Resenha: Os Testamentos


Fato que assim que vi o primeiro anuncio de Os Testamentos eu entrei em desespero para ler este livro, que prometeu ter as respostas para algumas questões deixadas em O Conto da Aia (segundo a própria autora) e já chego aqui exaltando essa maravilha da literatura contemporânea! Honestamente, se você não leu está perdendo seu tempo aqui, inclusive está perdendo seu tempo na vida. Essa leitura é, além de tudo, uma forma de mostrar a sociedade qual caminho ela esta seguindo sem muito esforço e divagações.

O livro irá nos contar três histórias paralelas que em determinado ponto se cruzam. A primeira é da tão temida Tia Lydia, a segunda é da filha de um poderoso Comandante e a terceira é de uma jovem que mora no Canadá. De inicio a cronologia fica um pouco confusa, mas como o livro em si segue aquele mesmo padrão do primeiro (parece um diário) logo fica fácil entender quando e onde cada história acontece.

Diferentemente das minhas outras resenhas eu não irei focar aqui sobre as personagens (com exceção da Tia Lydia), pois qualquer detalhe facilmente poderá ser spoiler. O bom é que o livro é tão além das personagens que elas se mostram ser apenas uma pequena peça em tudo que envolve Gilead. Começando, claro, por toda sua hipocrisia. O maior exemplo de dominação masculina que podemos ter atualmente está neste livro, assim como exemplo do quanto os homens temem as mulheres e querem provar sua masculinidade em cima de nós. Caso você nunca tinha lido O Conto do Aia ou tenha visto a série posso te colocar como comparativo sociedades onde as mulheres são submissas aos homens por causa de religião e para piorar, assim como nessas religiões, há casamentos arranjado entre meninas de 13 anos e homens de +40.

É revoltante ler um livro como este sabendo que as coisas ali descritas, que deveriam ser distópicas, na verdade estão acontecendo nesse exato momento e que as pessoas que ali vivem precisam fazer o que for necessário para garantir a sua própria sobrevivência, pois nem todos tem coragem de tirar a própria vida para acabar com o sofrimento (e claro que isso está longe de ser a solução). Mais revoltante é ter a prova de que a sociedade, principalmente a sociedade conservadora, na verdade tem interesse somente em seu próprio poder e dominação, capaz de eliminar todo e qualquer empecilho de seu caminho ainda alegando que é vontade de deus.
Toda mudança de governo pela força é seguida de um movimento para esmagar a oposição. A oposição é liderada por pessoas instruídas, logo quem tem instrução é eliminado primeiro. 

Eu gosto muito da forma como Margaret conta essa história, pois ela realmente nos faz refletir sobre o que estamos vivendo e o que poderíamos fazer para que não entremos em colapso. Por mais que o tema do livro seja extremamente forte a autora sabe como nos contar essas histórias de forma sutil, o maior exemplo disso é quando uma personagem está contando para outra sobre o abuso sexual que sofreu do próprio pai ainda na primeira infância. Causa sim repulsa, raiva; Mas ela sabe que não precisa dar detalhes para que nós entendamos o que aconteceu.

Fico muito contente de ver a outra face de Tia Lydia neste livro, pois após odiá-la tanto no Conto da Aia e na série eu tinha até deixado de vê-la como humana, sabe? Mas assim como as outras mulheres ela tinha um vida antes da queda dos EUA e o que não vimos anteriormente é o quanto ela sofreu para chegar até li. Sua posição respeitada e de poder em Gilead não é por uma crença na palavra divina, não é porque ela realmente acredita em todos aqueles discursos que já a vimos dar, mas é puramente seu instinto de sobrevivência falando mais alto do que qualquer coisa e eu só consegui pensar: Será que eu seria uma Tia Lydia? Ou será que eu resistiria e morreria antes? Quando se trata de situações extremas cada pessoa age de uma forma diferente e agora me sinto muito mais empática com ela.
A verdade pode ser um perigo para aqueles que não deveriam conhece-la. 

Você vai me desculpar pelo discurso, mas tem tantas coisas que eu poderia falar deste livro! O medo de dar spoiler é grande, então tentei ser um pouco superficial. A história é maravilhosa, mas acima de tudo a lição social que tem nessas 400 e tantas páginas é tudo o que precisamos atualmente e por isso que você precisa ler. Principalmente se você for mulher.

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Título: Os Testamentos (The Testaments) • Autora: Margaret Atwood

Editora: Rocco • Tradução: Simone Campos

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4 Comentários

  1. Me encantei pela capa, menina você tem fotos incríveis dos livros, amei seu blog parabéns e muito sucesso, já quero ler tudo só por causa da sua resenha. Muito sucesso!

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  2. ai eu li esse livro no começo do ano, foi minha segunda leitura e MINHA NOSSA! Eu li O Conto da Aia e eu fiquei me perguntando se precisava mesmo de uma continuação, pois Aia é um livro muito forte, mas assim que eu acabei Os Testamentos eu não sabia o que fazer da minha vida! Esses dois livros são incriveis, eles tem muito a nos ensinar, principalmente no mundo que a gente vive.
    Adorei sua resenha e suas fotos estão perfeitas!!

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  3. Oi Silviane.

    Eu estou bastante curiosa para ler este livro porque desejo saber mais sobre a República de Gilead e descobrir mais detalhes. Adorei saber de alguns pontos sobre o novo livro, especialmente que conta três histórias paralelas. Parabéns pela resenha. Vou tentar adquirir este livro o mais rápido possível.

    Bjos

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  4. Olá!
    Confesso que fiquei com um pouco de medo em ler sua resenha já que ainda não li o primeiro, mas lê-la só me deixou com ainda mais vontade de embarcar nessa leitura. Tenho o primeiro na estante, mas por se tratar de uma história mais intensa acabo que fico adiando-o para depois. Já coloquei na minha cabeça que desse ano não passa e agora já quero colocá-lo na lista de próximas leituras.

    www.sonhandoatravesdepalavras.com.br

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