maya odiava morar com sua mãe, a cidade nova, as pessoas que as rondam e quando teve uma figura masculina que ela poderia considerar como paterna ele a estupra. Maya tinha apenas 8 anos quando isso aconteceu e seu medo já era maior que qualquer coisa. Ela não contou para sua mãe com medo de ser apontada como a culpada pelo que houve, mas ela descobriu de qualquer maneira e tomou uma atitude. Depois disso Maya ficou sem falar por anos. Nem uma única palavra saia da boca da mulher que recitaria seu próprio poema na posse de um presidente.

Eu sei que até esse ponto eu jé contei muito da história do livro mas gente, como não? Olha o que essa mulher passou e olha o quem ela se tornou. A história dela é tão triste pelas coisas ruins e tão inspiradoras pois ele nunca desistiu de nada, nem de si mesma quando passou a entender a vida. A Maya tinha tudo para ser só mais uma mulher, só mais uma mulher negra nesse mundo racista, mas ele fez muito mais. Ela foi atrás de tudo o que queria, tanto é que com 15 anos ela se tornou a primeira pessoa negra a trabalhar em um daqueles bondinhos que tinha na época. Você consegue imaginar no contexto histórico disso? Me apaixonei muito por ela, além de amar sua forma de escrever. Ela deixa uma biografia ser legal e às vezes até parece um pouco de ficção.

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Título: Eu sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola (I Know Why the Caged Bird Sings)
Autora: Maya Angelou • Editora: Astral Cultural • Tradução: Regina Winarski
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Resenha: Quem tem Medo do Feminismo Negro?

maio 25, 2020
Djamila Ribeiro Livros

Acho que a Djamila foi super legal com esse título. Na realidade ele deveria ser "Porquê brancos tem medo do feminismo negro?" e eu falo isso não somente pelos textos que tem neste livro, mas por minha experiencia com clientes na livraria onde trabalho (onde uma mulher branca, classe média alta, pediu livros sobre feminismo e quando eu mostrei esse ela fez cara de desdém), além do fato de ouvir um "Porquê tem que ser negro?". Infelizmente vivemos em um mundo até onde pessoas inteligentes são burras.

God me free de pagar de super sabidona aqui. É justamente por isso que eu leio livros: para aprender cada vez mais e é claro que é por isso que eu quis ler esta obra. Já seguia e conhecia um pouco do trabalho da Djamila nas redes sociais e amo a força que ela tem, a forma como ela inspira outras pessoas e principalmente mulheres negras. Eu sei que meu lugar como pessoa branca não é lutar contra o racismo como se ele fosse parte da minha rotina e sim dar respeito e a visibilidade que essas pessoas merecem. Então sim eu li esse livro para entender um contexto social que não faz parte de mim, mas que envolve a sociedade em que eu vivo; Eu li esse livro para poder militar quando alguém me perguntar os motivos de um mulher negra merecer uma atenção especial no feminismo; e nesse ponto do texto vocês já entenderam o recado.

"Quem tem medo do Feminismo Negro?" reúne artigos que Djamila escreveu, em sua maioria, para o jornal Carta Capital e no inicio ela faz um pequeno apanhado da sua vida. Eu ainda não conhecia a história dela e fiquei curiosa por mais. Tem tantas coisas que essa mulher passou para poder chegar onde está que nós nem temos noção de como foi um caminho difícil. Os artigos todos falam sobre racismo e principalmente sobre mulheres negras. Antes desta obra eu tinha um visão muito limitada a respeito do feminismo negro (não era tão ignorante quanto as pessoas citadas acima, mas não entendia muito a respeito dele) e agora consigo refletir um pouco mais sobre o meu papel na sociedade como mulher branca e o quanto mulheres como eu, por mais feministas que se dizia, ajudaram o racismo a se propagar diminuindo outras apenas pela cor de sua pele. É um livro de história, é um livro que joga coisas na nossa cara sem medo (e que esta certíssima em fazer isso). Mais do que tudo é um livro para te tirar da zona de conforto e não apenas durante a leitura, mas também no dia a dia.

Um livro que trás fatos a respeito da mulher negra sendo sempre vista como a empregada, ou quando convém a sociedade, sendo vista como a musa do carnaval; Trás fatos a respeito da meritocracia, que não funciona nunca em uma sociedade de classe baixa. Um livro que irá te explicar que piada a respeito da cor da pele do amiguinho branco não mata cerca de 75% das vitimas de homicido no Brasil, irá te explicar o motivo que piadas na escola acabam com a auto estima de dezenas, milhares, de meninas que tem o cabelo crespo e entram em uma luta para ser padrão em uma sociedade onde só é bonito ter o cabelo liso. Enfim, eu fiquei muito satisfeita com essa leitura e com o que ela me proporcionou.

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Título: Quem tem Medo do feminismo Negro? • Autora: Djamila Ribeiro • Editora: Cia das Letras
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Resenha: A Prometida

maio 20, 2020


Kiera Cass anuncia um novo livro, do nada, e claro que a internet vai praticamente abaixo. Expectativas foram criadas e elevadas a cada dia após a revelação de capa e sinopse e o hype da editora, não é para menos... uma autora muito querida pelas leitoras de YA e fantasia não poderíamos esperar outra coisa. Então imaginem a minha surpresa quando a Seguinte liberou o e-book do livro para seu parceiros e os que finalizavam a leitura não estavam felizes com a história que a autora nos entregou? Eu como não sou boba e nem nada fui logo lendo para tirar minhas próprias conclusões.
O que é uma amiga senão alguém que acredita que você consegue mais do que imagina? 

