"O Morro dos Ventos Uivantes" e o mito do amor verdadeiro

 

Livro de Emily Brontë

Hoje é dia de uma resenha um tanto quanto polêmica nesse blog e confesso que eu adoro polêmicas por aqui. rs Vou falar sobre o clássico O Morro dos Ventos Uivantes, um livro que por muitos anos eu vi muitas leitoras exaltando como uma linda história de amor e que quando eu finalmente li só senti raiva. Eu sei, o livro é um clássico e com uma qualidade literária muito boa. Sim, eu achei a narrativa excelente e uma leitura fluida, apesar de sofrida, e gostei de todo o desenvolvimento. Mas nas minhas leituras eu sempre me apego muito aos personagens e como falar bem desse livro quando todos os personagens são extremamente odiáveis? Pode falar que eu não sei nada de literatura, nada de escolas literárias e o que for. Pode ser que eu não sei mesmo e na verdade eu nem sou obrigada a colocar isso em minhas resenhas já que não tenho formação nenhuma relacionada a letras, literatura e afins. Aqui eu gosto de dar minha opinião pessoal e é isso que eu vou fazer, então se você ama esse livro e ama essa "história de amor", sinto muito, essa resenha não é para você.

Dito isso O Morro dos Ventos Uivantes é um livro muito aclamado e eu acabei conhecendo ele, de nome, por Crepúsculo e em outros livros que já li ao longo da vida e justamente por tantos comentários eu acreditava que o livro tivesse uma história amor bonita, dessas que mesmo com tantas dificuldades eu iria me apaixonar e torcer muito para o casal e, infelizmente, isso ficou longe de acontecer. Heathcliff inicialmente o herói mal compreendido e maltratado, adotado por Earnshaw ainda criança ele passa a viver em sua propriedade como filho, entretanto o ciúmes de seu filho biológico faz com que o jovem seja bastante judiado. Mas não vai pensando que ele é um coitado, na verdade ele se vinga de seu irmão adotivo como pode e não é lá muito educado com as outras pessoas na casa (inclusive aqueles que demonstram alguma piedade por ele). A narradora da história diz que ele sempre teve um jeito mais dissimulado de ser e seus olhares davam medo. Mesmo odiando Hindley Earnshaw, Heathcliff sempre teve um carinho especial por Catherine Earnshaw e já na infância se tornaram muito próximos, até amigos ouso dizer. Vivendo um lugar isolado do mundo e tendo idades semelhantes é de se esperar que eles iriam se apaixonar, entretanto Cathy mesmo tendo sentimentos por Heathcliff ainda queria um vida que ele não poderia te dar e ao perceber isso o jovem foge por alguns anos e retorna para a casa rico.

Cathy é uma personagem muito complexa desde a infância. É descrita como de personalidade forte, problemática, ao mesmo tempo que é uma menina amorosa ela também consegue ser explosiva. É bastante mimada, gosta das coisas de seu jeito e quando não tem acaba tendo acessos de fúria que ninguém consegue controlar. Diante de todas as complexidades desta personagem eu só consigo pensar que ela tem algum problema psicológico que, na época, ainda não havia tratamentos como, por exemplo, bipolaridade. Não sei se é isso e nas minhas pesquisas sobre o livro não cheguei a ler nada assim, mas sinceramente seria muito bom se algum estudante de psicologia dedicasse o TCC a este livro, pois com certeza encontraria muitas coisas nessa personagem. Nas minhas anotações do livro sobre ela eu destaquei a palavra odiável várias vezes, pois eu odiei ela mesmo e não consegui torcer para ela da mesma forma que torço para tantas outras personagens de romances.

Duas palavras resumiriam o meu futuro: morte e inferno. Minha existência, depois de tê-la perdido, seria o inferno. Ainda assim, por um instante fui tolo por ter achado que ela valorizaria mais seu vinculo com Edgar Linton do que seu vinculo comigo. Se ele amasse com todas as forças de seu exíguo ser, ainda assim não seria capaz de amar em oitenta anos o que eu sou capaz em um dia.

Heathcliff  cresceu ressentido de todas as vezes em que foi maltratado na casa dos Earnshaw e não é para menos, pois ele sempre foi visto como um nada por algumas pessoas que ali moram e por isso sua sede de vingança é tão grande. Uma parte disso acontece porque ele é descrito com descendência cigana, ou seja, sua pele é escura. Considerando que o livro se passa no início de 1800 ele sofria racismo. Claro, seu comportamento não é justificado, pois tudo o que ele faz, inclusive com a mulher que amou, não tem como justificar. Eu entendo ele querer sua vingança contra Hindley Earnshaw, provavelmente qualquer personagem iria querer, mas ele acaba se tornando um monstro. Em diversos momentos durante a leitura eu lembro daquela frase do Paulo Freire em que diz: "O sonho do oprimido é se tornar opressor". E eu sei que ela está cortada aqui, mas esse pedaço faz todo o sentido com o que Heathcliff se torna. Apesar de seu amor por Cathy ele ainda consegue fazer da vida dela um inferno até que isso a leva a morte, sem contar seu ódio mortal por Edgar (marido de Cathy) a ponto de fugir com sua irmã, fingindo ama-la, e depois ficar tratando-a como lixo. Heathcliff é o maior macho escroto da história da literatura e quem pensa o contrário provavelmente tem problemas. O que ele sente não é amor e sim uma obsessão doentia por alguém que ele não pode ter e não quer superar. Então assim, se você acha que isso é bonito em pleno ano de 2021 não tem alguma coisa certa ai, pois as atitudes dele se acontecem hoje com alguém que eu conheço eu incentivaria essa pessoa a fazer diversas denuncias, processar e tudo mais. Esse amor não é normal.

