Resenha: Hibisco Roxo

29/04/2020


No final de 2019 iniciei a leitura de Hibisco Roxo pois queria ler um romance da Chimamanda, já que amo seus textos de não-ficção; E com minha participação em diversos grupos de leitura coletiva acabei abandonando a leitura pois este seria um dos livros selecionados para 2020, entretanto uma outra LC acabou colocando Hibisco Roxo na lista de Abril e vi a oportunidade de terminar o livro antes do que tinha planejado, até porque eu ainda estava com esse livro em minha mente querendo saber o que ocorreria com Kambili e sua família.

Hibisco Roxo irá nos apresentar a jovem nigeriana Kambili. Sua família é muito rica e seu pai é um homem  de grande influencia em sua comunidade, pois é muito católico e ajuda a todos os necessitados, é dono do principal jornal local e de diversas fábricas alimentícias; Entretanto dentro de casa a imagem que ele faz na sociedade se desfaz. Um homem muito rígido com os filhos e violento com a esposa e já foi, por diversas vezes, o causador dos abordos que ela teve ao longo do casamento; Com os filhos sempre exigiu religiosidade e disciplina com os estudos. E é sobre esse arco que a história irá se desenvolver, principalmente após Jaja (irmão mais velho de Kambili) se negar a tomar a hóstia na Missa de Ramos, o que para seu pai foi o absurdo.
Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com os meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos por acreditarmos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.

Eu acho que, até o momento, não tinha lido nenhum livro sobre intolerância religiosa e hipocrisia religiosa como Hibisco Roxo. Acho que a principal intenção de Chimamanda não foi essa, e sim mostrar a influencia que os brancos teve na Nigéria, principalmente em relação a cultura e religião, mas junto com isso anda esses dois aspectos que citei. O pai de Kambili é um homem tão exemplar e amado na sociedade, principalmente na sociedade católica e pelo próprio clero que seria impossível pensar que ele é tão ruim dentro da própria casa e em relação ao seu pai (que não mora com ele, mas sofre com a indiferença do filho por seguir a religião local). As atitudes desse homem narrada pela sua filha mais jovem não é boa de ler. Sabe quando você lê ou assiste um filme de terror e fica se remexendo com medo do próximo susto? Foi mais ou menos isso que senti ao ler as coisas que esse homem fazia aos filhos, e sempre que eles estavam reunidos, mesmo em um jantar, eu já morria de medo de um ato de violência.

Por odiar o personagem do pai de Kambili eu odiei todos os momentos em que ela demonstrou admiração e amor pelo pai, eu não consigo entender como ela poderia ser assim. É amor ou medo? Talvez um pouco dos dois, apesar de tudo. Mas gostei muito do desenvolvimento da personagem na trama, pois ela passou por um processo longo até entender que aquilo não era certo, que aquilo não acontecia em todas as casas, que seu pai sendo um homem bom fora de casa não anulava ele ser um homem ruim dentro de casa e consegui compreender que apesar de tudo isso ela ainda conseguia ama-lo por ele ser seu pai e mais nada. Kambili é muito expressiva conosco e sua narrativa é emocionante.

Eu amei esse conhecimento da cultura Nigeriana através da família da tia de Kambili, assim como alguns aspectos históricos; Mas é muito triste ver através de uma autora nigeriana (e não haverá ninguém melhor para nos contar isso do que uma autora nigeriana) o quanto nós, brancos, mudamos tanto um país e um continente com nossas imposições, sendo uma delas a religião. O livro debate muito isso e aprendemos junto com Kambili.

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Título: Hibisco Roxo (Purple Hibiscus) • Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras • Tradução: Julia Romeu
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Essa leitura faz parte da LC de abril do grupo Abandonados da LC

Autores vencedores do Nobel para Ler

27/04/2020




Há 119 anos foi entregue o primeiro prêmio Nobel da Literatura e desde então todos os anos um autor ou autora de qualquer nacionalidade e idade é contemplado com o maior prêmio literário do mundo. Infelizmente ainda não tivemos nenhum brasileiro na lista, mas há autores(as) excepcionais com obras muito relevantes para a cultura mundial, literatura e história; E mesmo com várias polêmicas envolvendo a academia sueca responsável pela entrega do prêmio este ainda é um dos mais desejados e respeitados prêmios de literatura. Hoje vou falar 7 livros que quero ler de autores que ganharam o Nobel.