A Prometida, assim como o grande primeiro sucesso da autora A Seleção, se passa em um mundo de monarquia e, consequentemente, patriarcado. Hollis, a protagonista, é uma jovem que vive no palácio e chamou a atenção do rei Jameson após ele se cansar de outras garotas que estava cortejando. Pessoalmente ela não acredita que chamaria a atenção do rei mas ao mesmo tempo deseja toda essa atenção pois quer ser respeitada como uma rainha e fazer parte da história de Coroa (o nome do país deles) como as outras rainhas da história. E isso é basicamente tudo o que vimos de Hollis durante uma grande parte da história, infelizmente. Eu gosto muito quando leio um livro e, mesmo não amando a protagonista, ou algo assim, eu ainda sinto empatia e simpatia por ela e no fim das contas torço para que ela seja feliz, mas com Hollis foi diferente. Claro que não fiquei torcendo para ela se dar mal, mas eu não consegui me conectar de verdade com ela. Enquanto Hollis dizia estar apaixonada pelo rei eu nunca senti de verdade lendo suas palavras de paixão e sensações que isso era real, da mesma forma que eu também não senti isso quando ele teve Silas (sim, temos novamente um triangulo amoroso). Apesar de a sinopse prometer uma personagem de opiniões fortes ela foi somente uma personagem comum, principalmente se colocarmos em contraste com Delia Grace (a melhor amiga e dama de companhia das Hollis); que sempre foi vista a margem daquela sociedade e sempre se dedicou para ser uma pessoa bem vista conforme suas virtudes. Delia Grade estudava línguas, politica, história e tudo o mais e ela sim poderia ter nos apresentado opiniões fortes, mas foi ofuscada pela sua amiga que era preguiçosa e só pensava em vantagens que a realeza poderia lhe dar.

Sobre os demais personagens, infelizmente, também não tem profundidade. Eu me pergunto como um livro com cerca de 350 páginas conseguiu não se aprofundar em nada na história de seus personagens. Mesmo quando Silas apareceu com sua família, sendo refugiados de um reino vizinho, demorou muito tempo para uma pequena explicação sobre eles ser dadas a nós e o que me deu mais raiva nisso foi a falta de curiosidade Hollis, mesmo percebendo que tinha algo errado. Talvez isso prove o ponto que eu disse no paragrafo anterior a respeito dela. Mesmo a história do rei Jameson, que teoricamente ela deveria saber por viver dentro do palácio ainda assim foi um mistério grande parte da obra (mesmo que não tenha grandes coisas a serem reveladas nesse quesito). E por falar no rei eu preciso aplaudir a Kiera por saber fazer reis tão insuportáveis em seus livros. O rei Jameson até parece ser um homem legal no inicio do livro, mas aos poucos algumas de suas falas revelam parte da sua personalidade, que por acaso é a personalidade que um rei deve ter ainda mais em uma sociedade patriarcal como Coroa é, então não deveria haver surpresas nisso, entretanto por ser um romance é claro que eu queria ele fosse um fofo.
O amor é a sobremesa de um banquete para o qual e ainda estou esperando convite. 

Ao contrário do que parece, em um contexto geral, eu gostei do livro. Mesmo sem nos mostrar muito sobre os personagens a autora me conquistou com a história em si, mostrando um preconceito que as pessoas tem por estrangeiros e com desejo de ser algo maior do que é. O livro em si tem um clima bastante alegre e é muito gostoso de ler (eu terminei em um dia), e por se tratar de uma duologia é claro que o final tem surpresas que abrem debates para as leitoras criar teorias sobre o futuro das personagens. Eu vou sim ler a sequencia quando sair e vou torcer para que a autora não volte atrás em algumas decisões, mas que ainda assim seja um final digno de princesa para Hollis.

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Título: A Prometida (The Betrothed) • Autora: Kiera Cass
Editora: Seguinte • Tradução: Cristian Clemente

Resenha: Mentirosos

maio 18, 2020

Em meados de 2014 eu li Mentirosos pela primeira vez. Lembro-me que na época houve grande falatório a respeito da obra pois muitas pessoas se surpreenderam com o final e eu, claro, não fiquei imune a surpresa. Gostei tanto do livro que favoritei no Skoob e guardei a minha cópia cheia de post-its com carinho na estante, anos depois presenteei uma amiga com o livro com a promessa de que ela iria amar e dito e feito, a menina ficou maravilhada com a história e hoje, após 5 anos eu reli essa obra por causa de uma leitura coletiva maravilhosa.

Na primeira vez que li Mentirosos eu me surpreendi tanto com a história que deixei alguns elementos de lado, ou talvez porque naquela época eu não era uma leitora tão critica quanto sou hoje em dia; Principalmente pelas questões de privilégios e preconceitos e acredito que por isso acabei gostando muito mais do livro hoje. Isso não muda o fato de que ele é um YA, mas muda um pouco mais a minha visão sobre esses livros serem importantes para a construção do pensamento critico dos jovens leitores. Infelizmente eu não tive essa experiencia, mas posso imaginar como é para os mais novos hoje em dia lerem algo como Mentirosos e refletirem sobre questões sociais dentro daquele enredo.
Meu avô é muito mais parecido com a minha mãe do que comigo. Ele apagou a antiga vida gastando dinheiro em outra para substitui-la.

Mas vamos lá, o livro conta a história da família Sinclair, onde todos são perfeitos, brancos, inteligentes e muito ricos. Pelo menos é o que eles demonstram o tempo todo. Não há margem para defeitos, não há perdão para qualquer atitude que não seja considerada de pessoa de bem e de classe e é assim que vive Cady, uma jovem de 17 anos que há dois anos sofreu um trauma e está com perda de memória seletiva além de outros problemas de saúde. Ela narra um pouco da sua infância e como era suas férias de verão na ilha pessoal da família e em como ela conheceu Gat, o garoto com descendência indiana que passa as férias  ali e não faz parte da família. Além de Gat ela passa seu tempo das férias com seus primos Johnny e Mirren. Todos ali tem a mesma idade e portanto são bastante próximos, são chamados pela família por Mentirosos.

Justamente por Gat ser a única pessoa ali que não faz parte da família e não é rico ele acaba questionando aos outros sobre as questões de privilégios e principalmente preconceito por parte do patriarca da família, o avô de Cady e dono de todo aquele império. Gosto bastante dos diálogos que os jovens tem ali, pois apesar de parecer profundo ele é tratado com muita inocência já eles ainda não entendem muito bem isso em uma questão social maior e algumas coisas eles vão percebendo ao observar suas mães vivendo juntas ali naquele ilha brigando por causa de herança antes mesmo do pai morrer.

