Livro acessível vai além do preço

 



Hoje o papo por aqui é um pouco mais sério. Quero conversar com vocês sobre algo que tenho pensado há algum tempo mas nunca soube exatamente como falar pois eu não faço parte desse lugar de fala; Entretanto tenho aprendido que lugar de fala não diz respeito somente de você viver aquilo na pele, mas sim de também compartilhar a sua experiência e vivencia daquilo como uma forma de dar um ponto de vista para quem está de fora então por isso quero falar um pouco sobre livro acessível.

Quando eu falo livro acessível hoje eu não estou falando dos preços mesmo que esse seja um tópico que sempre vai dar pano para a manga pois há argumentações de todos os lados para debater isso, mas quero falar sobre livro acessível para pessoas que precisam de algum tipo de acessibilidade para ler esses livros e vou contar duas histórias para expor o que me fez pensar sobre esse assunto.

Entre 2018 e 2019 eu trabalhei em uma livraria na minha cidade natal. Uma livraria que mesmo sendo em shopping é pequena de espaço e o acervo foi construído pelos clientes e os livreiros com muito custo pois é um objetivo de todos que a cidade continue com esse local que atende pessoas da região toda. Pois bem, durante os dois anos que fiquei ali conheci vários clientes incríveis e alguns deles relataram dificuldade com a leitura de certos livros por causa da fonte. Sim, a fonte que para mim e para você pode não fazer nenhuma diferença mas que para algumas pessoas se torna o fator de comprar aquele livro para ler ou não. E eu não estou falando sobre estética, pois infelizmente tem muitos leitores reclamando disso, mas sim de dificuldade de leitura por problemas na vista ou até mesmo pela idade. Tinha um senhor que adorava livros sobre a Segunda Guerra, de ficção ou não, mas sempre que abria o livro para dar uma olhada ficava triste pois ele sabia seria quase impossível de ler o livro sem grandes transtornos. Uma outra senhora que leu muitos romances em sua vida agora tem uma enorme dificuldade de ler qualquer romance sozinha pois não consegue mais ler as letras miúdas. E saindo da pequena bolha da livraria em que eu trabalhei ainda posso citar uma leitora do meu blog e Instagram que também passa por algumas dificuldades na hora de sua leitura. O que é para ser um momento de lazer e prazer acaba se tornando uma desmotivação.

Claro que falar sobre isso não podemos deixar de lado as pessoas que tem deficiência visual total, que é o caso do Gabriel Henrique do Instagram Seu Direito Inclusivo que conversou um pouco comigo falando sobre sua experiência como leitor (já que ele gosta bastante de ler). Há uma certa dificuldade em encontrar livros em braille, pois eles são feitos sob demanda. "Como o braille é muito volumoso, dando um exemplo o Harry Potter e Ordem da Fênix, enquanto em tinta (impresso escrito) há somente um livro em braille há mais de 10 volumes", disse Gabriel. Para facilitar, para aqueles que não desejam usar o braille, usa-se um aplicativo que verbaliza aquilo que está no livro, além de usar para uso de aplicativos em geral como Whatsapp e Facebook. Gabriel ainda explica que: "As editoras e autores são muito reticentes em disponibilizar livros em formato digital para leitura, mesmo que o Estatuto da Pessoa com Deficiência diz que as pessoas com deficiência tem direito ao formato de livro acessível". Há um certo medo por parte das editoras e dos autores justamente por conta da pirataria, mesmo que eles estejam protegidos por lei, entretanto nós vemos por ai a existência de vários grupos que disponibilizam livros em pdf e até sites que nunca saem do ar.

Diante de tudo isso eu me pergunto: qual motivo faz com que os livros que nós lemos sem dificuldades no dia a dia tem que ser tão difícil para pessoas que possuem alguma deficiente visual? Até quando as editoras vão ignorar esses leitores? Nós já sabemos que brasileiros lêem pouco, em média 2,43 livros por ano, e vamos pensar quantas dessas pessoas não lêem mais simplesmente por não conseguir? 

O que pode ajudar no problema?

Há algumas soluções que podem ajudar esses leitores, como fazer a leitura no Kindle pois há a opção de aumentar o tamanho da fonte. Não é a melhor solução, claro, mas é um começo. E ainda há alguns aplicativos de audiobook que com certeza é uma opção bastate viavel para quem perda parcial e total de visão. Ainda não tem tantas opções de livros nesses aplicativos, já que vários livros novos no mercado não contam com essa opção ainda, entretanto já vejo algumas poucas editoras tentando se dedicar a esse novo mercado e disponibilizando cada vez mais obras.