Hermann Hesse - O Lobo da Estepe

Já li duas obras de Hermann Hesse e gosto muito da literatura dele. Tem uma mistura de religião e filosofia e nos faz pensar muito, pois como leitores precisamos interpretar o que ele está nos contando, o que ele quer dizer, e o que isso significa. Mesmo tendo dificuldade com isso nas leituras anteriores, ainda assim, gostei muito de seus livros e agora preciso ler o seu maior sucesso.


Kazuo Ishiguro - Não me Abandone Jamais

Eu conheci Não me Abandone Jamais através de sua adaptação de 2010, mas só descobri que era uma adaptação em 2017, quando Ishiguro ganhou o Nobel e reconheci o nome do livro na lista de obras publicadas no Brasil. Desde então procuro uma oportunidade para ler, pois é uma história muito emocionante e que, acredito eu, tenha muito mais a contar além do filme.


Svetlana Aleksiévitch - A Guerra Não tem Rosto de Mulher

Todas as pessoas que conheço que leram esse livro falaram sobre ele ser muito pesado e de difícil de leitura, mas sendo um assunto tão interessante de ser entendido e estudado eu me peo com vontade de ler as obras da autora. Além deste quero ler Vozes de Tchernóbil.


Toni Morrison - Amada

Eu ainda não tive a oportunidade de ler nenhum romance da Toni Morrison, mas li um livro de ensaios maravilhoso e nem posso imaginar o que esperar de um romance. A primeira mulher negra a ganhar um Nobel (e até hoje a única) marcou uma época da literatura negra, não somente com suas colaborações, mas principalmente com o apoio a publicação de outros autores.

+ Conheça a Obra: A Origem dos Outros


José Saramago - O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Minha identificação com José Saramago vai um pouco além da admiração por sua obra (que eu só li um livro, até o momento, mas já amo); Vai também em encontro com suas opiniões, sobre o que ele fala com seus livros, e até atitudes pessoais. O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi lançado em 1991, o livro tem a minha idade, e ainda hoje é considerado... profano, por assim dizer.


William Golding - O Senhor das Moscas

Para ser sincera O Senhor das Moscas nunca foi um livro que tenha me chamado tanta atenção ao longo da vida, mas eu sempre acabo me deparando com referencias dele de alguma forma e por isso me sinto quase na obrigação de ler. Todos que conheço e que leram gostaram muito e tenho expectativa com ele.



Olga Tokarczuk - Sobre os Ossos dos Mortos

Ao contrário dos outros autores a Olga para mim foi uma descoberta inédita. Ela foi a última contemplada com o prêmio e eu não conheço nada sobre ela e sua obra, portanto minha vontade de ler seu livro é para conhece-la e formar uma opinião.

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E é isso!
Você já leu algum autor(a) que ganhou Nobel? Fala aqui um pouquinho da sua experiencia. 

Resenha: A Cor Púrpura

24/04/2020


Mais uma vez me aventurei em uma leitura difícil. Não pela escrita da autora ou algo assim, mas pela história tão triste e pesada que Alice Walker apresenta aos leitores com A Cor Púrpura. Neste livro escrito em formas de cartas ao longo de 40 (ou mais) anos conhecemos Celie, uma jovem negra que vive em uma pequena cidade em Georgia. Ela cresceu em uma casa onde viu por anos e anos sua mãe muito doente e teve que cuidar de seus irmãos mais novos, além de ser constantemente abusada por seu padrasto (psicologicamente, fisicamente e sexualmente). Celie foi obrigada a deixar a escola, quando ficou grávida teve seus filhos tomados de si, e aos 19 anos foi obrigada a se casar com um viúvo que era uma copia de seu padrasto. Além de perder os filhos Celie perdeu também a irmã, por quem sempre manteve a esperança de ver novamente.

Esse é um daqueles livros que nos emociona pela sua história, por todo o sofrimento de Celie, que mesmo vivendo miseravelmente ela ainda tem esperança de que as coisas podem melhorar. Ela não demonstra essa esperança ao leitor de forma clara, pois muitas vezes ela até reproduz coisas que as pessoas dizem sobre ela: feia, pobre, preta. Entretanto, além do livro emocionar pela história de sua protagonista ela mostra as leitoras (neste caso vou falar como uma leitora branca) todas as consequências que a escravidão deixou na vida das pessoas negras e seus descendentes. Na narrativa vemos situações em que uma mulher é negra é presa por ter desrespeitado uma branca rica, assim como a crença de pessoas brancas que acham que os negros devem fazer tudo por eles, ou até mesmo que é inadmissível um homem negro ter um carro e sair passeando com ele pela rua e pior ainda a ideia de que uma mulher negra artista só é entretenimento.