Aliás, esses jovens... Eu acho que a única coisa que eu realmente queria ter igual a Cady é a tradição de passar tanto tempo com seus primos nas férias e ter a liberdade de fazer o que quiserem em um local seguro. Quando mais nova eu sempre tive muito contato com meus primos, mas alguns moram na mesma casa que eu, então tínhamos muito mais momentos de tretas do que qualquer outra coisa kkkk e infelizmente meus primos tem idades diferentes da minha, então haviam coisas que não conversávamos.



Fiquei muito feliz com essa releitura e com todas as marcações que fiz no livro (o amarelo são de 2014 e o laranja de 2020), pois agora pude refletir sobre outras questões das quais não tinha prestado atenção anteriormente e que fazem muita diferença para a resolução da história antes e depois do plot twist.

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Título: Mentirosos (We Were Liars) • Autora: E. Lockhart
Editora: Seguinte • Tradução: Flávia Souto Maior

Resenha: Não me Abandone Jamais

maio 15, 2020

Na minha postagem sobre autores vendedores do Nobel citei o livro Não me Abandone Jamais, do japonês Kazuo Ishiguro; que eu havia assistido a adaptação há alguns anos. Então aproveite o entusiamos que a postagem me deu para ler o livro e posso afirmar que foi a melhor decisão tomada, pois me deparei com um livro profundo e muito, mas muito lindo. Uma leitura para quem gosta de romance, drama, ficção cientifica e até mesmo infanto-juvenil. Pode parecer estranho, mas eu me senti muito a vontade com todos esses gêneros misturados nesta obra.

Apesar disso Não me Abandone Jamais é um livro muito melancólico e que me deixou bastante triste ao pensar em seus personagens conforme as revelações iam acontecendo. A obra é narrada pelo ponto de vista da jovem Kathy H., uma cuidadora de aproximadamente 30 anos, e em um contexto até mesmo biográfico somos apresentados a pequenos acontecimentos de sua primeira infância, infância e adolescência em Hailsham (uma especie de internato),  junto de seus amigos Ruth e Tommy, assim como a saída deles dali e o entendimento do que eles são de verdade e como eles se sentem em relação a isso.

Sem dar spoilers sobre o enredo, mas ainda assim usando de seus argumentos para falar sobre o livro, ao concluir a leitura pensei muito sobre o que é a arte em nossas vidas? Quais as artes que produzimos, mesmo que não sejamos um grande pintor ou musicista, que refletem quem somos; Que refletem até mesmo a nossa alma? Esses questionamentos surgem sutilmente com as revelações da obra e mesmo que ali não tenha nenhum efeito grandioso ainda assim para nós passar a ser a maior reflexão que o livro nos dá.
Quando me lembro daquele momento, hoje em dia, eu parada ao lado de Tommy numa ruazinha estreita, prestes a dar inicio à busca, sinto um calor bom me invadir o corpo. De repente, tudo parecia perfeito: uma hora inteira a nossa frente e nenhum jeito melhor de gasta-las. Tive de me controlar para não sair rindo feito uma boba nem começar a dar pulos na calçada como uma criança pequena. 

Kathy é uma personagem muito passiva e como narradora ela mesma entende essa característica ao nos contar sobre sua vida. Muitas vezes me irritei com sua passividade e em como ela permitia que as pessoas abusassem dela da forma como abusavam, mas ela era uma boa amiga e foi para todos até o final, com uma ponta de esperança que as coisas poderiam dar certo e as teorias da infância fossem reais e ao vê-la se decepcionando em contraste com outro personagem é muito ruim e como leitora me senti impotente em não ajuda-la.

Tenho certeza que esse livro irá te emocionar de alguma forma e te fazer repensar em conceitos sobre o ser humano e sua essência, assim como irá de fazer pensar em novos conceitos sobre a humanidade. Uma leitura bastante pesada no que diz respeito ao seu conteúdo mas necessária em paralelo com os rumos que a humanidade está tomando.

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Título: Não me Abandone Jamais (Never Let me Go) • Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Beth Vieira

Resenha: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno

maio 11, 2020

Frankenstein é considerado um marco nas histórias de terror e ficção cientifica. Com um enredo envolvente e assustador é fácil saber o porque de ter se tornado um clássico da literatura mundial. Mary Shelley quando publicou pela primeira vez não pode usar seu nome na autoria do livro, pois havia um grande preconceito com livros escritos por mulheres naquela época, e usou então o nome de seu marido. Na cinebiografia da autora podemos conhecer um pouco sobre essa história e foi justamente através dela que me interessei em ler o clássico Frankenstein, ou o Prometeu Moderno.

Eu sempre achei que Frankenstein se tratava muito mais sobre um "monstro", criado por um homem, e que por alguma razão era mal. De fato a história é sobre isso, mas há algo muito mais profundo sobre a criatura sem nome da obra. Victor Frankenstein sempre foi um garoto inteligente e curioso para os estudos e isso foi ao longo da sua vida até a morte de sua mãe; A partir de então ele teve um novo objetivo: Criar uma vida. Sim, podemos dizer que Victor brincou de Deus. Após meses e meses de estudos e experiencias ele enfim teve o exito de sua criação, entretanto ao invés de ficar feliz ele passou a abominar a criatura sem motivo (somente pela sua aparência).

Lembrei-me da súplica de Adão a seu Criador. Mas onde estaria o meu? Ele me abandonara, e na amargura do meu coração amaldiçoei-o. 

Após a negação de seu criador a criatura foge e tenta viver em sociedade, entretanto ao perceber que as pessoas as renegam somente por sua aparência ele passa a viver recluso e observando uma família próxima do galpão onde ele se alojou. Essa, para mim, foi a melhor parte da história. A criatura nos conta essa história e nos mostra como foi que ele conseguiu seguir sozinho, aprender a falar e até mesmo a ler, além de entender o que é amor e compaixão e desejar mais do que nunca isso para si mesmo; Mas infelizmente as coisas nunca poderão ser boas para ele, ao que parece ele nunca terá o amor, seja de seu criador ou de qualquer outra pessoa. Ao percebe isso a criatura declara sua vingança contra seu criador, jurando o fazer infeliz ao matar todas as pessoas que ele ama.

