Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

 

Recentemente li Úrsula para debater em um clube de leitura do Centro Acadêmico de Biblioteconomia da minha universidade e essa escolha foi muito incrível, tanto pela oportunidade de conhecer uma autora nacional que é tão pouco reconhecida, quanto por entender algumas coisas da literatura nacional mais clássica que venho evitando.

A obra, uma das primeiras do romance abolicionista e literatura afrodescendente do Brasil, mostra o romance entre Úrsula e Tancredo, dois brancos. Antes de saber sobre a história eu havia ficado confusa com isso, pois achei que a história seria sobre personagens negros. Errei muito, mas entendi com alguns vídeos sobre a obra no Ytube, que ao falar de romance abolicionista significa que é um gênero pioneiro em retratar os escravizados que estavam no Brasil com humanidade, ao contrário de tantas obras em que eles eram parte do cenário e seus sentimentos e histórias nunca eram levados em conta.
E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos e puros como sua alma.

Apesar de gostar de ler eu nunca fui uma grande aluna de literatura, então alguns conceitos me fogem ainda hoje em dia, mas a obra faz jus a sua época com características marcantes. A idealização da mulher, pura e virginal, acontece todo o tempo com Úrsula. A jovem foi privada de sua vida para cuidar da mãe doente e ao se apaixonar por Tancredo ele faz dela o maior exemplo de mulher já existente, afirmando há todos os momentos que ela é um anjo, pura e santa. Da mesma forma que todos ao seu redor tem a mesma visão da jovem. A exaltação da regionalidade, com descrições das paisagens, clima, as terras. Entre outras características do movimento literário, que qualquer estudioso de literatura poderia usar a obra como referencia.

Ao que mais importa, além da própria Úrsula, é o que diferencia o livro de tantos outros de sua época. Foi escrito por uma mulher negra, uma das poucas alfabetizadas em sua época e que lutou pela educação o quanto pode. Seu romance não teve uma recepção muito positiva e ao que tudo indica é por isso que Úrsula foi ignorado dos estudos literários por tantos anos. Hoje por ser um exemplo ao falar sobre escravizados da época ele é usado até mesmo em vestibulares. 

Hoje em dia temos diversas obras que podem nos mostrar a humanização de escravizados, entretanto ao ler uma obra da própria época o sentimento parece estar muito mais intrínseco. É triste ver o quanto Túlio deseja a sua liberdade, pois na época havia ainda alguma esperança de que a alforria significava que o negro seria totalmente livre e hoje sabemos que essa liberdade não passava de um papel e que eles não tiveram oportunidades de trabalho, não puderem constituir uma nova vida digna. Da mesma forma que ao acompanhar a história de mãe Susana, uma velha que foi roubada de sua família no continente Africano, vemos como foi o sofrimento dos escravizados ao serem sequestrado de sua própria terra para servir em outro lugar de forma tão desumanizada. São histórias que nos mostram o verdadeiro sentimento de quem estava ali na época, literalmente vivendo a história.

Úrsula é disponível na Amazon gratuitamente e além do romance da autora o livro conta com mais alguns contos escritos por ela que também foram publicados na época. Eu recomendo muito a leitura pela sua importância e qualidade.

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Título: Úrsula e outras obras • Autora: Maria Firmina dos Reis • Editora: Edições Câmara

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1 Comentários

  1. Oi, Sil!
    Menina, mais do que da trama, achei interessante os bastidores do livro.
    Não lembro de estudar literatura abolicionista. Realmente, deixaram o gênero fora da aula.
    E amei saber sobre a autora sem negra, alfabetizada e que lutou pela sua educação numa época em que tudo estava contra ela.
    Realmente, o enredo é bem "literatura clássica", o que hoje não tem me interessado muito - li muito na escola -, mas adorei conhecer a obra.

    Beijoooos

    Teca Machado
    Casos, Acasos e Livros

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