"Você tem que brigar. Você tem que brigar."
Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Algumas cartas foram escritas por uma segunda personagem (que eu não vou citar para não dar spoilers da obra) e ela se torna missionária na África, conhecendo uma parte da cultura africana e vivendo ali por muitos anos. Essa parte do livro nos trás uma boa reflexão sobre as mudanças que os brancos causaram na África desde a época da escravidão até o século XX (e provavelmente ainda hoje). O entendimento que essas pessoas tem de negros que vivem em outros países, o julgamento de sua cultura e preconceito por eles não se identificarem realmente com as crenças religiosas africanas.

Essa foi a primeira vez que li algo da Alice Walker e me surpreendi com a delicadeza da autora em nos mostrar uma história tão forte com uma escrita tão leve. A Cor Púrpura é fácil de ler e mesmo que você se sinta extremamente enojado com algumas situações que Celie sofre ainda assim ela sabe como deixar alguns detalhes nas entrelinhas, pois ela sabe que nós entendemos muito bem o que ela quis dizer.

É um milagre como os branco conseguem afligir tanto a gente, Sofia falou. 

A leitura de A Cor Púrpura faz parte da leitura coletiva do grupo Lendo Mulheres Negras. A foto é do meu amigo Alisson <3


Título: A Cor Púrpura (The Color Purple) • Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio • Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson

O Homem de Giz

22/04/2020



Um corpo. Quatro crianças. Várias pistas desenhadas. Essa é a trama d'O Homem de Giz, um suspense que conseguiu me prender do inicio ao fim. Sim, o livro não é só um fruto de bom marketing, ele é sim tudo isso que promete.

Temos uma história se passa em duas épocas diferentes, 1986 e 2016, e é narrada por Eddie, uma das crianças que encontra o corpo desmembrado de uma garota na floresta (que por sinal está sem cabeça e está nunca é encontrada). Na narrativa de Eddie sabemos como foi que as coisas caminharam até a morte da menina em 1986 e vemos quais foram as consequências posteriores. Após 30 anos o que levou os meninos até a floresta retorna (os homens de giz desenhados) e promessa de um desfecho para o caso.

De inicio Eddie não é um narrador muito confiável e seus problemas pessoas acabam interferindo em seu senso de justiça, entretanto suas lembranças do passado nos dão pistas importantes sobre o que houve no passado e infelizmente eu fui uma leitora que não percebeu essas pistas. C. J Tudor sabe como fazer o leitor de bobo no sentido de "ah, você achou que sabia o final", entende? Eddie está no inicio de Alzheimer então há momentos da narração que conseguimos sentir sua angustia e sua falha de memória e isso nos causa uma certa aflição por depender unica e exclusivamente dele para entender o que esta acontecendo na história, da mesma forma que faz o senso de realidade da história mudar a cada capitulo.

Não sei de verdade quais as influencias da autora para a criação dessa obra, mas para quem leu e sentiu aquela vibe IT (mas sem a parte de monstro) saiba que eu também tive essa sensação. História com crianças tentando desvendar um mistério que se estende anos após me fazem ter uma leitura prazerosa.

Título: O Homem de Giz (The Chalk Man) • Autora: C. J. Tudor
Editora: Intrínseca • Tradução: Alexandre Raposo
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TAG: Eu favoritei porque

20/04/2020


Para tentar tirar um pouco o foco de só resenhas, resenhas e mais resenhas por aqui hoje vou fazer uma tag. Estava no Instagram e vi essa tag no @leitoresestranhezas e super curti ela. Então bora ver minhas respostas.

❤ Eu Favorite Porque foi escrito pelo meu autor favorito
É bastante difícil escolher um favorito nessa categoria, pois todos os livros do Stephen King eu acabo favoritando de alguma forma. Mas escolhi O Instituto pela forma como o autor aborda o tema da obra com os relacionamentos de amizade e lealdade. Já tenho resenha dele aqui no blog, só clicar aqui para ler.

❤ Eu Favoritei Porque tem uma personagem mega Girl Power
Minha resposta aqui não será de uma personagem de ficção e sim da vida real. O livro escolhido é Eu sou Malala, pois adoro a Malala e acredito que não tenha garota mais girl power no momento do que ela. 

