Mostrando postagens com marcador Literatura Internacional. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Internacional. Mostrar todas as postagens

"Verity" e a manipulação da verdade

agosto 05, 2020

Colleen Hoover é uma autora amada por muitos e odiada por alguns. Seus livros sempre tratam de temas polêmicos e incômodos, isso em livros de romance. Como uma grande fã da autora eu nunca imaginaria que poderia ler um thriller psicológico de sua autoria e quando soube sobre Verity fiquei com receio de acabar me decepcionando com a autora e torcendo para ela nunca mais se arriscar fora dos romances, entretanto minhas expectativas foram superadas e eu afirmo desde já que Verity é um ótimo suspense e que tem todas as caracteristicas da CoHo que seus leitores já conhecem.

Lowen é uma escritora de suspenses que não faz muito sucesso e foi convidada a ser co-autora dos dois últimos livros da série de sucesso escrita por Verity, uma renomada autora que está em estado vegetativo após um acidente de carro. Para poder fazer esse trabalho ela passa alguns dias na casa de Verity, onde estão o marido e filho além das lembranças doloridas do falecimento das duas filhas (gêmeas). Entre um desejo de terminar tudo logo, somente para pegar a grana que ela tanto precisa, e atração que sente por Jeremy (marido de Verity), Lowen acaba encontrando um manuscrito de uma autobiografia de Verity que irá revelar alguns segredos da autora e de seu casamento que ninguém esperaria encontrar.

O livro é narrado entre o presente, pelo ponto de vista de Lowen, e pela autobiografia de Verity. De certo modo em alguns momentos durante a leitura eu senti uma certa semelhança com Garota Exemplar, com a ideia de manipulação e nos guiar para um caminho que pode ou não ser o correto. Verity é uma personagem muito assustadora, seja em seu texto ou em suas raras aparições pela casa quando a enfermeira a leva para dar uma volta. Sua presença, por si só, pode assustar pelo modo como ela está doente, causando uma sensação de empatia e ao mesmo repulsa dependendo de qual nível de leitura você esteja. Eu amei esse elemento neste livro, pois tudo que eu desejo quando leio um suspense é justamente a apreensão dos próximos acontecimentos, a antecipação de qual momento será até mesmo assustador. Acho que CoHo deveria escrever mais suspenses daqui em diante.


Como eu disse no início CoHo sempre escreve sobre temas polêmicos e incômodos e aqui não foi diferente, principalmente na parte que nos incomoda. A leitura dos textos de Verity causam enjoo e ódio, cheios de passagens de sexo (não do jeito que as leitoras gostam) e principalmente sobre seu ressentimento em relação as filhas por terem "roubado" Jeremy e seu amor. Verity é extremamente obcecada pelo seu marido e até certo ponto odeia suas filhas. Quando passa a gostar de uma acaba menosprezando a outra até chegar a um ápice trágico.

É claro que minhas partes favoritas foram do manuscrito de Verity, mas é justamente o presente que da todo o tom do livro. Lowen tem problemas com sonambulismo, toma xanax, e sua falta de sono acaba prejudicando seu raciocínio lógico para algumas coisas. Sua atração por Jeremy também não é nada bacana e é muito estranho mesmo o que acontece entre eles enquanto a esposa dele está praticamente a beira da morte no andar de cima. Contudo isso nos obriga a ver a história de um modo diferente, pois como sabemos tudo é sempre culpa do marido, certo? Aqui Lowen nos faz ver Jeremy como um homem perfeito e devoto a sua família, que ainda sofre pela perda das gêmeas e lida com a esposa como se ainda a amasse apesar de sua condição. Honestamente eu adoraria ver a história nos guiando para odiar Jeremy, mas seria tão previsível que amei o modo como CoHo conduziu esse aspecto da história.

Acredito que o livro teria sido muito melhor se um certo suspense da trama não tivesse sido descartado tão cedo, (apesar de a autora não ter descartado de cara, ainda era óbvio que acabaria acontecendo isso). Um bom livro de suspense não é nada sem um final surpreendente e por eu não ter gostado de uma coisinha no final eu acabei não dando 5 estrelas no Skoob, mas é todas as minhas teorias estavam erradas e fico feliz por isso.

📚
Título: Verity (Verity) • Autora: Colleen Hoover
Editora: Galera Record • Tradução: Thais Britto

"Misto Quente" e problematização dos clássicos

agosto 04, 2020

Eu nunca imaginei que um dia em minha vida leria Bukowski, isso porque sempre achei as capas de seus livros nada interessantes e os títulos também. Eu comprei Misto Quente para meu namorado há uns dois anos e ele nunca finalizou a leitura por ser mais fã de jogos do que de livros, e ai então eu acabei lendo ele por uma mini dele. De início achei a leitura bastante tranquila, apesar de uma problemática familiar absurda na história. Ao ler algumas coisas sobre o autor vi que esse livro tem uma pincelada autobiográfica, então o livro teve seus pontos interessantes. Infelizmente Misto Quente não é livro que eu indicaria aos meus amigos, mas eu indico para quem precisa sair um pouco da zona de conforto. Até mesmo por que foi justamente o que aconteceu comigo, mesmo sem eu saber até uns 30% do livro.

O livro irá contar a infância e adolescência de Henry Chinaski, um jovem alemão que vive nos Estados Unidos no período da depressão e pré Segunda Guerra. Sua família é rude em todos os aspectos que se possa imaginar. Com um pai extremamente abusivo Henry acaba passando grande parte de sua infância sendo açoitado por motivos mais absurdos, como não cortar a grama na milimetrarem que seu pai exige. Sua mãe é uma mulher submissa ao marido e por esse motivo nunca se impôs a respeito do que ele fazia com seu filho e tantas vezes o apoiava (não soube identificar se era por medo ou por concordância). Então não é nenhuma novidade falar que Henry não cresceu em um ambiente acolhedor e amoroso, um ambiente em que os pais prezam pelos filhos e sua felicidade. Esse comportamento de seus pais acabou se refletindo então na pessoa que Henry foi se tornando conforme seu desenvolvimento, na infância e pré-adolescência principalmente. Ele era um jovem que não sentia afeto por ninguém e por isso nunca teve um amigo de verdade; Todos os garotos que tentavam se aproximar dele de alguma forma em algum momento eram afastados pelo jeito brigão do garoto.

Particularmente gosto de histórias assim, pois vejo como uma critica e um reflexo de uma sociedade em que eu não conhecia, ainda mais em um período tão difícil quanto as consequências da crise de 29. Por um lado é curioso colocar em comparação a infância de Henry (que por acaso é a infância de Bukowski) e a infância de Maya Angelou (que foi mais ou menos na mesma época, e eu estou usando a Maya como referencia pois eu li a autobiografia dela então é o que eu posso comparar no momento). Os dois tiveram uma infância extremamente complicada. Ele por ter uma família abusiva e Maya por ter sofrido abuso, além de ser negra e não ter sua família respeitada por isso. E para mim é até bizarro pensar que pessoas como Henry e sua família eram justamente o tipo de pessoas que oprimiam pessoas como Maya Angelou. E eu falo isso já afirmando que o livro irá ter muitos diálogos racistas, passagens em que um detalhe pode passar despercebido mas que podemos ver o racismo ali. Tem também homofobia e muito, mas muito, muito machismo. 

Eu não sei dizer até que ponto a problematização de um livro com teor autobiográfico pode ser feita e vou dizer que entendo que naquela época era muito comum esse tipo de atitude das pessoas em geral, não somente desse autor mas também de muitos outros. Só que não muda o fato de que é incomodo. Principalmente falando como mulher e lendo todas as vezes que Henry afirma que uma mulher (adulta ou não) quer ele, que ela tem intenções com ele, ou que ela é uma puta só por que está usando saia ou algo assim. Para mim foi horrível ler uma passagem onde um amigo de Henry irá transar com uma garota e bate nela, do nada, provavelmente por achar que é assim que os homens fazem sexo (nessa época eles tinham mais ou menos uns 12 anos). 

Me sinto culpada pelos momentos em que o livro me fez rir com as situações absurdas. Vi algumas criticas e em uma delas a booktuber dizia que morria de rir, que o livro é hilário e eu fiquei muito chocada com isso. Pois por mais que tenha sim alguns momentos engraçados, e esses momentos geralmente são quando Henry faz alguma merda no trabalho, ou bebe além da conta e arruma briga por motivos idiotas, ele não é um livro "hilário". Misto Quente não é um livro com intenção de ser engraçado, pelo menos ao meu ver, mas um livro que deseja tirar todas as máscaras de uma sociedade doente, uma família que sendo parte dessa sociedade ela é tão doente quanto e o circulo vicioso poderá se repetir eternamente e no meio de tudo isso há um jovem que (sendo ele o autor) irá se salvar com alguma forma de arte (Henry acaba escrevendo poemas, contos e tenta escrever romances).

– Você vai comer sua comida! – disse meu pai – Sua mãe preparou essa comida! Você vai comer cada cenoura e cada ervilha em seu prato!
(…)
Comecei a comer. Era terrível. Sentia como se os estivesse comendo, comendo as coisas em que acreditavam, aquilo que eles eram.”