De qualquer maneira acredito que as editoras, todas elas, deveriam se comprometer com todos os tipos de clientes (pois sim, nós somos clientes das editoras) e ter opções/edições com a fonte maior e também aumentar o número de audiobooks e livros em braille (no caso inserir livros em braille, já que nunca nem vemos livros em braille no mercado) de seu catalogo para atender uma demanda que está esquecida.

CONVERSATION

7 Comments:

  1. Eu fiquei tão feliz com seu post ontem e sabia que aqui encontraria mais!
    Quando eu perdi a visão(até os transplantes saírem) eu procurei a Apae da minha cidade, o único lugar que ensinava braille. Mas disseram que não poderiam me ensinar, pois os professores eram somente para ensinar crianças que já nasceram cegas.
    Eu estava tão sem esperança. Sabe, perder as letras, viver sem elas.
    Hoje, depois de dois transplantes, eu enxergo pouco(20% em um olho e 40% no outro) A doença que tinha voltou e posso dormir enxergando hoje e amanhã? Não ver nada. É uma faca sobre a cabeça todos os dias. Estou em tratamento,mas não dá pra fazer muita coisa.
    E não é drama ou nada parecido,mas as Editoras deveriam sim, pensar em quem enxerga pouco.
    Eu ainda não leio no kindle, pois até a luz do celular faz os olhos doerem. Eu tenho limites e vivo com eles.
    Mas há livros que sei que nunca lerei, como a série Game Of Thrones, a biografia de Obama, pois o tamanho da fonte é mínimo.
    Por isso,a importância de se pensar em todo tipo de leitor e poucas Editoras fazem isso!
    Amei seu post, desculpa o desabafo, mas eu só precisa agradecer muito!!!
    Livro acessível vai muito além do preço!!
    Beijo

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    1. Eu não consigo nem imaginar como é para você passar por isso, e nem para nenhuma outra pessoa. É muito triste que não puderam te ensinar braille, é muito triste que você tinha que ver tantos fatores antes de conseguir ler um livro.

      Eu espero que você melhore e espero que cada vez mais apareçam audiobooks para você conseguir realizar suas leituras.
      <3

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  2. Oi Sil!!

    Amiga, eu adorei seu post viu? Ele é realmente necessário e importante para chamar a nossa atenção para essa situação, a maioria dos leitores nem imaginam a dificuldade que leitores com algumas deficiência tem para realizar leitura. Eu só passei prestar a tenção de fato por causa da minha mãe, ela não tem grande dificuldade, mas, as letras pequenas são mais difíceis para ela ler, toda vez que vou comprar um livro para ela ou indicar um da minha estante sempre olho o tamanho da fonte para saber se é confortável para ela.
    Tem editoras que usam fontes boas e um espaçamento legal, mas tem outras que usam letras pequenas e um espaçamento mínimo, tenho alguns livros da Valentina assim.
    Mas é bom ver que o mercado está mudando e se adaptando para leitores que possuem mais dificuldades, o movimento é lento como você mesma disse, mas ao menos ele está acontecendo!!

    Beijos!
    Eita Já Li

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  3. Oi Sil!
    Adorei seu post, pois mostrou um assunto importante que não estou acostumada a ler em outros blogs. No entanto é um assunto complicado porque as editoras ignoraram este problemas porque são públicos de pequeno alvo para eles. Talvez sejam por falta de informação sobre as dificuldades que alguns leitores têm ou penso que, as editoras tem um gasto maior que não vai trazer lucros para eles. Infelizmente é uma triste realidade, mas é bom saber que tem algumas editoras se adaptando, trazendo mudanças para o mundo literário para os leitores com dificuldades não distancie da leitura. Parabéns pelo post.

    Bjos
    https://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com/

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  4. Olá, tudo bem? Mega importante e interessante o debate. Acho que nunca tinha pensado por esse lado, mas isso mostra o quanto minha bolha é pequena né? Tenho que pensar mais nos outros. Realmente as opções são escassas para as pessoas com deficiência, mas acredito que as editoras vem se adaptando e trazendo algumas melhorias. Claro que não é 100% e precisa demais de todo um investimento e olhar para a diversidade, mas acredito que é algo que seja cada vez mais abordado. Adorei a postagem, que traz ciência e nos faz refletir sobre. Adorei!
    Beijos

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  5. Esse é um debate importante e necessário, saber o que podemos fazer para mudar ou melhorar a situação é fundamental. A leitura precisa mesmo ser acessível, tenho um amigo com deficiência visual e ele sempre fala sobre isso comigo! Ainda existe muito a evoluir! Obrigada por esse post!

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  6. ola
    muito bom esse post,é necessario realmente falar sobre esse assunto e voce o trouxe muito bem . raramente pensa-se nas pessoas com deficiencias visuais ,mas que gostam de ler ,por isso é importante as editoras pensarem nesse publico . penso tambem que o audiobook será uma excelente opçap tambem para os leitores com deficiencia visual.

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