Resenha: A Palavra que Resta

Resenha literária
Olá, leitoras e leitores. Essa resenha vai ser muito difícil de escrever, tanto é que estou há dias ensaiando sentar na frente do computador para começar. O motivo também é estranho, já que esse é um livro que eu adorei ler e adorei as sensações que ele me causou, mesmo no fundo sendo uma história triste. A Palavra que Resta é uma história de amor que é pura e talvez por isso tenha me conquistado tanto.

Raimundo é um senhor com seus 70 anos que decide aprender a ler e a escrever. Isso já é algo que me pegou, pois quando eu vejo pessoas nessa idade que não são alfabetizadas eu tento de todas as formas pensar em todas as situações de vida que a impedirem de, ao menos, ter o ensino fundamental. Eu me lembro quando era criança de não entender muito bem índices de analfabetismo no Brasil e inconscientemente acompanhei isso mudando nos últimos 20 anos, então ao ver Raimundo saindo dessa estatística aos poucos, como leitora, é muito bom. Mas o livro não fala apenas sobre isso, o foco da história é o motivo que o levou a decidir frequentar a escola já na terceira idade. Há mais de 50 anos Raimundo guarda um carta escrita pelo amor de sua vida, Cícero, com quem vivia escondido um romance. Eu só posso pedir para vocês tentarem imaginar como era para os dois, ainda jovens, viver esse romance morando na "roça", com pais que se preocupam somente com seu pedaço de terra e mais nada. Raimundo foi proibido de ir a escola justamente para ajudar seu pai no plantio e ele passou muito tempo da infância invejando sua irmã mais nova pois para ela foi concedida a oportunidade de estudar. Então é claro que esse relacionamento ao ser descoberto, infelizmente, nunca daria certo.

A vontade [de aprender a escrever], tinha sim, desde menino, mas o pai lhe dizia que a letra para para menino que não precisava encher o próprio prato.

A história não segue uma linha do tempo certinha, pois muitas lembranças do passado vem à tona. O que eu gostei foi que o autor não trabalhou essas linhas do tempo separadinhas, especificando todas a todo momento, mas ainda assim ele conseguiu fazer essa "mistura" de um jeito que ficou simples de entender. No presente Raimundo vive com uma travesti que conheceu de forma inusitada, mas que se tornou sua amiga para a vida. Ouso dizer que a única amiga que ele consegue manter para a vida inteira e amo demais quando ele brinca sobre ser dois velhos, um gay e uma travesti, andando por ai. Essa sensação de que após anos e anos se escondendo, mesmo longe de sua família, é reconfortante, afinal, quantas pessoas homossexuais não passam a vida se escondendo e ainda morrem escondidas? No passado os relatos de sua adolescência apaixonado por Cícero são roubados do leitor rapidamente com a descoberta da família de ambos logo nas primeiras páginas e o que aconteceu com ele é dolorido, real, causa revolta. Seu pai o agride diariamente acreditando que essa é a solução para o que ele acredita ser um problema e Raimundo nunca cedeu, até o fim ele nunca cedeu. O pior de tudo foi uma conversa com a mãe onde a vida dele mudou completamente. Esse momento eu perdi todas as esperanças na humanidade que ainda tinha. Acho que tento justificar essas atitudes ao pensar que isso aconteceu lá pelos anos 60 no interior do Brasil, mas não há justificativas mesmo que essa família seja de gerações e culturas diferentes, pois a ideia de um pai e uma mãe não aceitar o filho por algo tão supérflua quanto isso me deixa com raiva. Acho que em um ponto da história o autor tentou justificar as atitudes do pai. Não sei se a palavra certa é justificar, mas eu acabei tendo uma visão de que talvez o pai estava com medo por causa do passado, mas isso eu nunca vou saber.