A perseguição de um e outro acaba virando uma caça de gato e rato, mas no meio disso acabam ocorrendo diálogos sobre existência, amor, ciência e filosofia que acabam pegando o leitor desprevenidos. Eu, pelo menos, esperava algo muito mais ficcional e aterrorizante, mas me vi refletindo sobre o mito da criação e até mesmo sobre preconceitos que vejo acontecendo na internet nos dias atuais. Isso só mostra que a obra é atemporal e pode fazer todo e qualquer tipo de leitor refletir sobre a situação da criatura e do próprio Frankenstein, já que ambos são vilões da história do outro.

É um livro bastante instigante e, para quem gosta de algo mais profundo, bem filosófico. Um clássico fácil de ler e compreender com camadas que podem ser dissecadas pelos leitores ou que podem ser deixadas de lado somente para usufruir da história principal.

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Título: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (Frankenstein or the modern Prometheus) • Autora: Mary Shelley
Editora: Martin Claret • Tradução: Roberto Leal Ferreira

Resenha: Corpos Secos (um romance)

maio 01, 2020

Coincidência, ou não, logo após a pandemia da COVID-19 chegar ao Brasil a Companhia das Letras lançou um livro sobre um Brasil devastado após uma epidemia de zumbis (usando o termo popular). Essa história vem bem a calhar em tempos de quarentena, mesmo que os motivos e a doença seja diferente da que estamos vivendo.

O livro é escrito em parceria de quatro autores e nos trás capítulos intercalados com personagens diferentes, portanto vivendo situações diferentes da mesma epidemia. Eu gostei muito dessa abordagem, pois foi possível preservar a identidade de cada autor sem comprometer a história caso fosse de somente um único personagem. Claro que aqui há uma suposição de que cada autor teve a responsabilidade de dar vida a cada personagem ali retratado, ao invés de escrever para todos. De qualquer maneira gosto de pensar assim para não tirar a minha impressão da obra.

Alguns personagens foram bem retratados e o meu favorito foi Murilo, uma criança que prometeu ao irmão que cuidaria de seu peixe e se viu na obrigação de cumprir essa promessa quando sua família sai da base militar em que vivem para ir atrás da promessa de segurança em Florianópolis. A idade de Murilo não foi revelada na trama, mas em casa momento eu achava que ele tinha uma idade diferente e em certo ponto de sua história nem ele mesmo se vê como uma criança, já que acaba fazendo coisas de adultos, vendo coisas de adultos e tendo que agir como um adulto para a segurança de todos; Mas ao mesmo tempo ele não quer perder a sua identidade infantil e se relembra de que é apenas uma criança. A história de Murilo se relaciona diretamente com a de Matheus, seu irmão mais velho que vive em São Paulo e descobriu que, até então, é a única pessoa imune ao vírus e vem sendo estudado por pesquisadores e médicos na procura de uma cura. Matheus, ao meu ver, passou a ver a vida e até as pessoas, como insignificantes após um tempo preso no laboratório e tendo que lidar com a morte eminente de toda a população brasileira e acabei chegando a essa conclusão após um personagem que deveria ser importante para ele acabar morrendo e ele nem ao menos sentir essa morto, ele simplesmente aceita como sendo normal diante da situação em que ele está vivendo.

Além de Murilo e Matheus há mais duas personagens narradas na obra, mas que na minha percepção acabaram perdendo o brilho por causa do plot forte que teve dos dois irmãos. Apesar de Regina passar por péssimas situações, e pior ainda, situações que são totalmente possíveis em uma epidemia ou não, pouco entendi a respeito dessa personagem; Assim como Constância que não tinha muito senso de responsabilidade em alguns momentos. Mesmo com essa minha impressão das duas personagens eu ainda entendi o papel delas na obra e admirei a força e coragem que levaram as duas para o final escolhido pelos autores.

E por falar em final eu ainda não sei como me sentir em relação ao final desta obra. O livro tem menos de 200 páginas e eu sinto que poderiam ter mais umas 100 para dar outro tipo de final aos personagens, pois eu senti que ficou faltando alguma coisa naquela ideia de segurança que os autores tentaram colocar para nós. Pode ter sido intencional nos deixar na curiosidade, pode ter sido realmente um final em aberto para nos fazer pensar, mas eu me pergunto: pensar em que exatamente? As criticas sociais que o livro nos deu foram rasas, apesar de serem importantes em um contexto social, e ao meu ver não se sustentou ao longo da história e nem ao final.  Apesar de ter gostado da leitura de um modo geral acabei deixando com uma avaliação baixa no Skoob por causa disso. Pode ser que o problema tenha sido o meu entendimento do que estava sendo passado aos leitores, mas aí já não tenho como saber de imediato.

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Título: Corpos Secos (um romance) • Autores(as): Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso, Samir Machado de Machado • Editora: Alfaguara (Companhia das Letras)
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Resenha: Hibisco Roxo

abril 29, 2020

No final de 2019 iniciei a leitura de Hibisco Roxo pois queria ler um romance da Chimamanda, já que amo seus textos de não-ficção; E com minha participação em diversos grupos de leitura coletiva acabei abandonando a leitura pois este seria um dos livros selecionados para 2020, entretanto uma outra LC acabou colocando Hibisco Roxo na lista de Abril e vi a oportunidade de terminar o livro antes do que tinha planejado, até porque eu ainda estava com esse livro em minha mente querendo saber o que ocorreria com Kambili e sua família.

Hibisco Roxo irá nos apresentar a jovem nigeriana Kambili. Sua família é muito rica e seu pai é um homem  de grande influencia em sua comunidade, pois é muito católico e ajuda a todos os necessitados, é dono do principal jornal local e de diversas fábricas alimentícias; Entretanto dentro de casa a imagem que ele faz na sociedade se desfaz. Um homem muito rígido com os filhos e violento com a esposa e já foi, por diversas vezes, o causador dos abordos que ela teve ao longo do casamento; Com os filhos sempre exigiu religiosidade e disciplina com os estudos. E é sobre esse arco que a história irá se desenvolver, principalmente após Jaja (irmão mais velho de Kambili) se negar a tomar a hóstia na Missa de Ramos, o que para seu pai foi o absurdo.
Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com os meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos por acreditarmos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.