Sua presença é um veneno moral capaz de contaminar os mais virtuosos.

Esse é um livro extremamente pessimista e por isso até pode ser real. Mesmo na época em que ele foi lançado há uma certa aversão à esta história, já que ela é muito pesada com tortura psicológica do inicio ao fim à todos os personagens. Eu gosto da ideia de mostrar que não há pessoas cem por cento boas ou cem por cento ruins e que muitas atitudes são reações de outras, entretanto a maneira como essa história é contada se fosse contada hoje em dia provavelmente a autora seria muito massacrada pelos leitores já que as atitudes ali mostradas são repudiadas. Pode ser que eu esteja errada em criticar o livro de acordo com a época em que eu vivo, mas sinceramente para mim é quase impossível não pensar nisso quando leio livros (até mesmo os clássicos). Quando eu digo que O Morro dos Ventos Uivantes pode ser real é que existem muitos Heathcliff's por aí torturando mulheres em nome de um amor que sabemos que não existe, existem muitos Heathcliff's por aí matando familiares de mulheres para se vingar de alguma forma. Então não, não consigo entender e aceitar quando as pessoas elogiam essa história de amor. Pode elogiar o livro, pois é bem escrito e tem um desenvolvimento em que o leitor fica atento a todos os acontecimentos, entretanto o amor entre os dois é impossível de amar e de almejar.

Título: O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) • Autor(a): Emily Brontë
Tradução: José Sette Camara • Editora: Principis

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CONVERSATION

7 Comments:

  1. Olá tudo bem ? Eu penso como você...a leitura e as resenhas é para que nós "meros mortais" possamos colocar nossas opiniões pessoais mesmo. Os formados são críticos e devem trabalhar em jornais, revistas e afins...Dito isso, você está certíssima em expor como se sentiu e adoro essa sinceridade. Eu estou para ler esse livro tem "séculos", mas sempre fui adiando, por preguiça mesmo, pois eu sempre imaginei que por ser um clássico, ele ia me cansar.
    E com sua resenha, eu só tive certeza. Eu até o tenho lacrado em minha estante e vou continuar adiando.
    Parabéns por ser sincera.
    COntinue sempre assim.
    Beijos

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  2. Oi Silviane!!

    Cara, de verdade, independente de quando o livro foi escrito, eu sempre coloco ele na minha realidade, acho que esse sens critico é importante sim, mesmo que na época os valores fossem outros, agora não é mais assim. Eu li esse livro faz muito tempo, li no ensino médio e nossa, eu lembro de ter achado bem estranho esse amor entre eles, mas eu não tinha o senso que eu tenho hoje né, acho que se eu relesse o livro, seria da mesma opinião que você.
    Adorei o post

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  3. Já quis muito ler esse livro e perdi a vontade ao longo dos anos. Sua resenha reacendeu essa vontade e acho que vou incluir nas minhas próximas leituras.
    Beijos

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  4. oi, tudo bem por aí?

    esse livro praticamente é um clássico já, né? não sei o porquê de eu ainda não ter o lido... acho que não tive oportunidade ainda. sua resenha ficou maravilhosa, parabéns!

    abraços,
    www.juristageek.com
    instagram: @juristageek

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  5. Olá, tudo bem? Eita, complicado. Eu confesso que leio os livros levando a época muito em conta! Se discordo de algo que eu sei naquele tempo era normalizado e que hoje em dia não é, irei sinalizar, mas também falar que era um contexto diferente do nosso. Acho que a história não deve ser apagada, e com isso podemos aprender muito com literaturas "ultrapassadas". Morro dos Ventos Uivantes é um dos casos. É clássico, e acredito que mesmo a pessoa favoritando, ela entenda suas problemáticas. Ótima e sincera resenha!
    Beijos

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  6. Oi!
    Apesar de ser um clássico, não é um livro que recomendo as pessoas ele é muito complexo, os personagens não me encantaram e todo esse amor e ódio que tanto eles falam bem claramente mexeu muito com o meu emocional, não me desceu também muitas atitudes, cada um tem sua opinião e devemos respeitar. Mas faço parte da sua opinião, li sim, mas não espero reler, parabéns pela resenha e pela sinceridade, bjs!

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  7. Oii,
    Eu nunca li Morro dos Ventos Uivantes, e após ler a sua resenha percebi que não teria estômago para ler. Sou bem fraca para livros assim (onde o mocinho foi oprimido por anos, e aos poucos se torna o opressor com as suas atitudes) ainda mais sem deixar de mencionar que a escrita é bem lenta. Mas a sua resenha ficou perfeita, e super detalhada. Eu estou chocada que o personagem sofria, e que pena que o "romance" na história passa por tantos "sofrimentos". Quando lia as resenhas das pessoas, elas falavam superficialmente sobre o livro e focavam tanto no romance, que pensava que era um mega romance digno de cinema. Mas agora vi que o livro não é tudo isso, mas sim, uma história sofrida.


    Beijoss, Enjoy Books

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