Misto Quente é um bom livro? Bom, não sou uma critica profissional, mas como opinião pessoal eu honestamente não me senti realmente apaixonada pelo livro. Mas talvez seja isso mesmo, um livro em que você não goste, você não se apaixone, mas que você leia e sinta raiva das pessoas e da sociedade que há corrompe, um livro em que todos os confortos serão deixados de lado.

📚

Título: Misto Quente (Ham on Rye) • Autor: Charles Bukowski
Editora: L&PM Pocket • Tradução: Pedro Gonzaga

Resenha: O Dia em que Selma Sonhou com um Ocapi

julho 27, 2020

Ano passado recebi um presentinho de aniversário: Uma caixa da TAG inéditos. Como boa leitora que sou procrastinei por quase um ano até ler o livro da minha caixinha, mas agora que o fiz eu só posso dizer que deveria ter lido antes, pois assim estaria amando essa história há mais tempo.


Quando Selma disse que tinha sonhado com um ocapi durante a noite, estávamos certos de que um de nós haveria de morrer, provavelmente nas vinte e quatro horas seguintes.

O Dia em que Selma Sonhou com um Ocapi é um livro sobre relações e em como essa rede de pessoas que vivem ao nosso redor nos fazem ser quem somos, nos fazem ser pessoas melhores ou simplesmente não nos mudam. Este é um livro emocionante como nenhum outro que eu tenha lido, pois ele não precisa de uma carga dramática para mexer com o leitor (apesar de ter essa carga dramática, afinal alguém morre), ele simplesmente mexe com o leitor pois podemos perceber ali naquelas histórias um pouco de nós mesmos.

O livro é narrado por Luise, neta de Selma, desde a infância até a vida adulta. Ela é uma pessoa que foi moldada após ter perdido alguém ainda na infância,logo depois da terceira vez que Selma sonha com um ocapi. Então vemos uma moça tímida, travada como ela mesma diz, que sente um certo abandono por parte dos pais, mas muito amada por Selma e o oculista, um senhor que é secretamente apaixonado por Selma e pode-se dizer que ele representa a figura de um avô para Luise.

Quanto mais velho fico, mais acredito que fomos inventado apenas para você.

A cidade ficticia onde Luise vive é no interior da Alemanha, então todos ali se conhecem. Quando Selma sonha com um Ocapi a fofoca corre pela cidade e todos se preparam para o pior. Segredos são revelados, os apaixonados se declaram, e quem tem medo de morrer tenta nem sair do lugar no dia, mas quem quer morrer fica esperando a morte entrar pela porta e deixa uma janelinha aberta para a alma conseguir ir para o céu de forma tranquila. Quando o pior acontece todos ficam devastados, principalmente Luise, pois era alguém tão próximo a ela que essa morte sempre será carregada em sua vida, essa pessoa sempre será lembrada em seus melhores e piores momentos. É muito triste pensar que tão jovem ela tenha passado por algo tão terrível e por mais que o livro já avise na primeira frase de que alguém irá morrer ainda assim não tem como se preparar para algo tão terrível.

Apesar de Luise ser a narradora da história e a personagem principal o que eu senti que é que toda a cidade é protagonista desse livro, pois eles são muito descritos quando se trata de suas histórias pessoas, sentimentos e até algumas atividades do dia a dia. É como se Luise fosse uma narradora onipresente e onisciente da vida e dos sentimentos das pessoas ali. Pode parecer estranho um pouco, mas gosto da forma como ela nos dava as informações, pois não dava a impressão de que ela só sabia do fato mas sim que quem viveu aquilo contou a ela em algum momento. Então não foi estranho, por assim dizer.

Outra coisa que eu amei muito na história foram os diálogos. Acho lindo diálogos entre jovens e adultos, adultos e idosos, e jovens e idosos. Todos ali conversam de igual para igual e eu sei que isso foge da realidade, mas gosto muito da forma como o oculista fala com Luise sobre coisas da vida como se ele também estivesse aprendendo com ela enquanto ela aprende com ele, sabe? Pois eu acredito que a vida é assim: um constante aprendizado. Sem falar que os diálogos tem um jeito filosófico que eu adoro.

Okapi: O ocapi, é um mamífero artriodáctilo nativo do nordeste da República Democrática do Congo na África Central. Embora o ocapi tenha marcas listradas reminiscentes de zebras, é mais estreitamente relacionado com a girafa. O ocapi e a girafa são os únicos membros vivos da família Giraffidae.

O Dia em que Selma Sonhou com um Ocapi já se tornou um dos meus favoritos do ano e espero que em breve esteja disponível para compra para quem outras pessoas conheçam essa história.

Título: O Dia em que Selma Sonhou com um Ocapi (Was Man Von Hier Aus Sehen Kann)
Autora: Mariana Leky • Editora: TAG Livros / Planeta • Tradução: Claudia Abeling

Resenha: Daqui a Cinco Anos

julho 22, 2020

Há alguns anos tive a oportunidade de ler um livro da Rebecca Serle do qual gostei muito e então quando vi esse anuncio da editora sobre Daqui a Cinco Anos fiquei curiosa com esse novo livro. Vou dizer que Daqui a Cinco Anos tem seu mérito, já que é um livro fácil e rápido de ler, mas no quesito história para mim deixou a desejar. Cheguei a bater um papo sobre ele com meu amigo Alisson do Eita, Já Li e ele me fez até ter um novo ponto de vista sobre o livro que mesmo sendo muito bom ainda não me fez gostar dele tanto quanto eu gostaria.

Dannie é uma mulher bastanta organizada, pragmática até. Tudo na sua vida precisa ser planejado nos mínimos detalhes e nada de surpresas, ela odeia esse tipo de coisa. Há cerca de 3 anos ela namora com David e ele irá pedi-la em casamento em um dia especial, pois Dannie sabe que irá conseguir o emprego de seus sonhos em uma grande firma jurídica. Estava tudo indo muito bem, obrigada, até que ela tem um sonho completamente estranho onde está em um apartamento com um homem estranho e ele é seu namorado. As coisas ali para Dannie parecem totalmente fora dos eixos e ela não consegue viver com essa ideia, acaba procurando até uma terapia para conversar a respeito disso. Os anos se passam e ela nunca planejou seu casamento, mesmo que a vida esteja indo bem no meio profissional em seu relacionamento Dannie ainda está estagnada.Um belo dia sua melhor amiga, Bella, diz que está apaixonada e ao conhecer o rapaz Dannie se depara com o homem de seus sonhos.

Eu não sou de fazer resumos dos livros nas minhas resenhas, mas eu sinto que precisei nesse para tentar expôr de verdade o que senti ao ler esse livro. Dannie é uma boa protagonista, apesar de ser o tipo de protagonista que me irrita pelo seu jeito todo metódico, mas até tudo bem pois ela tem a qualidade de ser uma mulher que corre atrás do que quer, que planeja e faz, sabe? Mas só no trabalho... Em seu relacionamento as coisas estão tão frias que é até triste ver ela e David juntos durante essa história e sinceramente eu não sei se fiquei mais triste por ela ou por ele, pois David é o tipo de namorado/noivo que está ali para tudo sem reclamar, ele apoia, ele torce por ela, ele a ajuda em tudo que ela precisa sem nem ao menos pensar em si mesmo e talvez esse tenha sido o erro do rapaz: deixar de pensar em si em um noivado infinito. O negócio é que Dannie se prendeu nesse sonho por anos, de alguma forma aquilo a afetou que estagnou seu relacionamento com David, o que é uma pena, pois quando ela conhece Aaron (o homem do sonho) ele é o namorado de sua melhor amiga. Mais do que isso, já que ela e Bella se conhecem desde a infância e são praticamente irmãs.

Tudo seria muito mais fácil para os leitores se Bella fosse aquele tipo de amiga manipuladora e/ou abusiva, mas ao contrário, ela é uma personagem espontânea, engraçada, que ama e se preocupa com Dannie. Quando ela apresenta esse novo namorado a Dannie torcemos muito por ela, pois houve um histórico de boy lixo na vida dessa moça então acho que está mais do que na hora de tudo dar certo, e a história passou a desandar a partir desse ponto. Claro que esse não seria um livro de drama e romance se não acontecessem coisas dramáticas, né? Só faltou mesmo o romance, mas nesse ponto vou considerar que a autora quis passar alguma lição aos leitores que eu, aparentemente, não entendi.

Como eu disse anteriormente o livro é bem fácil de ler e por isso eu estava levando a leitura numa boa até cerca de 70% da história, só que a partir dai para mim foi ladeira abaixou por conta de umas decisões que a autora tomou para finalizar a história. Eu, Silviane, fiquei com raiva. Juro. Não tô feliz de admitir isso depois de tantas pessoas elogiando livro então eu sei que o problema é comigo e não com o livro. Vou deixar uma coisa clicável para quem quiser saber o que eu odiei tanto e que me fez odiar o livro.