Eu acho que, até o momento, não tinha lido nenhum livro sobre intolerância religiosa e hipocrisia religiosa como Hibisco Roxo. Acho que a principal intenção de Chimamanda não foi essa, e sim mostrar a influencia que os brancos teve na Nigéria, principalmente em relação a cultura e religião, mas junto com isso anda esses dois aspectos que citei. O pai de Kambili é um homem tão exemplar e amado na sociedade, principalmente na sociedade católica e pelo próprio clero que seria impossível pensar que ele é tão ruim dentro da própria casa e em relação ao seu pai (que não mora com ele, mas sofre com a indiferença do filho por seguir a religião local). As atitudes desse homem narrada pela sua filha mais jovem não é boa de ler. Sabe quando você lê ou assiste um filme de terror e fica se remexendo com medo do próximo susto? Foi mais ou menos isso que senti ao ler as coisas que esse homem fazia aos filhos, e sempre que eles estavam reunidos, mesmo em um jantar, eu já morria de medo de um ato de violência.

Por odiar o personagem do pai de Kambili eu odiei todos os momentos em que ela demonstrou admiração e amor pelo pai, eu não consigo entender como ela poderia ser assim. É amor ou medo? Talvez um pouco dos dois, apesar de tudo. Mas gostei muito do desenvolvimento da personagem na trama, pois ela passou por um processo longo até entender que aquilo não era certo, que aquilo não acontecia em todas as casas, que seu pai sendo um homem bom fora de casa não anulava ele ser um homem ruim dentro de casa e consegui compreender que apesar de tudo isso ela ainda conseguia ama-lo por ele ser seu pai e mais nada. Kambili é muito expressiva conosco e sua narrativa é emocionante.

Eu amei esse conhecimento da cultura Nigeriana através da família da tia de Kambili, assim como alguns aspectos históricos; Mas é muito triste ver através de uma autora nigeriana (e não haverá ninguém melhor para nos contar isso do que uma autora nigeriana) o quanto nós, brancos, mudamos tanto um país e um continente com nossas imposições, sendo uma delas a religião. O livro debate muito isso e aprendemos junto com Kambili.

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Título: Hibisco Roxo (Purple Hibiscus) • Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Julia Romeu
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Essa leitura faz parte da LC de abril do grupo Abandonados da LC

Resenha: A Cor Púrpura

abril 24, 2020

Mais uma vez me aventurei em uma leitura difícil. Não pela escrita da autora ou algo assim, mas pela história tão triste e pesada que Alice Walker apresenta aos leitores com A Cor Púrpura. Neste livro escrito em formas de cartas ao longo de 40 (ou mais) anos conhecemos Celie, uma jovem negra que vive em uma pequena cidade em Georgia. Ela cresceu em uma casa onde viu por anos e anos sua mãe muito doente e teve que cuidar de seus irmãos mais novos, além de ser constantemente abusada por seu padrasto (psicologicamente, fisicamente e sexualmente). Celie foi obrigada a deixar a escola, quando ficou grávida teve seus filhos tomados de si, e aos 19 anos foi obrigada a se casar com um viúvo que era uma copia de seu padrasto. Além de perder os filhos Celie perdeu também a irmã, por quem sempre manteve a esperança de ver novamente.

Esse é um daqueles livros que nos emociona pela sua história, por todo o sofrimento de Celie, que mesmo vivendo miseravelmente ela ainda tem esperança de que as coisas podem melhorar. Ela não demonstra essa esperança ao leitor de forma clara, pois muitas vezes ela até reproduz coisas que as pessoas dizem sobre ela: feia, pobre, preta. Entretanto, além do livro emocionar pela história de sua protagonista ela mostra as leitoras (neste caso vou falar como uma leitora branca) todas as consequências que a escravidão deixou na vida das pessoas negras e seus descendentes. Na narrativa vemos situações em que uma mulher é negra é presa por ter desrespeitado uma branca rica, assim como a crença de pessoas brancas que acham que os negros devem fazer tudo por eles, ou até mesmo que é inadmissível um homem negro ter um carro e sair passeando com ele pela rua e pior ainda a ideia de que uma mulher negra artista só é entretenimento.

"Você tem que brigar. Você tem que brigar."
Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Algumas cartas foram escritas por uma segunda personagem (que eu não vou citar para não dar spoilers da obra) e ela se torna missionária na África, conhecendo uma parte da cultura africana e vivendo ali por muitos anos. Essa parte do livro nos trás uma boa reflexão sobre as mudanças que os brancos causaram na África desde a época da escravidão até o século XX (e provavelmente ainda hoje). O entendimento que essas pessoas tem de negros que vivem em outros países, o julgamento de sua cultura e preconceito por eles não se identificarem realmente com as crenças religiosas africanas.

Essa foi a primeira vez que li algo da Alice Walker e me surpreendi com a delicadeza da autora em nos mostrar uma história tão forte com uma escrita tão leve. A Cor Púrpura é fácil de ler e mesmo que você se sinta extremamente enojado com algumas situações que Celie sofre ainda assim ela sabe como deixar alguns detalhes nas entrelinhas, pois ela sabe que nós entendemos muito bem o que ela quis dizer.

É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou. 

A leitura de A Cor Púrpura faz parte da leitura coletiva do grupo Lendo Mulheres Negras. A foto é do meu amigo Alisson <3


Título: A Cor Púrpura (The Color Purple) • Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio • Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson

O Homem de Giz

abril 22, 2020


Um corpo. Quatro crianças. Várias pistas desenhadas. Essa é a trama d'O Homem de Giz, um suspense que conseguiu me prender do inicio ao fim. Sim, o livro não é só um fruto de bom marketing, ele é sim tudo isso que promete.