❤ Eu Favoritei Porque me emocionou de uma maneira única
O único livro que me emocionou muito, de verdade, até o momento foi Proibido. Ele tem um assunto bem polemico, mas a autora conseguiu deixar a história humanizada e faz com que fiquemos emocionadas ao ler. 

❤ Eu Favoritei Porque tem um romance dos sonhos
Ah, gente... Não consigo não amar o romance de Mil Pedaços de Você (na verdade a trilogia Firebird toda). Hoje em dia não sou uma apaixonada por romances, mas tem casais que nos pegam de um jeito né? Nesse caso é um amor que foi além das dimensões. Já tenho a resenha aqui no blog, de toda a trilogia, mas você pode ler o primeiro livro clicando aqui

❤ Eu Favoritei Porque tem o mocinho mais lindo e fofo
Ai gente... difícil escolher essa. Primeiro porque não leio muito romances e segundo que os únicos personagens que vem na minha mente são os que já falei tantas e tantas vezes aqui e dai eu fico repetitiva. Mas vou colocar Miles do livro Milhas de Distância, pois ele foi o mocinho mais humano que li no último ano, principalmente no sentido de sofrer, se foder muito, ir atrás de coisas que são importantes para ele e superar os esses mesmos problemas. 

❤ Eu Favoritei Porque é uma maravilha nacional
Vou colocar aqui um dos livros mais recentes de literatura nacional que li, Olhos d'Água da Conceição Evaristo. Gente, sério, que livro é esse? Tão real, tão Brasil, tão dolorido ler aquelas histórias. Leia minha resenha clicando aqui.

❤ Eu Favoritei Porque entendi que é um clássico
Sem sombras de dúvidas o livro que favoritei por ser um clássicos e por ser maravilhoso mesmo é Ensaio Sobre a Cegueira. O tipo de livro que fala muito sobre o ser humano, que fala muito sobre nossas atitudes, principalmente em situações de caos. O interessante é que mesmo sendo um livro de 1995 (um clássico contemporâneo) ele nos fala muito até sobre a atual pandemia que vivemos. 

❤ Eu Favoritei Porque trata de um assunto diferente do que estou habituada a ler
Bom, eu já li muitos gêneros que hoje em dia não leio e hoje em dia leio muitos gêneros que não lia antigamente e no meio de tudo isso o que eu não tenho costume de ler são os quadrinhos/graphic novls; Por isso que aqui eu escolho Lady Killer. Li em uma tarde ociosa e curti bastante a história da dona de casa que também é assassina de aluguel. 

Resenha: Mexa Comigo

15/04/2020

Livro no Kindle

Ao fim de 2019 eu me lancei um desafio para 2020: Ler alguns gêneros que não costumo ler/que não gosto. E após quatro meses, finalmente, li um livro do desafio. O escolhido foi Mexa Comigo, da autora brasileira Josy Stoque. O livro estava gratuito na Amazon e eu aproveitei para ler para meu desafio. A ideia era ler um livro hot, pois pelo pouco que conheço da autora sei que ela tem livros nesse gênero, mas ao iniciar a leitura me surpreendi a ver que o livro não é hot (bom, ele tem momentos sensuais e com sexo, mas eu imagino que os hots sejam focados nisso a maior parte da narrativa, né?). Então eu encaixei o livro em romance de época, mesmo não sendo aqueles que se passam no século XVIII e XIV ele  se encaixa no aspecto de época, pois a história se passa nos anos 1940 e conta os costumes da época (e alguns fatos históricos).

Esse livro não teria feito jus a sua participação do "Desafio Saindo da Zona de Conforto" se realmente não tivesse sido um desafio para mim. Livros de romance são fáceis de ler, de modo geral, e dependendo da narrativa algumas leitoras terminam em um dia. Eu li o livro em quatro dias e enrolando muito para isso. Em vários momentos pensei em abandonar e desistir, mas persisti pois acho importante cumprir uma meta quando estabelecemos uma e por isso cheguei ao final da obra. Já é perceptível que eu não me encantei com a leitura, como tantas leitoras que comentaram na Amazon e no Skoob, por exemplo, mas não quero focar meu texto na ideia de que eu li um gênero que eu não gosto.