Enfim, é isso... a resenha não é da melhor e da mais positiva, mas eu não poderia me expressar de forma diferente após o livro não ter mesmo funcionado para mim. Conversei com outras meninas que leram e algumas coisas pensamos semelhantes, mas no geral todas gostaram da história; Então isso só concluo que o problema foi mais comigo e com minha forma de pensar do que com o livro em si. De qualquer maneira é uma leitura a ser feita em um dia.

Título: Daqui a Cinco Anos (In Five Years) • Autora: Rebecca Serle
Editora: Paralela • Tradução: Alexandre Boide

Resenha: Um Mar de Segredos

julho 13, 2020


Ao contrário de 2019, meu ano de 2020 não foi cheio de livros de suspense, então quando acabei vendo esse livro me interessei pelo que ele poderia me proporcionar de acordo com esse tema que eu estava com tanta saudade de ler. Infelizmente a leitura não funcionou para mim como deveria, já que ao meu ver a trama não conseguiu se sustentar o teve um final previsível.

Erin é uma documentarista que esta trabalhando em seu primeiro projeto grande, sua carreira está ótima e seu relacionamento amoroso melhor ainda. Ela está prestes a se casar com Mark e terá a lua de mel dos sonhos, entretanto alguns problemas financeiros começou a prejudicar um pouco do relacionamento deles. Tudo parece que poderia melhorar quando eles encontram uma mala no meio do oceano durante a viagem dos sonhos. Nessa mala encontraram cerca de um milhão de dólares em dinheiro e em diamantes, além de um pendrive suspeito, um iPhone e uma arma. A viagem dos sonhos acabou naquele momento, pois a partir dai o casal apaixonado só pensava no que fazer em relação a isso.

Pessoalmente acho que a trama tinha tudo para dar certo a partir desse ponto, pois a autora soube criar uma história sobre como a mala foi parar no meio do oceano e como os donos desse conteúdo foram atrás do que tinha ali, mas ela se perdeu ao criar a trama de Erin com seu marido e com seu trabalho. Por algum motivo o trabalho dela era importante para o desenvolvimento da história, mas no final não nos levou a lugar nenhum com exceção de um personagem que ali foi inserido. Como leitora lendo isso me senti enganada, mas não do jeito certo que os livros de suspense devem nos enganar.

O pior de tudo foi o relacionamento do casal, que entraram nisso juntos mas ao vê-los intimamente percebemos que a perfeição era somente uma fachada. Mark era abusivo, mas não daquele tipo descarado, sabe? Ele sabia usar as palavras certas, ele sabia como manipular Erin de um jeito que ela ficasse inteira nas mãos dele, da mesma forma que fazia ela se desculpar por coisas que ela não tinha culpa. Foram coisas que nem todo mundo pode acabar percebendo, ainda mais por ser um livro narrado em primeira pessoa e Erin idolatrar esse homem, mas ele é de fato um péssimo companheiro. Começando por destruir seu sonho do casamento perfeito, depois por questionar suas decisões, questionar seu trabalho, manipula-la para que ela acabasse sentindo que estava fazendo as coisas erradas, que estava levando eles diretamente para as mãos da policia e coisas desse tipo. Nesse aspecto a autora não pecou se queria realmente mostrar esse tipo de relacionamento de uma forma diferente.

É uma pena que no meio de uma premissa tão promissora ela não tenha aproveitado melhor as oportunidades de fazer com que fiquemos realmente focados na história. Como eu disse o livro tem um final previsível e os próprios pensamentos de Erin nos entregaram isso durante toda a narrativa enquanto ela se questiona sobre o que esta acontecendo, as pessoas ao seu redor, e suas possíveis paranoias. Talvez o livro funcione melhor para outras pessoas, mas no meu caso infelizmente não deu muito certo.

📚

Título: Um Mar de Segredos (Something in the Water) • Autora: Catherine Steadman
Editora: Record • Tradução: Clóvis Marques

Um papo sincero sobre "A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes"

julho 06, 2020
A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes

É claro que o anuncio de um novo livro da saga Jogos Vorazes não iria passar batido pelos fãs... exceto que passou. Não como se os fãs da saga não estivessem ansiosos por essa nova experiencia de uma distopia juvenil que fez tanto sucesso, mas convenhamos que ninguém está vendo por ai um "boom" de gente comentando sobre esse livro (provavelmente não tanto quanto a editora gostaria, né?). E o motivo para mim ficou até meio óbvio após minha leitura do livro que se mostrou fraco e desnecessário, mesmo com novas informações.

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes se passa 10 anos após a primeira edição dos Jogos Vorazes, onde um jovem Snow (aquele que conhecemos como Presidente Snow) está ainda na escola e acabará fazendo parte dos jogos como mentor de uma tributo do Distrito 12, Lucy Gray. No meio de tudo isso Snow acaba se apaixonado por Lucy Gray, que faz parte de um grupo chamado "Bando" que em um comparativo com o que nós conhecemos é quase uma companhia de teatro. A história poderia ser maravilhosa caso não soubéssemos quem Snow irá se tornar, mas é interessante pensar nesse personagem com uma nova perspectiva, principalmente após vê-lo vulnerável, faminto, apaixonado, e na beira da ruína com a pobreza de sua família que ainda tenta manter algum status.

O livro não me deixou feliz e nem surpresa como a trilogia original me deixou há alguns anos quando meu primo falou tanto, tanto, tanto sobre ele que eu acabei cedendo para ler; muito pelo contrário: eu me senti muito decepcionada. É um livro longo que poderia facilmente ser bem mais curto, pois existem tantos momentos que eu senti que houve aquela enrolação que eu sentia sono em vários momentos de leitura. Talvez os capítulos longos tenham influenciado um pouco, mas a forma como a história nos foi apresentada realmente não me satisfez como leitora, sabe? E eu nem vou falar que estava com expectativa altas para a leitura porque seria uma mentira. Eu evitei ler resenhas, assistir a vídeos e comentários sobre a obra para começar a ler isenta de opinião de terceiros e no fim acabei sentido o que algumas pessoas também sentiram: O livro não é necessário para os fãs. Ele tem algumas informações interessantes como a ideia dos mentores nos jogos e da fascinação de Snow por rosas, e até mesmo pode explicar o motivo de ele ter tanto ódio do Distrito 12 e a proibição da música The Hanging Tree, mas essas são informações não necessárias, né? A trilogia estava perfeita sem essas informações.

Infelizmente o novo livro não agrada tanto quanto deveria e, para mim, é mais como um livro para fazer dinheiro encima de algo que já foi muito lucrativo. A fonte não é eterna, então...

📚
Título: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (The Ballad Of Songbirds And Snakes)
Autora: Suzanne Collins • Editora: Rocco • Tradução: Regiane Winarski

Resenha: Teto para Dois

junho 29, 2020

Imagem de um livro

Eu morro de medo de um livro ser muito hypado pois, as vezes, ele entra para a minha lista de odiados. Então quando vi a respeito de Teto Para Dois quando ele foi lançado no final de 2019 por mais que estivesse curiosa com a leitura eu evitei ler por mais de 7 meses. Este mês ele entrou para a leitura do Abandonados da LC e então usei essa desculpa para finalmente ler e acho que tenho uma opinião razoável.

Acredito que não vi ninguém criticando o livro de uma forma negativa, o que já é algo para me deixar com pé atrás, mas mesmo assim eu queria fazer essa leitura pois a premissa do livro é muito boa. O que eu não esperava eram elementos na obra que a fizessem ser importante, como o relacionamento abusivo da Tiffy. Eu sempre me lamento por alguns livros não abordarem esse tema quando tem oportunidade ou até mesmo por abordar de uma forma ruim e o que acontece nesse romance é que o relacionamento de Tiffy foi bem abordado para que as leitoras pudessem até mesmo se identificar, caso tenham algum namorado abusivo. Primeiro Tiffy não sabia o que era isso, não entendia o poder que seu ex tinha sobre si e muito menos percebia os pequenos sinais de que o cara é problemático, mas aos poucos e, principalmente, após algumas sessões de terapia ela pôde cair na real sobre o que ela viveu por alguns anos com um boy lixo. Sério, isso no livro me agradou muito mesmo pois, como já disse, pode servir de alerta para algumas leitoras.

Agora sobre a história em um geral: Sim, o romance é super fofo e natural. Acho até estranho usar a palavra natural para descrever um romance, mas às vezes sinto que o casal meio que se força a estar juntos, sabe? E aqui não aconteceu isso. Não sei se foram as trocas de bilhetes ou a reação que ambos tinham a esses bilhetes, porém quando eu percebi eles já estavam juntos e eu achando aquilo tudo muito lindo. Leon é um personagem bastante resguardado, até mesmo extrovertido, e é claro sentir isso com a seus capítulos, mas acima de tudo ele é divertido de ser ler. Tiffy já é bem louquinha, tem um estilo diferentão e assim como eu ela ama DIY (mas ao contrário de mim ela, de fato, faz esses DIY). Os dois são o casal mais improvável e que ficam lindos juntos.