Temos uma história se passa em duas épocas diferentes, 1986 e 2016, e é narrada por Eddie, uma das crianças que encontra o corpo desmembrado de uma garota na floresta (que por sinal está sem cabeça e está nunca é encontrada). Na narrativa de Eddie sabemos como foi que as coisas caminharam até a morte da menina em 1986 e vemos quais foram as consequências posteriores. Após 30 anos o que levou os meninos até a floresta retorna (os homens de giz desenhados) e promessa de um desfecho para o caso.

De inicio Eddie não é um narrador muito confiável e seus problemas pessoas acabam interferindo em seu senso de justiça, entretanto suas lembranças do passado nos dão pistas importantes sobre o que houve no passado e infelizmente eu fui uma leitora que não percebeu essas pistas. C. J Tudor sabe como fazer o leitor de bobo no sentido de "ah, você achou que sabia o final", entende? Eddie está no inicio de Alzheimer então há momentos da narração que conseguimos sentir sua angustia e sua falha de memória e isso nos causa uma certa aflição por depender unica e exclusivamente dele para entender o que esta acontecendo na história, da mesma forma que faz o senso de realidade da história mudar a cada capitulo.

Não sei de verdade quais as influencias da autora para a criação dessa obra, mas para quem leu e sentiu aquela vibe IT (mas sem a parte de monstro) saiba que eu também tive essa sensação. História com crianças tentando desvendar um mistério que se estende anos após me fazem ter uma leitura prazerosa.

Título: O Homem de Giz (The Chalk Man) • Autora: C. J. Tudor
Editora: Intrínseca • Tradução: Alexandre Raposo
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Resenha: Mexa Comigo

abril 15, 2020
Livro no Kindle

Ao fim de 2019 eu me lancei um desafio para 2020: Ler alguns gêneros que não costumo ler/que não gosto. E após quatro meses, finalmente, li um livro do desafio. O escolhido foi Mexa Comigo, da autora brasileira Josy Stoque. O livro estava gratuito na Amazon e eu aproveitei para ler para meu desafio. A ideia era ler um livro hot, pois pelo pouco que conheço da autora sei que ela tem livros nesse gênero, mas ao iniciar a leitura me surpreendi a ver que o livro não é hot (bom, ele tem momentos sensuais e com sexo, mas eu imagino que os hots sejam focados nisso a maior parte da narrativa, né?). Então eu encaixei o livro em romance de época, mesmo não sendo aqueles que se passam no século XVIII e XIV ele  se encaixa no aspecto de época, pois a história se passa nos anos 1940 e conta os costumes da época (e alguns fatos históricos).

Esse livro não teria feito jus a sua participação do "Desafio Saindo da Zona de Conforto" se realmente não tivesse sido um desafio para mim. Livros de romance são fáceis de ler, de modo geral, e dependendo da narrativa algumas leitoras terminam em um dia. Eu li o livro em quatro dias e enrolando muito para isso. Em vários momentos pensei em abandonar e desistir, mas persisti pois acho importante cumprir uma meta quando estabelecemos uma e por isso cheguei ao final da obra. Já é perceptível que eu não me encantei com a leitura, como tantas leitoras que comentaram na Amazon e no Skoob, por exemplo, mas não quero focar meu texto na ideia de que eu li um gênero que eu não gosto.

Vamos ao fato: Josy Stoque é uma autora excepcional. Ela sabe criar uma narrativa que chama a atenção dos leitores e em tantos casos prender ao ponto de ninguém querer largar o livro. A personagem Giulia — uma imigrante italiana que vive na colônia com sua família sonha em ser dançarina famosa, mas o comportamento abusivo de seu pai a torna cada vez mais longe desse sonho até que sua mãe toma as rédeas da situação e a ajuda fugir para São Paulo — é uma moça determinada a conseguir o que deseja e não mede esforços para isso. Personagens assim encantam qualquer leitora e não vai achando que só porque ela é uma "moça da roça" que ela é burra e ingênua, pelo contrário. Giulia foi tantos anos maltratada pelo pai que não irá permitir que esse comportamento se repita por outra pessoa.

Ao chegar em São Paulo Giulia conhece Andrei, um francês que se mostra disposto a ajuda-la na realização de seu sonho, ensinando dança a ela, dando luxo, a tornando uma dama da sociedade. Ele é aquele personagem tipicamente misterioso que solta poucas informações sobre sua vida, de onde ele veio, como conseguiu tanta fortuna e, claro, o personagem que encanta a protagonista com seu jeito carinhoso. O romance que nasce entre eles é bem bonitinho e crível, nada muito sonhador e impossível de acontecer; Assim como todos os dramas que nascem com esse relacionamento. Como eu disse Andrei é misterioso, toda a sua história de vida tem segredos que demoramos a descobrir. A história se desenrola com alguns altos e baixos no relacionamento do casal, mas também temos os momentos de treino de Giulia até chegar ao seu ápice. Assim como todos os romances tem uma questão importante a ser resolvida na trama e nessa história é a família de Giulia, mas essa parte não vou falar nada para não estragar nenhuma surpresa.

Minha experiencia com a leitura pode não ter sido boa, mas este livro com certeza será minha indicação quando alguém procurar algum romance do tipo "água com açúcar" para ler. A história tem uma sequencia que é narrada por uma outra personagem da obra, então se você ler este e gostar ainda vai poder curtir um pouco as personagens.

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Título: Mexa Comigo • Autora: Josy Stoque • Editora: Independente

Resenha: Vox

abril 13, 2020

Quando VOX foi lançado houve um grande murmurio em relação a este livro, divulgação pesada e muitas blogueiras resenhando e falando bem desta obra, que falando a grosso modo pode ser vista como O Conto da Aia desse inicio de século. Sim, pode falar que estou sendo presunçosa, eu até estou um pouco (até porque, vamos combinar, que O Conto da Aia é um clássico muito, mas muito, bom). O negócio é que VOX tem uma premissa muito forte, uma premissa que pode chocar mulheres como eu (feminista, com opiniões sobre o patriarcado, e uma "estudante" do feminismo, por assim dizer), uma premissa que por mais absurda que seja ainda assim pode acontecer em algum momento (ou algo semelhante). Tá, tá, pode me chamar do que quiser, mas é só olhar para o mundo e ver como algumas posições politicas conservadoras estão cada vez mais em ascensão, é só olhar para a maior potencia mundial (que inclusive é onde a história do livro se passa) e você irá entender um pouco. Maaaaas vamos ao que interessa, né?