Vamos ao fato: Josy Stoque é uma autora excepcional. Ela sabe criar uma narrativa que chama a atenção dos leitores e em tantos casos prender ao ponto de ninguém querer largar o livro. A personagem Giulia — uma imigrante italiana que vive na colônia com sua família sonha em ser dançarina famosa, mas o comportamento abusivo de seu pai a torna cada vez mais longe desse sonho até que sua mãe toma as rédeas da situação e a ajuda fugir para São Paulo — é uma moça determinada a conseguir o que deseja e não mede esforços para isso. Personagens assim encantam qualquer leitora e não vai achando que só porque ela é uma "moça da roça" que ela é burra e ingênua, pelo contrário. Giulia foi tantos anos maltratada pelo pai que não irá permitir que esse comportamento se repita por outra pessoa.

Ao chegar em São Paulo Giulia conhece Andrei, um francês que se mostra disposto a ajuda-la na realização de seu sonho, ensinando dança a ela, dando luxo, a tornando uma dama da sociedade. Ele é aquele personagem tipicamente misterioso que solta poucas informações sobre sua vida, de onde ele veio, como conseguiu tanta fortuna e, claro, o personagem que encanta a protagonista com seu jeito carinhoso. O romance que nasce entre eles é bem bonitinho e crível, nada muito sonhador e impossível de acontecer; Assim como todos os dramas que nascem com esse relacionamento. Como eu disse Andrei é misterioso, toda a sua história de vida tem segredos que demoramos a descobrir. A história se desenrola com alguns altos e baixos no relacionamento do casal, mas também temos os momentos de treino de Giulia até chegar ao seu ápice. Assim como todos os romances tem uma questão importante a ser resolvida na trama e nessa história é a família de Giulia, mas essa parte não vou falar nada para não estragar nenhuma surpresa.

Minha experiencia com a leitura pode não ter sido boa, mas este livro com certeza será minha indicação quando alguém procurar algum romance do tipo "água com açúcar" para ler. A história tem uma sequencia que é narrada por uma outra personagem da obra, então se você ler este e gostar ainda vai poder curtir um pouco as personagens.

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Título: Mexa Comigo • Autora: Josy Stoque • Editora: Independente

Resenha: Vox

13/04/2020


Quando VOX foi lançado houve um grande murmurio em relação a este livro, divulgação pesada e muitas blogueiras resenhando e falando bem desta obra, que falando a grosso modo pode ser vista como O Conto da Aia desse inicio de século. Sim, pode falar que estou sendo presunçosa, eu até estou um pouco (até porque, vamos combinar, que O Conto da Aia é um clássico muito, mas muito, bom). O negócio é que VOX tem uma premissa muito forte, uma premissa que pode chocar mulheres como eu (feminista, com opiniões sobre o patriarcado, e uma "estudante" do feminismo, por assim dizer), uma premissa que por mais absurda que seja ainda assim pode acontecer em algum momento (ou algo semelhante). Tá, tá, pode me chamar do que quiser, mas é só olhar para o mundo e ver como algumas posições politicas conservadoras estão cada vez mais em ascensão, é só olhar para a maior potencia mundial (que inclusive é onde a história do livro se passa) e você irá entender um pouco. Maaaaas vamos ao que interessa, né?

Em VOX, após uma eleição democrática onde a extrema-direita conservadora (e religiosa, diga-se de passagem) assume o poder um novo decreto é estabelecido, onde as mulheres devem deixar de trabalhar para cuidar da casa e da família e são impedidas de falar através de um contador de palavras que fica no braço como uma pulseira. As mulheres podem falar somente 100 palavras por dia e caso exceda esse número um pequeno choque que aumenta a freqüência a cada conjunto de palavras é ativado. Assim como as mulheres, os homossexuais também tem seus direitos tomados, indo em prisões-colonias sem poder falar uma única palavra. A protagonista era uma Dra em Neurociência e tinha um estudo sobre afasia e após um ano de sua pesquisa interrompida o governo a procura para continuar seus estudos e assim poder curar o irmão do presidente.

Jean sempre foi uma mulher comum. Ela estudou, se esforçou muito para chegar até onde chegou, tem um bom marido e bons filhos, mas Jean nunca foi uma mulher que se preocupou com questões politicas. Ela nunca questionou o governo, nunca exerceu seu direito de votar (lembrando que nos EUA o voto é facultativo) e tudo isso a assombra agora que ela vê todos seus direitos sendo tomados. Sim, ela se sente culpada de uma certa forma pois sabe que se tivesse lutado no passado possivelmente a situação não teria chego ao extremo como chegou. Jean é uma mulher imperfeita, assim como todos nós, e acredito que por isso que a autora colocou um aspecto negativo dela que pode "chocar" as leitoras. Não vou falar o que é, pois seria um spoiler, mas é algo que é ruim para uma pessoa ser, mesmo que a vida seja toda uma merda (e não era para Jean antes do decreto).