Ao contrário do que parece eu não amei o livro. Amei sim alguns pontos dele, mas no geral não foi um livro que eu acabei favoritando, pois acho que para mim não bastava só ter um elemento de relação abusiva, mas talvez explorar mais isso... Claro que a intenção não era essa, então eu não deveria exigir isso, mas quando a autora decide colocar algumas situações com o ex-namorado louco fazendo umas coisas até criminosas eu achei que a atitude dos personagens foram totalmente superficiais e os diálogos bem teen, sabe?  Além disso tem uma outra situação envolvendo o irmão de Leon que me incomodou bastante. O personagem foi inserido para dar um plot maior ao Leon, mas achei um pouco perdido na história de um modo geral. Houve sim uma tentativa de nos fazer ter empatia por Richie mas para mim não funcionou por mais que ele seja um personagem divertido.

Teto para Dois é um livro divertido de ler sim, mas algumas coisas deixaram a desejar em um contexto geral da história. Se você procura só um casal super fofo então esse livro é 100% para você.

📚
Título: Teto Para Dois (The Flatshare) • Autora: Beth O'leary
Editora: Intrínseca • Tradução: Carolina Selvatici

Resenha: (Des)conectados

junho 12, 2020

Quando li a sinopse de (Des)conectados pela primeira vez achei que seria um livro distópico com uma pegada mais adulta, entretanto ao iniciar a leitura já percebi que estava de longe de ser o que imaginei. Apesar de conter tecnologias que não existem, ou não conhecemos, o livro é bastante contemporâneo ao lidar com o tema tecnologia e seres humanos. 


Sloane tem um profissão peculiar: Ela prevê quais são as próximas tendencias tecnológicas mundiais, um dos exemplos foi o touch screen, no inicio dos anos 2000. Além de tudo ela é uma mulher contra maternidade e por isso também tem uma fama polêmica, já que sempre discursou sobre isso e defendeu seu ponto de vista, além de ter um relacionamento sério com um homem francês que, além de concordar com ela, atualmente defende uma politica contra sexo sem penetração. Sim, parece tudo bem estranho, mas o livro não foca nessa parte da vida de Sloane e sim quando ela volta para os Estados Unidos para um novo trabalho e sente que não é mais a mulher que já foi um dia.

Cortar o cordão umbilical nem sempre se trata de se separar completamente de alguém, mas de nos separarmos da repetição de um relacionamento que não enriquece mais nossa vida. 

A proposta do livro é maravilhosa, pois é muito fácil observar nos dias atuais essa ideia de que as pessoas não se relacionarão pessoalmente da mesma forma que sempre se relacionaram, seja sexualmente, com família ou amigos. Nós temos as redes sociais e apps em nossas mãos e acreditamos fielmente que eles são o futuro e que eles vieram para nos ajudar em tudo; Mas infelizmente não é bem assim, por mais que há benefícios em todas as tecnologias nós não sabemos usa-la sem afetar nossos relacionamentos interpessoais e o livro, no caso, falha em tentar mostrar isso. Primeiro com o relacionamento de Sloane, onde eles não fazem sexo há quase dois, onde não há palavras de amor, apesar de Roman admirar a mulher que está a seu lado e defender suas ideias. Segundo com o relacionamento familiar de Sloane, que ruiu completamente com ela sempre agindo na defensiva e evitando sua mãe e sua irmã. Ela percebe que foi deixada de lado mas nunca tentou mudar isso.

Eu gostei bastante da temática do livro, porém o decorrer da história me fez sentir que não havia nada crível ali. A personagem não é cativante e senti uma falta de narração em primeira pessoa para tentar entender um pouco mais suas ideias, tanto as antigas quanto as atuais. A autora quis contar uma boa história, mas não soube desenvolver a personagem que nos faria conhecer essa história, então como leitora senti mais o livro só tentou criticar a evolução tecnológica e a falta de conexão entre as pessoas, mas não se sustentou ao exemplificar com uma pessoa.

Leitores desse blog sabem que o que mais aprecio na literatura são os personagens, inclusive os secundários; E eu odeio quando os autores não desenvolvem um único personagem direito. Falo isso agora pois nesta obra nem os personagens secundários acabam cativando os leitores. Ela colocou ali um carro tecnológico com uma IA chamada Anastacia e que poderia ter uma relevância na discussão e a única coisa que ela faz é "medir a pressão" de Sloane e fazer café no carro. Exemplos na literatura de relacionamento entre IA e ser humano não faltam e infelizmente a autora não soube desenvolver com base nesses exemplos (tô supondo que ela tenha essas referencias).

Enfim, gente... O livro é muito interessante, principalmente pensando no contexto pré-pandemia onde algumas coisas dali realmente estavam a ponto de acontecer. Com a quarentena acho que nossas relações pessoais vão mudar de acordo com a nova previsão de Sloane e isso é uma coisa boa. Podemos usar tecnologias mas de forma consciente, né?

📚
Título: (Des)conectados (Touch) • Autora: Courtney Maum
Editora: Record • Tradução: Caroline Simmer

Resenha: A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca

junho 08, 2020
Livro teatral

Hamlet é uma das peças mais famosas de William Shakespeare e ainda hoje é grande influencia para livros, filmes e adaptações teatrais, sem mencionar na cultura pop no geral; Assim como qualquer outra obra dele. Justamente por isso eu decidi, há algum tempo, ler algo do autor e a oportunidade surgiu quando a Oasys Cultural me fez esse convite. A edição, publicada pela Chiado Books, conta com a tradução de Leonardo Afonso (escritor e pesquisador acadêmico em estudos Shakespearianos) e um linguagem mais acessível, o que para uma leitora de teatro e William Shakespeare de primeira viagem foi excelente.

Hamlet é um jovem que perdeu o pai recentemente, o rei da Dinamarca, e poucos meses após a morte de seu pai vê sua mãe casando com seu próprio tio que acaba se tornando o novo rei. Para ele nada naquilo é normal e quando reconhece seu pai em um fantasma ele percebe que tinha razão em seus pensamentos e passa a planejar sua vingança. O problema é que a vida dele não é tão simples quanto só uma vingança, já que Hamlet é um garoto mórbido que, de certa forma, contempla a morte ao mesmo tempo que a deseja para si. Eu não sei, de verdade, se essa minha opinião tem alguma relação com a obra em si, com o que Shakespeare queria dizer ao retrata-lo dessa forma, mas me pareceu muito uma pessoa depressiva caminhando para a decisão de tirar a própria vida. Mesmo fazendo parte da elite ao perceber que seu pai foi assassinado e sua mãe logo foi se casando com outro, que além de tudo possivelmente é o assassino de Hamlet pai, ele se deu conta de que ali há um jogo também de poder.

HAMLET
A Dinamarca é uma prisão
(...)
Uma bela  prisão, na qual há muitas celas, alas e masmorras, a Dinamarca sendo uma das piores.

Uma coisa que me intrigou muito na história foi a relação de Hamlet e sua mãe, pois é extremamente conturbada principalmente com o casamento dela antes mesmo de deixar o corpo do falecido rei esfriar. Ele carrega uma grande magoa de sua mãe e isso me fez questionar, por exemplo, a questão de liberdade feminina. Certo ou errado o que ela fez? A rainha tem um grande amor por seu filho, mas diante das demonstrações dele de loucura e da influencia que o novo rei exerce nela mãe e filho se afastam cada vez mais.

Apesar de ser uma tragédia eu posso dizer que teve certos momentos que me diverti muito com os diálogos, principalmente aqueles carregados de dramas, pois são dramas tão profundos que foi difícil eu até crer neles em alguns momentos. Sendo bem honesta eu não acho que tenha entendido a obra muito bem, pois em vários momentos durante a leitura eu me vi perdida nos diálogos e principalmente nos monólogos do personagem, que sempre é repleto de pensamentos mais filosóficos. Infelizmente não posso dizer que me adaptei a leitura de uma peça tentando criar todas as imagens em minha mente sem auxilio de descrições. Mesmo com meus altos e baixos como leitora ao realizar essa leitura é uma obra que gostei de conhecer e que valeu a pena a experiencia.

📚
Título: A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca (The Tragedy of Hamlet Prince of Denmark)
Autor: William Shakespeare • Editora: Chiado Books • Tradução: Leonardo Afonso


Resenha: Amor(es) Verdadeiro(s)

junho 01, 2020
Foto do Kindle

Que a autora Taylor Jenkins Reid se tornou a favorita do universo literário no último ano não é segredo algum. São vários elogios aos seus livros e a própria autora. Eu, tentando evitar um pouco a fama de Evelyn Hugo optei então por ler Amor(es) Verdadeiro(s) lançado recentemente pela Paralela e acabei me apaixonando.

