"Um Amor Incômodo" e as lembranças da primeira infância

Pode ter certeza que a primeira infância é uma das épocas mais nebulosas de nossas vidas. Muitas vezes acreditamos ter passado por alguma experiencia, mas que não tenha passado de uma peça pregada por nossa mente. Em alguns casos há traumas, medo de algum bicho, ou pessoa, só pelas lembranças estranhas que temos dessa época. Apesar de nem todas as lembranças ou medos fazerem sentido é na primeira infância que está um marco do desenvolvimento do ser humano, seja o motor ou psicológico, e é justamente sobre isso que o livro Um Amor Incômodo da autora Elena Ferrante irá tratar.

Na primeira obra escrita pela enigmática autora italiana somos apresentados a uma mulher de meia idade que logo nas primeiras páginas percebemos que tem uma relação conturbada com a mãe. Para mim deu a impressão da filha ter um desprezo pela mulher, mas que não entende muito bem o motivo. Entretanto com a morte de sua mãe ela precisa cuidar dos ajustes do velório e a desocupação da casa em que ela morava sozinha. Parece ser uma obra dramática essa morte, porém Amalia (a mãe) morreu de uma forma um tanto misteriosa e em busca de respostas Délia (a filha) terá que buscar em suas memórias mais antigas lembranças sobre essa mulher que lhe parecia tão repugnante.

Após a leitura da obra procurei algumas resenhas para assistir no ytube e vi pessoas falando sobre essa livro de uma forma não tão positiva. Talvez por essas pessoas conhecerem outros livros da Elena Ferrante ou por simplesmente não terem gostado, mas particularmente eu amei o livro. Uma mistura de drama com suspense que até onde eu me lembro nunca li antes e principalmente que me deixou presa nessa história com medo do que poderia acontecer com Delia ou pior ainda, uma descoberta totalmente inesperada. Acho que quando pensamos em suspense sempre esperamos um plot twist, mas isso não ocorre aqui, apesar de ter sim uma surpresa no final que alguns poderiam até prever (mas eu não, sou lerda). Este é um livro que irá falar muito sobre relacionamento entre mãe e filha e mais ainda sobre como as filhas se espelham nas mães, desejam ser suas mães, e não entendem (ainda mais na infância) que nós não somos nossas mães.

A história se passa em meados dos anos 90, mas alguns fatos se passam em meados dos anos 50 em uma cidade no interior da cidade onde vemos personagens muito característicos do esteriótipo italiano que conhecemos hoje em dia. O marido de Amalia era um homem extremamente violento e o medo dele era visível em Delia mesmo na vida adulta; Era um homem que desconfiava da própria sombra e descontava tudo na esposa, acreditando que ela era a culpada de seus erros, de sua desgraça, e principalmente acreditando que ela era uma adultera. Enquanto Amalia era somente uma jovem que queria ser feliz, que sentia vontade de socializar com outras pessoas e rir livremente; Mas sofrendo tanto nas mãos desse homem em certo momento foi embora com as três filhas para tentar ser feliz. Não acho que Delia seja ressentida da mãe por isso, mas ela se ressentiu da mãe por outra coisa que nem ela se lembra, e mais do que isso ela se ressente por ter desejado ser sua mãe quando na verdade deveria ser apenas uma criança de 5 anos.

Para ele, aquela risada parecia açúcar espalhado de propósito para humilha-lo. Na realidade, Amalia só procurava dar vozes as mulheres de aparência feliz fotografadas ou desenhadas nos cartazes e revistas dos anos quarenta: boca larga pintada, todos os dentes cintilantes, olhar vivaz. Era assim que imaginava ser, e dera a si mesma a risada adequada. Deve ter sido difícil para ela escolher o riso, as vozes, os gestos que o marido podia tolerar. Nunca era possível saber o que era permitido ou não.

Além do relacionamento familiar de Delia um paralelo é sobre um homem misterioso que seria amigo intimido de Amalia e com quem ela estaria no momento de sua morte: Caserta. Delia lembra dele de sua infância e acredita que tenha visto os dois juntos naquela época então saber que esse homem está de volta na vida da sua mãe é muito perturbador, principalmente porque só a menção do nome dela era causa de tantas e tantas vezes que Amalia foi espancada pelo marido. De modo geral o livro é uma caçada de Delia até encontrar esse homem e confronta-lo para saber o que havia entre ele e sua mãe, só que mais do que isso são as lembranças de Delia retornando aos poucos sobre aquela época. Caserta é um homem misterioso e em poucos momentos sabemos realmente o papel dele na vida de Delia, considerando a sua infância, mas ao mesmo tempo ele é extremamente importante com tudo vindo a tona.