Bom, deixando a protagonista de lado, a autora soube elaborar uma boa história, apesar de ter dado a impressão de ter se perdido no meio do caminho por causa dos conflitos pessoais de Jean, e não de tudo o que estava acontecendo do governo/país. Pode ser sido a sua intenção, mas para mim não funcionou muito bem, pois ao abordar mais questões pessoais de Jean e deixar as questões politicas de lado ela esqueceu de que os leitores procuram informações sobre esse sistema, procuram entender de verdade o porque de ele funcionar e como foi que as pessoas passaram a aceitar isso (no caso do livro a autora já pressupôs que todos os homens héteros vão simplesmente aceitar que calem as mulheres, o que não é bem assim, já que mesmo que a maioria seja macho escroto, como gostamos de chamar, muitos ainda seriam contra). À partir desse meu ponto de vista eu senti que a obra estava lenta no inicio e corrida no final, o que foi péssima escolha, pois o final em que precisávamos de mais informações e detalhes sobre os acontecimentos e ela cortou esses detalhes na mudança de capítulo. Então veja bem, ao final de um capítulo o personagem X estava vivo e no inicio do próximo já estava sendo enterrado, entende? Acredito que nenhum leitor gosta de ler algo assim.

Concluindo, com uma premissa incrível VOX é um livro que deve sim ser lido, principalmente por pessoas céticas em relação a politica e governo conservador,  mas que em contrapartida tem algumas falhas em sua execução e pode desagradar aos leitores mais exigentes. De qualquer forma é um livro necessário pela sua abordagem principal e nos mostrar uma realidade que poderá nos tomar aos poucos.

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Título: Vox (Vox) • Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro • Tradução: Alves Calado

Resenha: A Hora do Pesadelo (Never Sleep Again)

10/04/2020


Quando eu era criança adorava assistir a filmes de terror na sala de casa, geralmente a noite, com minha avó dormindo no colchão e uma coberta até metade dos olhos; Um desses filmes me causou um pesadelo que até hoje não esqueço: O jardim da casa da minha avó repleto de flores coloridas, borboletas e um clima de alegria em contraste com um homem macabro, todo queimado, e com longas garras acenando para mim com um sorriso diabólico. Acho que não preciso falar o nome dele.
One, two, Freddy's coming for you...

Desde então Freddy, por algum motivo, se tornou um dos meus personagens favoritos dos filmes de terror dos anos 80 e 90. Mesmo que nos dias atuais, ao assistir aos filmes, eu dê boas risadas, quando era mais nova sentia muito medo do que aquelas garras poderiam fazer enquanto eu estivesse dormindo. Freddy se tornou muito mais do que um personagem de terror amado, mas um símbolo de toda uma geração, seja de jovens sedentos por ver sangue nas telas ou de novos cineastas empolgados por fazer isso acontecer.

Neste livro temos toda a trajetória que levou a produção deste filme tão icônico. De inicio eu imaginei que seria mais um livro com curiosidades e alguns fatos que aconteceram durante as gravações e com os atores, mas ele foi muito mais do que isso. Thommy Hutson foi atrás de detalhes impensáveis para mostrar aos fãs a criação de Freddy e seu legado e isso inicio tem o nome de uma pessoa: Wes Craven. Muito mais que roteirista e diretor do filme ele foi um visionário do entretenimento de terror, e se não fosse por toda sua determinação e insistência A Hora do Pesadelo nunca teria existido.


Neste livro foram usadas diversas entrevistas com o elenco do filme, assim como câmeras, produtores, maquiadora, cabeleireira e diversas outras pessoas que tiveram uma participação minima nesse projeto. Todos muito orgulhosos e felizes de trabalhar em algo que até os dias atuais é reconhecido e amado, todos contando suas experiencias de forma descontraída e que, eu como fã, senti inveja de não ter feito parte.