Emma é uma mulher de 31 anos que está noiva do perfeito Sam, sua vida não poderia estar melhor até que ela recebe uma ligação de seu marido. Sim, marido e não ex-marido. Parece estranho, mas a questão é que Jesse estava desaparecido há cerca de quatro anos, inclusive sendo dado como morto, entretanto não foi isso que aconteceu com ele após um acidente de helicóptero. A vida de Emma se torna nesse momento um caos, onde ela não sabe o que fazer, como fazer e muito menos o que sentir. É uma premissa que pode despertar aos leitores a impressão de ser somente um triangulo amoroso, porém o livro está longe de ser isso. Emma é uma personagem cativante, pois para mim ela é um reflexo até mesmo de quem eu costumava ser em alguns aspectos aos 18 anos: odiava sua cidade natal, gostaria de conhecer o mundo, fazer coisas inimagináveis e ser livre. E ela fez isso isso ao lado de Jesse, seu amor da adolescência. Eles tinham uma vida muito feliz juntos e eu amei tanto quando ela nos conta como eles se conheceram na adolescência e como foi surgindo o sentimento entre eles, pois nada daqui me deu a impressão de ser uma história perfeita, sabe? Mas uma história bonita em que duas pessoas que se apaixonam decidem construir juntas. E é triste ver que essa história foi interrompida por um trágico acidente.

Após um longo período de luto, em que decide voltar para sua cidade natal e ajudar a sua família a cuidar da livraria Emma reencontra Sam, um amigo da infância e percebe que precisa se dar uma nova chance de ser feliz e de amar novamente e então uma nova história ela passa a construir ao lado dele. E clara a mudança de Emma ao longo da história e eu também gostei muito de sua versão ao lado de Sam, sabe? Uma versão calma, que deseja uma família, e ama uns pets, além de estar mais tranquila em relação a loucura das viagens e trabalho. Sem entrar em detalhes que Sam também é um ótimo noivo e o relacionamento deles é tão fofo, mas tão fofo, que parece até um romance água com açúcar.
Que engraçado, né? Os homens costumam ver a traição nas coisas que fazemos e não naquilo que sentimos.

Emma sabe que ama os dois homens, cada um de uma forma diferente, mas sabe que é amor verdadeiro, entretanto precisa fazer uma escolha. Ficar com seu marido ou se casar com Sam? Neste momento pode parecer que o livro gira em torno dessa escolha que ela precisa fazer, e de certo aspecto sim, mas não há um drama em torno disso. Emma é tão racional que mesmo no ápice de suas emoções ela consegue fazer a coisa certa, o que é até estranho quando estamos acostumadas com personagens que se levam o tempo todo pela emoção. A autora vai nos entregar uma grande história de amadurecimento e a percepção de que os relacionamentos passam por fases e que nem sempre essas fases precisam nos machucar ou machucar ao outro.

Em livros onde a protagonista gosta/ama duas pessoas ao mesmo tempo, geralmente, acabamos escolhendo um deles e eu não consegui escolher nenhum dos dois nessa trama, o que me fez gostar mais ainda de ter conhecido essa autora que está sendo tão aclamada nos blogs e intagrams literários. Não acho que teria uma escolha certa ou errada para ela, apesar de entender o que a levou a escolher quem ela escolheu. Qualquer um dos dois é uma representação de algo para Emma, assim como qualquer um dos dois a fariam feliz como ela merece. É um livro que eu amei muito e, claramente, vai me fazer ler outras obras dessa autora.

📚

Título: Amor(es) Verdadeiro(s) (One True Loves) • Autora: Taylor Jenkins Reid 
Editora: Paralela • Tradução: Alexandre Boide
Clique aqui para comprar o livro e ajudar o blog


Resenha: A Prometida

maio 20, 2020


Kiera Cass anuncia um novo livro, do nada, e claro que a internet vai praticamente abaixo. Expectativas foram criadas e elevadas a cada dia após a revelação de capa e sinopse e o hype da editora, não é para menos... uma autora muito querida pelas leitoras de YA e fantasia não poderíamos esperar outra coisa. Então imaginem a minha surpresa quando a Seguinte liberou o e-book do livro para seu parceiros e os que finalizavam a leitura não estavam felizes com a história que a autora nos entregou? Eu como não sou boba e nem nada fui logo lendo para tirar minhas próprias conclusões.
O que é uma amiga senão alguém que acredita que você consegue mais do que imagina? 

A Prometida, assim como o grande primeiro sucesso da autora A Seleção, se passa em um mundo de monarquia e, consequentemente, patriarcado. Hollis, a protagonista, é uma jovem que vive no palácio e chamou a atenção do rei Jameson após ele se cansar de outras garotas que estava cortejando. Pessoalmente ela não acredita que chamaria a atenção do rei mas ao mesmo tempo deseja toda essa atenção pois quer ser respeitada como uma rainha e fazer parte da história de Coroa (o nome do país deles) como as outras rainhas da história. E isso é basicamente tudo o que vimos de Hollis durante uma grande parte da história, infelizmente. Eu gosto muito quando leio um livro e, mesmo não amando a protagonista, ou algo assim, eu ainda sinto empatia e simpatia por ela e no fim das contas torço para que ela seja feliz, mas com Hollis foi diferente. Claro que não fiquei torcendo para ela se dar mal, mas eu não consegui me conectar de verdade com ela. Enquanto Hollis dizia estar apaixonada pelo rei eu nunca senti de verdade lendo suas palavras de paixão e sensações que isso era real, da mesma forma que eu também não senti isso quando ele teve Silas (sim, temos novamente um triangulo amoroso). Apesar de a sinopse prometer uma personagem de opiniões fortes ela foi somente uma personagem comum, principalmente se colocarmos em contraste com Delia Grace (a melhor amiga e dama de companhia das Hollis); que sempre foi vista a margem daquela sociedade e sempre se dedicou para ser uma pessoa bem vista conforme suas virtudes. Delia Grade estudava línguas, politica, história e tudo o mais e ela sim poderia ter nos apresentado opiniões fortes, mas foi ofuscada pela sua amiga que era preguiçosa e só pensava em vantagens que a realeza poderia lhe dar.

Sobre os demais personagens, infelizmente, também não tem profundidade. Eu me pergunto como um livro com cerca de 350 páginas conseguiu não se aprofundar em nada na história de seus personagens. Mesmo quando Silas apareceu com sua família, sendo refugiados de um reino vizinho, demorou muito tempo para uma pequena explicação sobre eles ser dadas a nós e o que me deu mais raiva nisso foi a falta de curiosidade Hollis, mesmo percebendo que tinha algo errado. Talvez isso prove o ponto que eu disse no paragrafo anterior a respeito dela. Mesmo a história do rei Jameson, que teoricamente ela deveria saber por viver dentro do palácio ainda assim foi um mistério grande parte da obra (mesmo que não tenha grandes coisas a serem reveladas nesse quesito). E por falar no rei eu preciso aplaudir a Kiera por saber fazer reis tão insuportáveis em seus livros. O rei Jameson até parece ser um homem legal no inicio do livro, mas aos poucos algumas de suas falas revelam parte da sua personalidade, que por acaso é a personalidade que um rei deve ter ainda mais em uma sociedade patriarcal como Coroa é, então não deveria haver surpresas nisso, entretanto por ser um romance é claro que eu queria ele fosse um fofo.
O amor é a sobremesa de um banquete para o qual e ainda estou esperando convite. 

Ao contrário do que parece, em um contexto geral, eu gostei do livro. Mesmo sem nos mostrar muito sobre os personagens a autora me conquistou com a história em si, mostrando um preconceito que as pessoas tem por estrangeiros e com desejo de ser algo maior do que é. O livro em si tem um clima bastante alegre e é muito gostoso de ler (eu terminei em um dia), e por se tratar de uma duologia é claro que o final tem surpresas que abrem debates para as leitoras criar teorias sobre o futuro das personagens. Eu vou sim ler a sequencia quando sair e vou torcer para que a autora não volte atrás em algumas decisões, mas que ainda assim seja um final digno de princesa para Hollis.

📚

Título: A Prometida (The Betrothed) • Autora: Kiera Cass
Editora: Seguinte • Tradução: Cristian Clemente

Resenha: Mentirosos

maio 18, 2020

Em meados de 2014 eu li Mentirosos pela primeira vez. Lembro-me que na época houve grande falatório a respeito da obra pois muitas pessoas se surpreenderam com o final e eu, claro, não fiquei imune a surpresa. Gostei tanto do livro que favoritei no Skoob e guardei a minha cópia cheia de post-its com carinho na estante, anos depois presenteei uma amiga com o livro com a promessa de que ela iria amar e dito e feito, a menina ficou maravilhada com a história e hoje, após 5 anos eu reli essa obra por causa de uma leitura coletiva maravilhosa.

Na primeira vez que li Mentirosos eu me surpreendi tanto com a história que deixei alguns elementos de lado, ou talvez porque naquela época eu não era uma leitora tão critica quanto sou hoje em dia; Principalmente pelas questões de privilégios e preconceitos e acredito que por isso acabei gostando muito mais do livro hoje. Isso não muda o fato de que ele é um YA, mas muda um pouco mais a minha visão sobre esses livros serem importantes para a construção do pensamento critico dos jovens leitores. Infelizmente eu não tive essa experiencia, mas posso imaginar como é para os mais novos hoje em dia lerem algo como Mentirosos e refletirem sobre questões sociais dentro daquele enredo.
Meu avô é muito mais parecido com a minha mãe do que comigo. Ele apagou a antiga vida gastando dinheiro em outra para substitui-la.