Em VOX, após uma eleição democrática onde a extrema-direita conservadora (e religiosa, diga-se de passagem) assume o poder um novo decreto é estabelecido, onde as mulheres devem deixar de trabalhar para cuidar da casa e da família e são impedidas de falar através de um contador de palavras que fica no braço como uma pulseira. As mulheres podem falar somente 100 palavras por dia e caso exceda esse número um pequeno choque que aumenta a freqüência a cada conjunto de palavras é ativado. Assim como as mulheres, os homossexuais também tem seus direitos tomados, indo em prisões-colonias sem poder falar uma única palavra. A protagonista era uma Dra em Neurociência e tinha um estudo sobre afasia e após um ano de sua pesquisa interrompida o governo a procura para continuar seus estudos e assim poder curar o irmão do presidente.

Jean sempre foi uma mulher comum. Ela estudou, se esforçou muito para chegar até onde chegou, tem um bom marido e bons filhos, mas Jean nunca foi uma mulher que se preocupou com questões politicas. Ela nunca questionou o governo, nunca exerceu seu direito de votar (lembrando que nos EUA o voto é facultativo) e tudo isso a assombra agora que ela vê todos seus direitos sendo tomados. Sim, ela se sente culpada de uma certa forma pois sabe que se tivesse lutado no passado possivelmente a situação não teria chego ao extremo como chegou. Jean é uma mulher imperfeita, assim como todos nós, e acredito que por isso que a autora colocou um aspecto negativo dela que pode "chocar" as leitoras. Não vou falar o que é, pois seria um spoiler, mas é algo que é ruim para uma pessoa ser, mesmo que a vida seja toda uma merda (e não era para Jean antes do decreto).

Bom, deixando a protagonista de lado, a autora soube elaborar uma boa história, apesar de ter dado a impressão de ter se perdido no meio do caminho por causa dos conflitos pessoais de Jean, e não de tudo o que estava acontecendo do governo/país. Pode ser sido a sua intenção, mas para mim não funcionou muito bem, pois ao abordar mais questões pessoais de Jean e deixar as questões politicas de lado ela esqueceu de que os leitores procuram informações sobre esse sistema, procuram entender de verdade o porque de ele funcionar e como foi que as pessoas passaram a aceitar isso (no caso do livro a autora já pressupôs que todos os homens héteros vão simplesmente aceitar que calem as mulheres, o que não é bem assim, já que mesmo que a maioria seja macho escroto, como gostamos de chamar, muitos ainda seriam contra). À partir desse meu ponto de vista eu senti que a obra estava lenta no inicio e corrida no final, o que foi péssima escolha, pois o final em que precisávamos de mais informações e detalhes sobre os acontecimentos e ela cortou esses detalhes na mudança de capítulo. Então veja bem, ao final de um capítulo o personagem X estava vivo e no inicio do próximo já estava sendo enterrado, entende? Acredito que nenhum leitor gosta de ler algo assim.

Concluindo, com uma premissa incrível VOX é um livro que deve sim ser lido, principalmente por pessoas céticas em relação a politica e governo conservador,  mas que em contrapartida tem algumas falhas em sua execução e pode desagradar aos leitores mais exigentes. De qualquer forma é um livro necessário pela sua abordagem principal e nos mostrar uma realidade que poderá nos tomar aos poucos.

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Título: Vox (Vox) • Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro • Tradução: Alves Calado

Resenha: A Hora do Pesadelo (Never Sleep Again)

abril 10, 2020

Quando eu era criança adorava assistir a filmes de terror na sala de casa, geralmente a noite, com minha avó dormindo no colchão e uma coberta até metade dos olhos; Um desses filmes me causou um pesadelo que até hoje não esqueço: O jardim da casa da minha avó repleto de flores coloridas, borboletas e um clima de alegria em contraste com um homem macabro, todo queimado, e com longas garras acenando para mim com um sorriso diabólico. Acho que não preciso falar o nome dele.
One, two, Freddy's coming for you...

Desde então Freddy, por algum motivo, se tornou um dos meus personagens favoritos dos filmes de terror dos anos 80 e 90. Mesmo que nos dias atuais, ao assistir aos filmes, eu dê boas risadas, quando era mais nova sentia muito medo do que aquelas garras poderiam fazer enquanto eu estivesse dormindo. Freddy se tornou muito mais do que um personagem de terror amado, mas um símbolo de toda uma geração, seja de jovens sedentos por ver sangue nas telas ou de novos cineastas empolgados por fazer isso acontecer.

Neste livro temos toda a trajetória que levou a produção deste filme tão icônico. De inicio eu imaginei que seria mais um livro com curiosidades e alguns fatos que aconteceram durante as gravações e com os atores, mas ele foi muito mais do que isso. Thommy Hutson foi atrás de detalhes impensáveis para mostrar aos fãs a criação de Freddy e seu legado e isso inicio tem o nome de uma pessoa: Wes Craven. Muito mais que roteirista e diretor do filme ele foi um visionário do entretenimento de terror, e se não fosse por toda sua determinação e insistência A Hora do Pesadelo nunca teria existido.


Neste livro foram usadas diversas entrevistas com o elenco do filme, assim como câmeras, produtores, maquiadora, cabeleireira e diversas outras pessoas que tiveram uma participação minima nesse projeto. Todos muito orgulhosos e felizes de trabalhar em algo que até os dias atuais é reconhecido e amado, todos contando suas experiencias de forma descontraída e que, eu como fã, senti inveja de não ter feito parte.