Eu não sei se esse é ou não o pior livro da autora, pois ainda não tive outras experiencias, mas posso afirmar que gostei muito dessa obra e principalmente sobre essa premissa de trabalhar com as lembranças da primeira infância, que muitas vezes não lembramos de nada e quando as coisas vem a tona acabamos ficando surpresos com o que nossa mente esconde para nos proteger.

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Título: Um Amor Incômodo (L'amore Molesto) • Autora: Elena Ferrante
Editora: Intrínseca • Tradução: Marcello Lino

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10 Comentários

  1. Estava no Ig agorinha e tive um aperitivo sobre esse livro da Elena e vim correndo ler a resenha completa. Não é apenas um drama familiar mesclando esse se lembrar do passado, de uma forma tão dolorosa(juro que sempre tentei entender isso das primeiras lembranças)
    Não sei se é um tipo de leitura fácil,mas que deu muita vontade ler, isso deu!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Minha mainha fala que a gente não lembra de nada que acontece com a gente antes dos cinco anos de idade, que todas as lembranças que temos dessa época são, na verdade, coisas que ouvimos ou que contaram pra gente. É muito doido, né?
    Dramas familiares de forma geral são muito 8 ou 80 né? Eu particularmente amo esse tipo de narrativa, mas é verdade que as pessoas não são tão afeiçoadas assim a esse tipo de história. Provavelmente é um livro que eu também amaria.

    Beijo!
    https://www.roendolivros.com.br/

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  3. Sempre vejo esse livro pelo twitter e instagram e a capa me chama muita atenção mas ainda não havia lido nada sobre ele. No geral não curto tanto suspense na leitura mas essa premissa me deixou curiosa, por um lado a relação entre mãe e filha e por outro essa morte misteriosa.

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  4. Adorei você pontuar que mesmo o livro não possuindo um grande plot twist, ele não deixa de ser um bom suspense. É muito real essa questão da gente ter certas lembranças que de fato não existiram. De modo geral, o livro não parece ser ruim. Talvez os outros livros da autora sejam bem superiores, aí esse acabou ficando pequeno perto dos outros.

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  5. Silviane!
    Tão bom quano um livro nos emociona.
    Tão bom quando não conhecemos uma autora, mesmo atrás de um pseudônimo, e quando lemos seu livro, acabamos nos encantando com ele.
    Não li nada da autora ainda, mas sempre vejo bons comentários.
    cheirinhos
    Rudy

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  6. Pelo jeito emoção não falta nesse livro, que até curti, mesmo não sendo fã de dramas. O título é interessante e quando se fala em primeira infância, nos leva a uma viagem incrível de lembranças, gostei muito e gostaria de ler esse livro assim que possível.

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  7. Não sou fã de drama, mas adoro um suspense e sempre espero um plot twist mesmo. Também sou lerda hahah mas com o tempo, de tanto ler esses livros de thrillers psicológicos e romances policiais, aprendi a identificar as coisas mais rápido nos livros e saber o que esperar, quando são coisas mais simples e que cabem nas minhas teorias. Achei o quote um pouco "intenso", me deixou curiosa.
    Beijos

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  8. ola
    quero muito conhecer a escrita dessa autora ,sempre vejo comentarios positivos a respeito do livro dele ,esse que voce resenhou eu ainda não li mas já senti que tem emoção drama ,segredos a serem revelados . dica anotada

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  9. Oi!
    Já vi falar muito da autora, mas não tive oportunidade de ler seus livros.
    Bom pelo que eu entendi seus livros parecem ser tipo que agrada um pequeno grupo e desagrada a maioria, mas cada leitor tem seu gosto.
    Nesse livro ela aborda um tema interessante porque nem todas as memórias da infância dependendo da idade são reais, as vezes são imaginadas pela criança.
    Estou muito curiosa para saber mais dessa relação de mãe e filha, e entender se as memórias de Delia são confiáveis.
    Beijos

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  10. Oi, Silviane!
    Não curto drama, mas gosto de suspense, contudo, confesso que não me interessei pela trama de Um Amor Incômodo, não fiquei curiosa para acompanhar Delia na sua viagem a suas lembranças de infância e sua caçada ao Caserta para descobrir o que havia entre ele e sua mãe... por isso dificilmente eu leria esse livro!
    Abraços!

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