Mas vamos lá, o livro conta a história da família Sinclair, onde todos são perfeitos, brancos, inteligentes e muito ricos. Pelo menos é o que eles demonstram o tempo todo. Não há margem para defeitos, não há perdão para qualquer atitude que não seja considerada de pessoa de bem e de classe e é assim que vive Cady, uma jovem de 17 anos que há dois anos sofreu um trauma e está com perda de memória seletiva além de outros problemas de saúde. Ela narra um pouco da sua infância e como era suas férias de verão na ilha pessoal da família e em como ela conheceu Gat, o garoto com descendência indiana que passa as férias  ali e não faz parte da família. Além de Gat ela passa seu tempo das férias com seus primos Johnny e Mirren. Todos ali tem a mesma idade e portanto são bastante próximos, são chamados pela família por Mentirosos.

Justamente por Gat ser a única pessoa ali que não faz parte da família e não é rico ele acaba questionando aos outros sobre as questões de privilégios e principalmente preconceito por parte do patriarca da família, o avô de Cady e dono de todo aquele império. Gosto bastante dos diálogos que os jovens tem ali, pois apesar de parecer profundo ele é tratado com muita inocência já eles ainda não entendem muito bem isso em uma questão social maior e algumas coisas eles vão percebendo ao observar suas mães vivendo juntas ali naquele ilha brigando por causa de herança antes mesmo do pai morrer.

Aliás, esses jovens... Eu acho que a única coisa que eu realmente queria ter igual a Cady é a tradição de passar tanto tempo com seus primos nas férias e ter a liberdade de fazer o que quiserem em um local seguro. Quando mais nova eu sempre tive muito contato com meus primos, mas alguns moram na mesma casa que eu, então tínhamos muito mais momentos de tretas do que qualquer outra coisa kkkk e infelizmente meus primos tem idades diferentes da minha, então haviam coisas que não conversávamos.



Fiquei muito feliz com essa releitura e com todas as marcações que fiz no livro (o amarelo são de 2014 e o laranja de 2020), pois agora pude refletir sobre outras questões das quais não tinha prestado atenção anteriormente e que fazem muita diferença para a resolução da história antes e depois do plot twist.

📚
Título: Mentirosos (We Were Liars) • Autora: E. Lockhart
Editora: Seguinte • Tradução: Flávia Souto Maior

Resenha: Não me Abandone Jamais

maio 15, 2020

Na minha postagem sobre autores vendedores do Nobel citei o livro Não me Abandone Jamais, do japonês Kazuo Ishiguro; que eu havia assistido a adaptação há alguns anos. Então aproveite o entusiamos que a postagem me deu para ler o livro e posso afirmar que foi a melhor decisão tomada, pois me deparei com um livro profundo e muito, mas muito lindo. Uma leitura para quem gosta de romance, drama, ficção cientifica e até mesmo infanto-juvenil. Pode parecer estranho, mas eu me senti muito a vontade com todos esses gêneros misturados nesta obra.

Apesar disso Não me Abandone Jamais é um livro muito melancólico e que me deixou bastante triste ao pensar em seus personagens conforme as revelações iam acontecendo. A obra é narrada pelo ponto de vista da jovem Kathy H., uma cuidadora de aproximadamente 30 anos, e em um contexto até mesmo biográfico somos apresentados a pequenos acontecimentos de sua primeira infância, infância e adolescência em Hailsham (uma especie de internato),  junto de seus amigos Ruth e Tommy, assim como a saída deles dali e o entendimento do que eles são de verdade e como eles se sentem em relação a isso.

Sem dar spoilers sobre o enredo, mas ainda assim usando de seus argumentos para falar sobre o livro, ao concluir a leitura pensei muito sobre o que é a arte em nossas vidas? Quais as artes que produzimos, mesmo que não sejamos um grande pintor ou musicista, que refletem quem somos; Que refletem até mesmo a nossa alma? Esses questionamentos surgem sutilmente com as revelações da obra e mesmo que ali não tenha nenhum efeito grandioso ainda assim para nós passar a ser a maior reflexão que o livro nos dá.
Quando me lembro daquele momento, hoje em dia, eu parada ao lado de Tommy numa ruazinha estreita, prestes a dar inicio à busca, sinto um calor bom me invadir o corpo. De repente, tudo parecia perfeito: uma hora inteira a nossa frente e nenhum jeito melhor de gasta-las. Tive de me controlar para não sair rindo feito uma boba nem começar a dar pulos na calçada como uma criança pequena. 

Kathy é uma personagem muito passiva e como narradora ela mesma entende essa característica ao nos contar sobre sua vida. Muitas vezes me irritei com sua passividade e em como ela permitia que as pessoas abusassem dela da forma como abusavam, mas ela era uma boa amiga e foi para todos até o final, com uma ponta de esperança que as coisas poderiam dar certo e as teorias da infância fossem reais e ao vê-la se decepcionando em contraste com outro personagem é muito ruim e como leitora me senti impotente em não ajuda-la.

Tenho certeza que esse livro irá te emocionar de alguma forma e te fazer repensar em conceitos sobre o ser humano e sua essência, assim como irá de fazer pensar em novos conceitos sobre a humanidade. Uma leitura bastante pesada no que diz respeito ao seu conteúdo mas necessária em paralelo com os rumos que a humanidade está tomando.

📚
Título: Não me Abandone Jamais (Never Let me Go) • Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Beth Vieira

Resenha: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno

maio 11, 2020

Frankenstein é considerado um marco nas histórias de terror e ficção cientifica. Com um enredo envolvente e assustador é fácil saber o porque de ter se tornado um clássico da literatura mundial. Mary Shelley quando publicou pela primeira vez não pode usar seu nome na autoria do livro, pois havia um grande preconceito com livros escritos por mulheres naquela época, e usou então o nome de seu marido. Na cinebiografia da autora podemos conhecer um pouco sobre essa história e foi justamente através dela que me interessei em ler o clássico Frankenstein, ou o Prometeu Moderno.

Eu sempre achei que Frankenstein se tratava muito mais sobre um "monstro", criado por um homem, e que por alguma razão era mal. De fato a história é sobre isso, mas há algo muito mais profundo sobre a criatura sem nome da obra. Victor Frankenstein sempre foi um garoto inteligente e curioso para os estudos e isso foi ao longo da sua vida até a morte de sua mãe; A partir de então ele teve um novo objetivo: Criar uma vida. Sim, podemos dizer que Victor brincou de Deus. Após meses e meses de estudos e experiencias ele enfim teve o exito de sua criação, entretanto ao invés de ficar feliz ele passou a abominar a criatura sem motivo (somente pela sua aparência).

Lembrei-me da súplica de Adão a seu Criador. Mas onde estaria o meu? Ele me abandonara, e na amargura do meu coração amaldiçoei-o. 

Após a negação de seu criador a criatura foge e tenta viver em sociedade, entretanto ao perceber que as pessoas as renegam somente por sua aparência ele passa a viver recluso e observando uma família próxima do galpão onde ele se alojou. Essa, para mim, foi a melhor parte da história. A criatura nos conta essa história e nos mostra como foi que ele conseguiu seguir sozinho, aprender a falar e até mesmo a ler, além de entender o que é amor e compaixão e desejar mais do que nunca isso para si mesmo; Mas infelizmente as coisas nunca poderão ser boas para ele, ao que parece ele nunca terá o amor, seja de seu criador ou de qualquer outra pessoa. Ao percebe isso a criatura declara sua vingança contra seu criador, jurando o fazer infeliz ao matar todas as pessoas que ele ama.

A perseguição de um e outro acaba virando uma caça de gato e rato, mas no meio disso acabam ocorrendo diálogos sobre existência, amor, ciência e filosofia que acabam pegando o leitor desprevenidos. Eu, pelo menos, esperava algo muito mais ficcional e aterrorizante, mas me vi refletindo sobre o mito da criação e até mesmo sobre preconceitos que vejo acontecendo na internet nos dias atuais. Isso só mostra que a obra é atemporal e pode fazer todo e qualquer tipo de leitor refletir sobre a situação da criatura e do próprio Frankenstein, já que ambos são vilões da história do outro.

É um livro bastante instigante e, para quem gosta de algo mais profundo, bem filosófico. Um clássico fácil de ler e compreender com camadas que podem ser dissecadas pelos leitores ou que podem ser deixadas de lado somente para usufruir da história principal.

📚


Título: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (Frankenstein or the modern Prometheus) • Autora: Mary Shelley
Editora: Martin Claret • Tradução: Roberto Leal Ferreira

Resenha: Hibisco Roxo

abril 29, 2020

No final de 2019 iniciei a leitura de Hibisco Roxo pois queria ler um romance da Chimamanda, já que amo seus textos de não-ficção; E com minha participação em diversos grupos de leitura coletiva acabei abandonando a leitura pois este seria um dos livros selecionados para 2020, entretanto uma outra LC acabou colocando Hibisco Roxo na lista de Abril e vi a oportunidade de terminar o livro antes do que tinha planejado, até porque eu ainda estava com esse livro em minha mente querendo saber o que ocorreria com Kambili e sua família.