Uma das cenas que mais sentia medo era logo na primeira aparição de Freddy que seus braços estão estranhamente longos correndo atrás de Tina, assim como a cena fatal onde ela sucumbi aos ataques da criatura e morre. Em um filme rodado nos anos 80, com um orçamento baixíssimo, não se pode esperar os melhores efeitos especiais, entretanto o que me surpreendeu foi saber que nessas cenas não foram usadas efeitos especiais e sim os práticos com um auxilio de vários profissionais e o projeto de um quarto giratório manual que causou muito desconforto na atriz.

Tudo no projeto foi feito a base da criatividade e disposição dos profissionais envolvidos naquilo, justamente por não ter muito dinheiro envolvido no projeto eles precisam pensar nas coisas nos mínimos detalhes para fazer dar certo na frente das câmeras e algumas delas só poderiam ser usadas uma única vez, como a cena da morte de Glenn (interpretado por Johnny Depp), como litros e mais litros e mais litros de sangue. A preocupação da equipe era onde conseguir mais, caso não desse certo na primeira tomada? E com qual dinheiro? Com uns errinhos perceptíveis somente aos olhos mais treinados a cena foi muito bem executada e até hoje surpreende quem assiste pela primeira vez.
Uma analise cuidadosa revela que, no estado do sonho, manipulando objetos ou em qualquer forma corpórea, Freddy Krueger está presente na tela por cerca de escassos oito minutos, dos noventa e um minutos de duração do filme, algo particularmente curioso. Esta constatação confirma a avaliação de Englund (ator que interpreta Freddy) de que talvez devessem ter mostrado mais Freddy, embora a história tenha comprovado que o seu diminuto tempo de tela não impactou na colossal capacidade do personagem se conectar com o público.
O livro conta com 520 páginas de informações sobre o filme clássico da franquia e fotos dos bastidores, com o personagem principal sendo, claro, Freddy e toda a sua produção; Mas também conta com pessoas que nem se quer sabemos o nome fazendo acontecer uma ideia de um não tão jovem diretor que tinha o sonho de mostrar as pessoas esse personagem, mal sabendo que Freddy se tornaria muito mais do que um personagem e sim um dos símbolos da cultura pop mundial, sendo até hoje querido e imitado em eventos de cosplayers, geek, terror/horror.

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Título: A Hora do Pesadelo (Never Sleep Again) • Autor: Thomas Hutson
Editora: Darkside Books • Tradução: Carlos Pimati

Resenha: O Lugar

abril 01, 2020

Todos devem se lembrar que há alguns anos atrás houve um surto de livros distópicos sendo lançados e adaptados; Alguns muito bons e outros nem tanto. Aqui no Brasil não foi diferente, vários autores também embarcaram nessa literatura politica e, com exceção das fantasias, qualquer semelhança com o cenário atual não é mera coincidência. Silvio Gomes é uns autores que embarcou nessa onda, mas não seguindo a moda e muito menos sem embasamento, pelo contrário. O autor é teólogo e especialista em ciências politicas, duas áreas que parecem tão diferentes mas andam juntas em vários cenários.

Em O Lugar o autor nos apresenta Lázaro, um jovem de 20 e poucos anos, que vive em um país (sem nome mencionado) onde há a politica da desconfiança. Essa politica consiste em todos desconfiar de todos, seja amigos, colegas de trabalho, e até mesmo familiares próximos. A ideia é totalmente absurda e claro que isso não funciona na prática, pois assim como nas distopias que estamos acostumadas o único beneficiado pela politica implantada é o próprio governo que fica acima de tudo. Lázaro é professor de literatura e por ter uma bagagem tão grande pelos livros que leu ele questiona a politica de seu país, principalmente pela existência das Rodas Sociais, um espaço onde as pessoas poderiam se expressar sem medo de represálias mas acabam se tornando locais de violência gratuita (para exemplificar: uma pessoa é agredida até a morte, e outras coisas podem acontecer ali também) e que falando assim parece até que poucas pessoas aguentariam ver — e Silvio prova que ao contrário do que parece as pessoas vêem sim o que acontecem ali sem reagir e muitas vezes elas agem ali naquele espaço com a mesma violência que os outros.
Nenhum governo cria uma ditadura sem a cumplicidade de uma parte do povo. O que vivi em meu país foi o que o meu povo quis viver. Povo e governo são cúmplices e suas ações, inevitavelmente.
Lázaro é um personagem que eu definiria como sonhador dentro do ambiente em que ele foi criado. Ele quer o melhor para as pessoas ao seu redor, quer o direito de ser livre, quer o direito de confiar em quem ama. Para nós não parece muito, inclusive até temos a ideia de que temos tudo isso (mas será que temos mesmo?); Mas o principal que ele quer é chegar no lugar que imagina que a sociedade viva em paz, onde todos confiem em quem ama, onde as escolhas são livres, e esse lugar ele não sabe onde fica, mas acredita e desejar conhecer assim como supõe que vários de seus autores favoritos conheceram. O livro conta então a busca de Lázaro por este lugar misterioso e tudo que essa crença afeta em sua vida, todas as mudanças que ele precisa fazer, todas as coisas que precisa acreditar e desacreditar para chegar até na realização de seu sonho. A jornada não é fácil mas eu garanto que o final vale a pena, principalmente por todos os elementos que Silvio usou para construir essa história e com base na formação do autor é fácil entender suas escolhas para o final de Lázaro.

Eu demorei um pouco mais do que o costume para ler este livro. Os capítulos são longos e não há "respiros" para que possamos digerir tudo que nos foi passado. Há muitos diálogos bem filosóficos que eu gosto bastante, mas senti falta de algumas descrições de ambientes e gestos das personagens durante os diálogos para dar o equilíbrio entre o peso de tudo o que esta sendo falado e do tempo que eu levo para compreender. Apesar do autor usar pontos, virgulas e travessão ainda assim eu tive a sensação de que estava lendo Saramago pela densidade de tudo. É claro que nada disso tira a grandiosidade deste livro, pois poucos autores abordam esse assunto (que eu ainda gosto muito) de uma forma séria e sem personagens heróicos e revolucionários.

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Título: O Lugar • Autor: Silvio Gomes • Editora: Jaguatirica
Livro recebido pela Oasys Cultural para resenha


 
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