Uma das cenas que mais sentia medo era logo na primeira aparição de Freddy que seus braços estão estranhamente longos correndo atrás de Tina, assim como a cena fatal onde ela sucumbi aos ataques da criatura e morre. Em um filme rodado nos anos 80, com um orçamento baixíssimo, não se pode esperar os melhores efeitos especiais, entretanto o que me surpreendeu foi saber que nessas cenas não foram usadas efeitos especiais e sim os práticos com um auxilio de vários profissionais e o projeto de um quarto giratório manual que causou muito desconforto na atriz.

Tudo no projeto foi feito a base da criatividade e disposição dos profissionais envolvidos naquilo, justamente por não ter muito dinheiro envolvido no projeto eles precisam pensar nas coisas nos mínimos detalhes para fazer dar certo na frente das câmeras e algumas delas só poderiam ser usadas uma única vez, como a cena da morte de Glenn (interpretado por Johnny Depp), como litros e mais litros e mais litros de sangue. A preocupação da equipe era onde conseguir mais, caso não desse certo na primeira tomada? E com qual dinheiro? Com uns errinhos perceptíveis somente aos olhos mais treinados a cena foi muito bem executada e até hoje surpreende quem assiste pela primeira vez.
Uma analise cuidadosa revela que, no estado do sonho, manipulando objetos ou em qualquer forma corpórea, Freddy Krueger está presente na tela por cerca de escassos oito minutos, dos noventa e um minutos de duração do filme, algo particularmente curioso. Esta constatação confirma a avaliação de Englund (ator que interpreta Freddy) de que talvez devessem ter mostrado mais Freddy, embora a história tenha comprovado que o seu diminuto tempo de tela não impactou na colossal capacidade do personagem se conectar com o público.
O livro conta com 520 páginas de informações sobre o filme clássico da franquia e fotos dos bastidores, com o personagem principal sendo, claro, Freddy e toda a sua produção; Mas também conta com pessoas que nem se quer sabemos o nome fazendo acontecer uma ideia de um não tão jovem diretor que tinha o sonho de mostrar as pessoas esse personagem, mal sabendo que Freddy se tornaria muito mais do que um personagem e sim um dos símbolos da cultura pop mundial, sendo até hoje querido e imitado em eventos de cosplayers, geek, terror/horror.

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Título: A Hora do Pesadelo (Never Sleep Again) • Autor: Thomas Hutson
Editora: Darkside Books • Tradução: Carlos Pimati

O que tô assistindo na quarentena

08/04/2020


Já estamos há quase um mês de quarentena, algumas pessoas bem menos (como eu), mas estou tentando aproveitar quando posso ficar em casa para assistir algumas coisas. Não estou colocando as séries em dia, pois a maioria me dão preguiça assim que começo a assistir, mas estou assistindo algumas coisas novas. Essa lista contém 5 programas que eu assisti/estou assistindo enquanto a quarentena não acaba. 


The Circle: Para mim, desde que vi o primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror refleti em como a internet e as redes sociais nos afetam, assim como moldam nosso estilo de viver. Esse reality show da Netflix vai mostrar um pouco mais na prática como que essa ferramenta afeta completamente nossas vidas.

Em The Circle temos pessoas concorrendo há um prêmio de 300k que precisam provar em entre si que merecem o prêmio através de uma rede social interna da competição. Eles postam status, tem conversas em grupos e privadas. O mais legal é que alguns são fakes, outros tentar ser eles mesmos e alguns fingem ser algo que não são. É uma dinâmica muito interessante que nos mostra as facetas das redes sociais da vida real.


Casamento as Cegas: Ainda em clima de reality show eu assisti Casamento as Cegas (Love is Blind) que saiu na Netflix também este ano. Não sou fã do tema casamento, mas gostei da ideia onde as pessoas se encontram em cabines a procura de um amor. Rolaram algumas tretas, algumas cenas fofas de amor, até questões raciais foram levantadas, e o final pode até ser (ou não) surpreendente.


Outlander: Apesar de não estar colocando as séries em dia eu estou aproveitando para colocar somente uma, após 3 anos sem assistir. Outlander é uma das séries que mais me cativou nos últimos anos e acompanhar a jornada de Jamie e Claire é tão boa, apesar de uns altos e baixos.


Hunters (A Caçada): É uma serie original da Amazon Prime e mostra um grupo (de judeus) se vingando de nazistas nos anos 70. Eu não gosto de filmes, livros e nem séries que envolvam nazismo, então essa série eu só comecei porque vi que o Jordan Peele tem relação com ela; Confesso que não estou gostando muito pois o ritmo é lento mas pretendo terminar a primeira temporada nos próximos dias.