Hibisco Roxo irá nos apresentar a jovem nigeriana Kambili. Sua família é muito rica e seu pai é um homem  de grande influencia em sua comunidade, pois é muito católico e ajuda a todos os necessitados, é dono do principal jornal local e de diversas fábricas alimentícias; Entretanto dentro de casa a imagem que ele faz na sociedade se desfaz. Um homem muito rígido com os filhos e violento com a esposa e já foi, por diversas vezes, o causador dos abordos que ela teve ao longo do casamento; Com os filhos sempre exigiu religiosidade e disciplina com os estudos. E é sobre esse arco que a história irá se desenvolver, principalmente após Jaja (irmão mais velho de Kambili) se negar a tomar a hóstia na Missa de Ramos, o que para seu pai foi o absurdo.
Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com os meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos por acreditarmos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.

Eu acho que, até o momento, não tinha lido nenhum livro sobre intolerância religiosa e hipocrisia religiosa como Hibisco Roxo. Acho que a principal intenção de Chimamanda não foi essa, e sim mostrar a influencia que os brancos teve na Nigéria, principalmente em relação a cultura e religião, mas junto com isso anda esses dois aspectos que citei. O pai de Kambili é um homem tão exemplar e amado na sociedade, principalmente na sociedade católica e pelo próprio clero que seria impossível pensar que ele é tão ruim dentro da própria casa e em relação ao seu pai (que não mora com ele, mas sofre com a indiferença do filho por seguir a religião local). As atitudes desse homem narrada pela sua filha mais jovem não é boa de ler. Sabe quando você lê ou assiste um filme de terror e fica se remexendo com medo do próximo susto? Foi mais ou menos isso que senti ao ler as coisas que esse homem fazia aos filhos, e sempre que eles estavam reunidos, mesmo em um jantar, eu já morria de medo de um ato de violência.

Por odiar o personagem do pai de Kambili eu odiei todos os momentos em que ela demonstrou admiração e amor pelo pai, eu não consigo entender como ela poderia ser assim. É amor ou medo? Talvez um pouco dos dois, apesar de tudo. Mas gostei muito do desenvolvimento da personagem na trama, pois ela passou por um processo longo até entender que aquilo não era certo, que aquilo não acontecia em todas as casas, que seu pai sendo um homem bom fora de casa não anulava ele ser um homem ruim dentro de casa e consegui compreender que apesar de tudo isso ela ainda conseguia ama-lo por ele ser seu pai e mais nada. Kambili é muito expressiva conosco e sua narrativa é emocionante.

Eu amei esse conhecimento da cultura Nigeriana através da família da tia de Kambili, assim como alguns aspectos históricos; Mas é muito triste ver através de uma autora nigeriana (e não haverá ninguém melhor para nos contar isso do que uma autora nigeriana) o quanto nós, brancos, mudamos tanto um país e um continente com nossas imposições, sendo uma delas a religião. O livro debate muito isso e aprendemos junto com Kambili.

📚
Título: Hibisco Roxo (Purple Hibiscus) • Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Julia Romeu
Para comprar o livro clique aqui
Essa leitura faz parte da LC de abril do grupo Abandonados da LC

Resenha: A Cor Púrpura

abril 24, 2020

Mais uma vez me aventurei em uma leitura difícil. Não pela escrita da autora ou algo assim, mas pela história tão triste e pesada que Alice Walker apresenta aos leitores com A Cor Púrpura. Neste livro escrito em formas de cartas ao longo de 40 (ou mais) anos conhecemos Celie, uma jovem negra que vive em uma pequena cidade em Georgia. Ela cresceu em uma casa onde viu por anos e anos sua mãe muito doente e teve que cuidar de seus irmãos mais novos, além de ser constantemente abusada por seu padrasto (psicologicamente, fisicamente e sexualmente). Celie foi obrigada a deixar a escola, quando ficou grávida teve seus filhos tomados de si, e aos 19 anos foi obrigada a se casar com um viúvo que era uma copia de seu padrasto. Além de perder os filhos Celie perdeu também a irmã, por quem sempre manteve a esperança de ver novamente.

Esse é um daqueles livros que nos emociona pela sua história, por todo o sofrimento de Celie, que mesmo vivendo miseravelmente ela ainda tem esperança de que as coisas podem melhorar. Ela não demonstra essa esperança ao leitor de forma clara, pois muitas vezes ela até reproduz coisas que as pessoas dizem sobre ela: feia, pobre, preta. Entretanto, além do livro emocionar pela história de sua protagonista ela mostra as leitoras (neste caso vou falar como uma leitora branca) todas as consequências que a escravidão deixou na vida das pessoas negras e seus descendentes. Na narrativa vemos situações em que uma mulher é negra é presa por ter desrespeitado uma branca rica, assim como a crença de pessoas brancas que acham que os negros devem fazer tudo por eles, ou até mesmo que é inadmissível um homem negro ter um carro e sair passeando com ele pela rua e pior ainda a ideia de que uma mulher negra artista só é entretenimento.

"Você tem que brigar. Você tem que brigar."
Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Algumas cartas foram escritas por uma segunda personagem (que eu não vou citar para não dar spoilers da obra) e ela se torna missionária na África, conhecendo uma parte da cultura africana e vivendo ali por muitos anos. Essa parte do livro nos trás uma boa reflexão sobre as mudanças que os brancos causaram na África desde a época da escravidão até o século XX (e provavelmente ainda hoje). O entendimento que essas pessoas tem de negros que vivem em outros países, o julgamento de sua cultura e preconceito por eles não se identificarem realmente com as crenças religiosas africanas.

Essa foi a primeira vez que li algo da Alice Walker e me surpreendi com a delicadeza da autora em nos mostrar uma história tão forte com uma escrita tão leve. A Cor Púrpura é fácil de ler e mesmo que você se sinta extremamente enojado com algumas situações que Celie sofre ainda assim ela sabe como deixar alguns detalhes nas entrelinhas, pois ela sabe que nós entendemos muito bem o que ela quis dizer.

É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou. 

A leitura de A Cor Púrpura faz parte da leitura coletiva do grupo Lendo Mulheres Negras. A foto é do meu amigo Alisson <3


Título: A Cor Púrpura (The Color Purple) • Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio • Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson

O Homem de Giz

abril 22, 2020


Um corpo. Quatro crianças. Várias pistas desenhadas. Essa é a trama d'O Homem de Giz, um suspense que conseguiu me prender do inicio ao fim. Sim, o livro não é só um fruto de bom marketing, ele é sim tudo isso que promete.

Temos uma história se passa em duas épocas diferentes, 1986 e 2016, e é narrada por Eddie, uma das crianças que encontra o corpo desmembrado de uma garota na floresta (que por sinal está sem cabeça e está nunca é encontrada). Na narrativa de Eddie sabemos como foi que as coisas caminharam até a morte da menina em 1986 e vemos quais foram as consequências posteriores. Após 30 anos o que levou os meninos até a floresta retorna (os homens de giz desenhados) e promessa de um desfecho para o caso.

De inicio Eddie não é um narrador muito confiável e seus problemas pessoas acabam interferindo em seu senso de justiça, entretanto suas lembranças do passado nos dão pistas importantes sobre o que houve no passado e infelizmente eu fui uma leitora que não percebeu essas pistas. C. J Tudor sabe como fazer o leitor de bobo no sentido de "ah, você achou que sabia o final", entende? Eddie está no inicio de Alzheimer então há momentos da narração que conseguimos sentir sua angustia e sua falha de memória e isso nos causa uma certa aflição por depender unica e exclusivamente dele para entender o que esta acontecendo na história, da mesma forma que faz o senso de realidade da história mudar a cada capitulo.

Não sei de verdade quais as influencias da autora para a criação dessa obra, mas para quem leu e sentiu aquela vibe IT (mas sem a parte de monstro) saiba que eu também tive essa sensação. História com crianças tentando desvendar um mistério que se estende anos após me fazem ter uma leitura prazerosa.

Título: O Homem de Giz (The Chalk Man) • Autora: C. J. Tudor
Editora: Intrínseca • Tradução: Alexandre Raposo
Para comprar o livro clique aqui

Resenha: Vox

abril 13, 2020

Quando VOX foi lançado houve um grande murmurio em relação a este livro, divulgação pesada e muitas blogueiras resenhando e falando bem desta obra, que falando a grosso modo pode ser vista como O Conto da Aia desse inicio de século. Sim, pode falar que estou sendo presunçosa, eu até estou um pouco (até porque, vamos combinar, que O Conto da Aia é um clássico muito, mas muito, bom). O negócio é que VOX tem uma premissa muito forte, uma premissa que pode chocar mulheres como eu (feminista, com opiniões sobre o patriarcado, e uma "estudante" do feminismo, por assim dizer), uma premissa que por mais absurda que seja ainda assim pode acontecer em algum momento (ou algo semelhante). Tá, tá, pode me chamar do que quiser, mas é só olhar para o mundo e ver como algumas posições politicas conservadoras estão cada vez mais em ascensão, é só olhar para a maior potencia mundial (que inclusive é onde a história do livro se passa) e você irá entender um pouco. Maaaaas vamos ao que interessa, né?

