Resenha: Marrom e Amarelo — Desafio 5 livros nacionais em 5 dias

 

O terceiro livro do desafio da semana da Companhia das Letras, até o momento para mim não foi o melhor mas foi o mais necessário para eu ler algo sobre um assunto que há algum tempo tenho adiado e que também tenho muita curiosidade: colorismo.

A história aqui é de dois irmãos, sendo o protagonista Federico, de uma família de pretos, entretanto enquanto Lourenço é mais retinto Federico é o que chamamos de pardo (e atualmente gera muitos debates). É muito interessante que na história enquanto há algo familiar em relação aos irmãos serem diferentes, e consequentemente um sofrer racismo enquanto o outro era visto como branco, há um debate sobre cotas raciais na universidade em uma comissão que fala sobre um aplicativo para definir o quanto uma pessoa é preta ou não. Federico faz parte dessa comissão que ocorre lá por 2016, na mesma época em que Temer assumia a presidência do Brasil (em nenhum momento o nome dele é citado na história, mas o contexto histórico desse novo governo está muito presente).

Federico é um homem com seus 50 e tantos anos e está envolvido na luta de raças, por isso faz parte dessa comissão, e ao mesmo tempo uma parte de sua adolescência é contada, da época em que muitos conflitos ocorreram por ele não se entender como uma pessoa preta em sua própria família, além de ser assim na sociedade. Dois momentos, para mim, foram bem marcantes para esse conflito do personagem, sendo uma conversa com sua própria mãe e o momento em que ele precisa de alistar e o sargento lá resolve que é legal humilhar pretos. Esse amadurecimento do personagem em relação a sua negritude é muito bem construída e, acredito eu, muito representativa para quem se sente fora de algo por não se encaixar no que a sociedade enxerga como preto ou como branco, sabe? E até eu, falando como uma pessoa branca, gostei de entender um pouco que a negritude da pessoa não está somente na cor da pele, aquilo que a gente vê, mas há fatores genéticos, há as caracteristicas físicas, e a auto declaração que também é importante (e é assim que é feito no Brasil atualmente).

Quanto ao enredo em que a trama é construída há um conflito para ser resolvido, pois Roberta (sobrinha de Federico) foi presa por participar de um protesto em uma ocupação e a arma encontrada com ela tem uma história antiga com os dois irmãos. Foi um pretexto para Federico se reaproximar da família e suas origens, reencontrando algumas pessoas de seu passado que acabam confrontando-o a respeito de sua influência e o que ele fez para ajudar as pessoas de sua comunidade com isso. Outro ponto que gostei bastante foi o quase romance desenvolvido ali. Duas pessoas adultas sendo sinceras, conversando sobre a vida e o passado sem máscaras e sendo maduras sobre isso, estando ali um para o outro quando necessário. Da mesma maneira que um romance do passado de Federico aparece e há um amor ali, mas não um amor romântico, de saudade, de deseja da pessoa, mas um amor entre duas pessoas que viveram uma história e hoje se respeita e se tem como amigos. As formas sutis que o autor colocou isso na história, sem atrapalhar o assunto principal, foi maravilhosa.

Para quem procura um livro que fala sobre a forma de racismo do Brasil dos últimos anos esse livro é a minha indicação. Uma história que debate tudo isso em um personagem que levou algum tempo para entender a sua negritude e que, de certa maneira, desafia o leitor a refletir sobre a negritude e miscigenação do brasileiro.

Título: Marrom e Amarelo • Autor: Paulo Scott • Editora: Alfaguara

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CONVERSATION

4 Comments:

  1. Me identifiquei com a base da história do livro, pois eu sou branca, mas minha irmã é negra, por que nossos pais são um casal "interracial". E hoje eu vejo que o racismo era algo frequente, por que quando saíamos apenas eu e minha mãe, que é negra, as pessoas simplesmente suponham que ela era minha babá, ou as vezes perguntavam se eu e minha irmã éramos filhas do mesmo pai ¬¬' Enfim, gostei demais desse livro e das reflexões que ele traz, quando possível quero conferir essa leitura.
    Beijo, Blog Apenas Leite e Pimenta ♥

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  2. Olá...
    Esse livro tem uma premissa bastante interessante e levanta vários questionamentos importantes a serem discutidos... fiquei com vontade de ler!
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com

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  3. Diane!
    Tenho lido algumas históriaas sobre negros, tentando aprender mais sobrer eles e o que passaram e passam.
    Essa questão da cor para mim é um preconceito inconcebíbel, afinal, todos no Brasil são descendentes de negros, índios e europeus, então... mesmo que sejamos brancos, temos um pouco de sangue negro nas veias.
    Livro parece bom.
    cheirinhos
    Rudy

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  4. OLA
    O autor construi uma trama muito comum no nosso país ,que é a miscigenação .e a importancia de reconhecer a negritude ,ele ilustra muito bem casos tão comuns em nosso país . com certeza é uma leitura que gostaria de ler.

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