BBB20: Por último na lista coloco BBB20. Fazia muitos anos que eu não assistia BBB e esse ano estava acompanhando pelo Twitter, até que me mudei de casa e fiquei um dias sem internet e por isso assistia TV aberta normal, então pronto... Acabei ficando viciada e agora torço arduamente pelo Babu e principalmente pelas tretas.

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E o que vocês estão assistindo nessa quarentena?

Resenha: O Lugar

01/04/2020


Todos devem se lembrar que há alguns anos atrás houve um surto de livros distópicos sendo lançados e adaptados; Alguns muito bons e outros nem tanto. Aqui no Brasil não foi diferente, vários autores também embarcaram nessa literatura politica e, com exceção das fantasias, qualquer semelhança com o cenário atual não é mera coincidência. Silvio Gomes é uns autores que embarcou nessa onda, mas não seguindo a moda e muito menos sem embasamento, pelo contrário. O autor é teólogo e especialista em ciências politicas, duas áreas que parecem tão diferentes mas andam juntas em vários cenários.

Em O Lugar o autor nos apresenta Lázaro, um jovem de 20 e poucos anos, que vive em um país (sem nome mencionado) onde há a politica da desconfiança. Essa politica consiste em todos desconfiar de todos, seja amigos, colegas de trabalho, e até mesmo familiares próximos. A ideia é totalmente absurda e claro que isso não funciona na prática, pois assim como nas distopias que estamos acostumadas o único beneficiado pela politica implantada é o próprio governo que fica acima de tudo. Lázaro é professor de literatura e por ter uma bagagem tão grande pelos livros que leu ele questiona a politica de seu país, principalmente pela existência das Rodas Sociais, um espaço onde as pessoas poderiam se expressar sem medo de represálias mas acabam se tornando locais de violência gratuita (para exemplificar: uma pessoa é agredida até a morte, e outras coisas podem acontecer ali também) e que falando assim parece até que poucas pessoas aguentariam ver — e Silvio prova que ao contrário do que parece as pessoas vêem sim o que acontecem ali sem reagir e muitas vezes elas agem ali naquele espaço com a mesma violência que os outros.
Nenhum governo cria uma ditadura sem a cumplicidade de uma parte do povo. O que vivi em meu país foi o que o meu povo quis viver. Povo e governo são cúmplices e suas ações, inevitavelmente.
Lázaro é um personagem que eu definiria como sonhador dentro do ambiente em que ele foi criado. Ele quer o melhor para as pessoas ao seu redor, quer o direito de ser livre, quer o direito de confiar em quem ama. Para nós não parece muito, inclusive até temos a ideia de que temos tudo isso (mas será que temos mesmo?); Mas o principal que ele quer é chegar no lugar que imagina que a sociedade viva em paz, onde todos confiem em quem ama, onde as escolhas são livres, e esse lugar ele não sabe onde fica, mas acredita e desejar conhecer assim como supõe que vários de seus autores favoritos conheceram. O livro conta então a busca de Lázaro por este lugar misterioso e tudo que essa crença afeta em sua vida, todas as mudanças que ele precisa fazer, todas as coisas que precisa acreditar e desacreditar para chegar até na realização de seu sonho. A jornada não é fácil mas eu garanto que o final vale a pena, principalmente por todos os elementos que Silvio usou para construir essa história e com base na formação do autor é fácil entender suas escolhas para o final de Lázaro.

Eu demorei um pouco mais do que o costume para ler este livro. Os capítulos são longos e não há "respiros" para que possamos digerir tudo que nos foi passado. Há muitos diálogos bem filosóficos que eu gosto bastante, mas senti falta de algumas descrições de ambientes e gestos das personagens durante os diálogos para dar o equilíbrio entre o peso de tudo o que esta sendo falado e do tempo que eu levo para compreender. Apesar do autor usar pontos, virgulas e travessão ainda assim eu tive a sensação de que estava lendo Saramago pela densidade de tudo. É claro que nada disso tira a grandiosidade deste livro, pois poucos autores abordam esse assunto (que eu ainda gosto muito) de uma forma séria e sem personagens heróicos e revolucionários.

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Título: O Lugar • Autor: Silvio Gomes • Editora: Jaguatirica
Livro recebido pela Oasys Cultural para resenha