Em VOX, após uma eleição democrática onde a extrema-direita conservadora (e religiosa, diga-se de passagem) assume o poder um novo decreto é estabelecido, onde as mulheres devem deixar de trabalhar para cuidar da casa e da família e são impedidas de falar através de um contador de palavras que fica no braço como uma pulseira. As mulheres podem falar somente 100 palavras por dia e caso exceda esse número um pequeno choque que aumenta a freqüência a cada conjunto de palavras é ativado. Assim como as mulheres, os homossexuais também tem seus direitos tomados, indo em prisões-colonias sem poder falar uma única palavra. A protagonista era uma Dra em Neurociência e tinha um estudo sobre afasia e após um ano de sua pesquisa interrompida o governo a procura para continuar seus estudos e assim poder curar o irmão do presidente.

Jean sempre foi uma mulher comum. Ela estudou, se esforçou muito para chegar até onde chegou, tem um bom marido e bons filhos, mas Jean nunca foi uma mulher que se preocupou com questões politicas. Ela nunca questionou o governo, nunca exerceu seu direito de votar (lembrando que nos EUA o voto é facultativo) e tudo isso a assombra agora que ela vê todos seus direitos sendo tomados. Sim, ela se sente culpada de uma certa forma pois sabe que se tivesse lutado no passado possivelmente a situação não teria chego ao extremo como chegou. Jean é uma mulher imperfeita, assim como todos nós, e acredito que por isso que a autora colocou um aspecto negativo dela que pode "chocar" as leitoras. Não vou falar o que é, pois seria um spoiler, mas é algo que é ruim para uma pessoa ser, mesmo que a vida seja toda uma merda (e não era para Jean antes do decreto).

Bom, deixando a protagonista de lado, a autora soube elaborar uma boa história, apesar de ter dado a impressão de ter se perdido no meio do caminho por causa dos conflitos pessoais de Jean, e não de tudo o que estava acontecendo do governo/país. Pode ser sido a sua intenção, mas para mim não funcionou muito bem, pois ao abordar mais questões pessoais de Jean e deixar as questões politicas de lado ela esqueceu de que os leitores procuram informações sobre esse sistema, procuram entender de verdade o porque de ele funcionar e como foi que as pessoas passaram a aceitar isso (no caso do livro a autora já pressupôs que todos os homens héteros vão simplesmente aceitar que calem as mulheres, o que não é bem assim, já que mesmo que a maioria seja macho escroto, como gostamos de chamar, muitos ainda seriam contra). À partir desse meu ponto de vista eu senti que a obra estava lenta no inicio e corrida no final, o que foi péssima escolha, pois o final em que precisávamos de mais informações e detalhes sobre os acontecimentos e ela cortou esses detalhes na mudança de capítulo. Então veja bem, ao final de um capítulo o personagem X estava vivo e no inicio do próximo já estava sendo enterrado, entende? Acredito que nenhum leitor gosta de ler algo assim.

Concluindo, com uma premissa incrível VOX é um livro que deve sim ser lido, principalmente por pessoas céticas em relação a politica e governo conservador,  mas que em contrapartida tem algumas falhas em sua execução e pode desagradar aos leitores mais exigentes. De qualquer forma é um livro necessário pela sua abordagem principal e nos mostrar uma realidade que poderá nos tomar aos poucos.

📚


Título: Vox (Vox) • Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro • Tradução: Alves Calado

Resenha: De Quanta Terra Precisa um Homem

março 23, 2020

Acho que chega um momento na vida de qualquer leitor(a) que goste de clássicos e livros mais emblemáticos a vontade ler algum clássico russo, entretanto a complexidade desses livros é de conhecimento geral e em alguns casos o tamanho até assusta; Por isso que eu resolvi ler o meu primeiro russo com um livro beeem pequeno, um conto na verdade, e o autor escolhido foi Liev Tolstói pois desde que li Tash e Tolstói fiquei curiosa a respeito desse autor e com essa leitura eu não me decepcionei nenhum pouco.

De quanta terra precisa um homem é um conto sobre a ganancia do ser humano. Aquela velha história: Quanto mais você tem mais você quer. A história inicia com duas irmãs conversando, uma mora na cidade e outra na roça. Ambas debatem sobre as vantagens de morar onde moram, uma fala que morar na cidade é ruim pelo medo e outra argumenta que morar na roça não há perspectiva de vida. Enquanto as duas conversam Pahón, que se tornará o protagonista da história, escuta tudo e lamenta:
"Isto realmente é verdade", pensou. "Enquanto se a ara a mãe-terra desde pequeno, não sobra lugar na cabeça para besteiras. A única tristeza é que não temos terra o bastante. Tivéssemos o suficiente nem mesmo o diabo eu temeria!"

E então o diabo escutando Pahón decide tentar o homem prometendo a si mesmo que irá dar muitas terras a ele e com essa mesma terra ele irá pegar o camponês. Pahón tinha o suficiente para viver, ele não precisava sair de casa para ir atrás de mais terra e com isso mais riqueza, sua vida era tranquila apesar de uns conflitos com outros camponeses da sua região, entretanto diante das tentações que foram lhe aparecendo e a promessa de uma conquista de terras fácil ele foi atrás disso.

Não há problema algum em uma pessoa querer sempre mais, nós precisamos de mais, conquistas é sempre bom e nos motivam a ser melhor, mas o problema é quando a ganancia fala mais alto do que qualquer coisa. No caso de Pahón ele queria mais simplesmente pelo prazer de ter mais, o prazer de ser importante com suas terras e dinheiro, Pahón não percebeu que ele não precisava disso e sim de outras coisas como o convívio com a própria família, por exemplo.

Sobre a escrita eu só tenho que dizer que gostei e muito, torço para que os romances do autor tenham a mesma linha de escrita pois assim é algo gostoso de ler, sabe? As vezes os problemas de clássicos é que são difíceis e sempre ouvir falar que os russos particularmente são muito complicados de ler. Mas falando a real: mesmo que você não seja fã de clássicos tenho certeza de que gostará desse conto.

📚

Título: De Quanta Terra Precisa um Homem • Autor: Liev Tolstói
Editora: Via Leitura • Tradução: Natália Petroff 

Resenha: Um Lugar Só Nosso

março 18, 2020

Aos que acompanham esse blog já sabe que eu não sou uma grande leitora de YA clichê há um bom tempo, né? Mas as vezes é bom ler algo do gênero para sair da rotina literária e e até mesmo da ressaca literária. Foi justamente por isso que decidi ler esse romance, com a promessa de ser algo bem leve e gostosinho; Mas acabei me decepcionando bastante com a leitura.

❗❗

Antes de mais nada já deixo claro que essa é a minha opinião sobre o livro. Tenho um amigo que leu e amou, deu 5 estrelas e tudo, então é claro que cada um tem que ler para tirar suas próprias conclusões. 

❗❗

Ah, mas então qual o motivo da decepção? Bom, eu simplesmente não gostei do desenvolvimento dos protagonistas dentro da história. O plot principal é muito bom, amei a ideia da personagem estrela do K-Pop que precisa de um tempo para ela, pois é uma adolescente que não aguenta mais a pressão de ser uma estrela e tem que viver com o estigma de ser perfeita. O livro tinha tudo para ser perfeita se, de fato, as personagens tivessem me convencido de precisavam daquele tempo que passam juntos longe de tudo. 

A história se passa em um período de 24hs e mesmo quando eu era super leitora de YA eu já odiava a ideia de pessoas que se apaixonam em menos de 24hs, sem falar que o tempo todo as personagens só comiam. Acabaram de sair de uma barraca já estavam em um restaurante, daqui a pouco no cinema comendo pipoca, daqui a pouco em outra barraca e ai em um festival comendo comida típica e por aí vai, nesses meio tempo surgiam diálogos que, deveriam, dar um ar reflexivo para a trama, seja sobre família, relacionamentos e sentimentos pessoais de cada personagem, entretanto eles se repetiram demais e eu sentia que estava lendo a cada poucas páginas a mesma coisa anterior. 

Mas tá bom, nem tudo é ruim, né? A autora conseguiu me fazer imaginar e até atiçou minha curiosidade a respeito de Hong Kong. É um cenário totalmente diferente dos livros que lemos, principalmente romances, e o pouco que ela destacou o local com certeza irá deixar as leitoras bastante curiosas para conhecer. Outra coisa que gostei é sobre a exposição da industrial musical do k-pop, principalmente sobre a preparação dos artistas e a pressão que eles sofrem para não serem "cancelados". Mesmo quem não acompanha esse estilo musica com certeza já viu noticias na internet sobre artistas que cometem suicídio ou que tem a saúde mental debilitada em consequência da vida que leva, como acho essa exposição importante gostei de ver sendo abordado no livro.

Mas é isso, gente. Nem todos os livros são feitos para todo mundo, né.

📚
Título: Um Lugar Só Nosso (Somewhere Only We Know) • Autora: Maurene Goo
Editora: Seguinte • Tradução: Ligia Azevedo


 
Copyright © @kzmirobooks. Designed by OddThemes