— De novo com isso?
— Isso o quê?
— Essa coisa de se deitar com...
— Tem coisa aqui não, tem é gente, eu e Cícero.
— Gente torta.
— E o senhor vai me endireitar com o cinturão?
— Se for preciso, Raimundo.
(...)
— O senhor vai me bater até me botar numa cova?
— Não, Raimundo, não, tu acha que eu sou capaz de matar alguém? Quanto mais meu filho? Tu é meu filho, o que estou fazendo é para te tirar do caminho da morte.
— Que morte, pai?
— Eu tiro essa coisa de você, antes que ela lhe tire de mim.
Eu tô falando bastante, eu sei, mas eu disse que estava com dificuldade de falar sobre esse livro. Então acho que vou tentar ser mais direta agora. Bom, quando eu falei que esse romance é puro eu não menti, pois mesmo o livro não mostrando cenas românticas é evidente que esse casal só queria ser feliz, ficar juntos. Claro, o medo era maior que tudo e eles tinham consciência de que tudo poderia dar errado, mas ainda assim como Raimundo tentou lutar pelo que queria foi uma das coisas que eu mais gostei. O que é triste, pensando que por mais de 50 anos ele se prendeu a carta que Cícero lhe escreveu e que ele nunca deixou ninguém para ele. Em alguns momentos da história eu ficava com raiva só de pensar na possibilidade do autor não revelar essa carta e em outros eu torci para ele não revelar, pois seu conteúdo mudaria toda a minha percepção do livro. Então não vou contar se ele revelou ou não a carta, pois realmente acredito que você precisa ler esse livro e se emocionar com essa história.

É até estranho eu falar tão bem de um romance, né? Vocês sabem que eu não sou a maior fã do mundo, mas esse livro é incrível mesmo. A história vai tão além do romance, todas as lutas internas de Raimundo, a maneira como ele passa a ver sua família após tantos anos, a amizade que ele faz, os preconceitos que ele deixa para trás... Enfim, são pequenas coisas que enriquecem essa narrativa maravilhosa.

📚

Título: A Palavra que Resta • Autor: Stênio Gardel • Editora: Companhia das Letras

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7 Comentários

  1. Olá...
    Diferente de você, eu sou a louca dos romances kkkk
    Ainda não conhecia esse livro, mas, achei lindo todo esse desejo do casal de ficarem juntos, de ser feliz.... Mesmo não tendo cenas românticas pra evidenciar.
    Achei a premissa muito interessante e é claro, anotei nos desejados ;)
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

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  2. Olá, Silviane.
    Apesar de ter muita coisa ainda para mudar, quando a gente lê histórias assim é que a gente percebe o quanto já conseguimos. Minha mãe só estudou até o segundo ano porque o pai dela falava que mulher não precisava estudar, só aprender a ser dona de casa. Vou anotar a dica aqui e se der vou ler ele.

    Prefácio

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  3. Oi Silviane, tudo bem?
    Solicitei esse livro à editora e estou louca pra ler!
    Saber que ele mexe com as nossas emoções dessa forma que você descreveu me deixou ainda mais animada pra conferir (ainda que eu precise preparar meu coração pro sofrimento do Raimundo).
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  4. Olhando essa capa eu nem imaginaria que era um romance. Parece uma narrativa interessante.

    www.vivendosentimentos.com.br

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  5. Oi Silviane, tudo bem?

    Não conhecia o livro, mas lendo a sua resenha já sei que esse é aquele tipo de história que depois que leio, ela fica comigo por muito tempo.

    Gosto de romances que tenha uma certa carga de drama e que de alguma forma ao final nos entregam protagonistas melhores que conseguiram vencer os obstáculos que tinham.

    Já vou deixar meu coração preparado para acompanhar a história do Raimundo e torcer para que ele encontre a felicidade.

    Beijos;***
    Ariane Gisele Reis | Blog My Dear Library.

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  6. Uauu, que historia!!
    Pelo seu super resumo, é exatamente como você falou.. vai além de um romance!
    Já quero muito ler >.<

    Bjoo
    Taty
    https://www.conclusoesliterarias.com.br/

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  7. Olá
    Pela sua resenha dá para perceber que o romance te tocou bastante .quantas dificuldades o Raimundo passou heim ? Parece ser um personagem bem forte apesar de todos os obstáculos que passou na vida .

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